sábado, 21 de julho de 2012

Mosqueiro, Apollo 11 e a mágica

Mosqueiro, 21 de julho de 1969.

Era mais uma manhã ensolarada de inverno amazônico. 
Eu era apenas um tímido moleque de apenas 7 anos. Para minha alegria, os vizinhos habituais do Murubira estavam presentes com seus filhos. Eles eram a minha garantia de diversão nas férias escolares de julho. Vanvan, Carol, Avany, Tatá, Pinga, Cilinha, Tony, Ruizinho, entre tantos outros que se somavam para curtir a praia, bater uma bolinha e, à noite, brincar de "Cai-no-poço", "Pó, Ruge e baton", "Pira", "Esconde-esconde", etc. Ou então, em momentos algo mais reflexivos, olhar para o céu noturno e arrepiar os cabelos com histórias e suposições sobre outros planetas e extra-terrestres, as enormes distâncias que nos separavam deles, e admirar a lua, sua beleza e seus mistérios. 

Gorducho, retraído e criado em ambiente de rígida moralidade cristã, era mais ingênuo que a média das crianças de mesma idade. Claro que era alvo preferencial de inevitáveis "encarnações" que acabava absorvendo com naturalidade. Na época, nem existia o termo bulliyng da atualidade (muito embora a prática nefasta já existisse epidemicamente nas escolas e outros ambientes). Contudo, por alguma razão, nunca senti nada próximo a qualquer tipo de sofrimento com aquela turma querida. Era algo que rolava numa boa, sempre entremeado com manifestações de respeito e amizade, que terminavam por amenizar tudo. 

Já encarava as primeiras paixões platônicas pelas garotas superhipermega lindas da turma. Uma tremenda ousadia para um gordinho com péssima autoestima. Daquelas que você em algum momento pensa: "te manca e vai procurar alguém pro teu bico, rapá!". De fato, somente bem mais adiante, já aos 15 anos, eu iria dar meu primeiro beijo na linda menina que nunca mais iria ver. Foi apenas uma noite e fim! Foi inaugurada então a primeira "ficada" da minha vida. 

Petromax
A ilha - que na época, mesmo em "alta temporada" ainda podia se chamar bucólica - estava com movimento acima do normal. Mesmo movimentada, não se via a barbárie que se vê hoje. Os poucos postes de iluminação pública existentes (ainda em madeira), geravam apenas um pequeno e tênue halo de luz amarelada logo abaixo. A energia elétrica fornecida por um gerador público só funcionava até às 22 h. Depois dessa hora, só velas, toscos candeeiros de querosene ou os modernos (e importados) "Petromax" das residências forneciam o mínimo de luz para as necessidades básicas. Dormia-se bem cedo. Nas praias e ruas, reinava a escuridão absoluta. Esta discutível precariedade, na verdade seria a responsável por uma das minhas mais belas lembranças de infância. Ela deu à todos o presente mais difícil de encontrar nos dias atuais: o céu mais estrelado que pude ver em toda minha vida. 

Neste cenário, há exatos 43 anos atrás, uma pequena televisão ADMIRAL de 14 polegadas em preto e branco, conectada a um tosco "regulador de voltagem" e a uma indispensável antena externa, mostraria precisamente as imagens abaixo.



Olhava para aquilo tudo e não conseguia disfarçar minha excitação infantil. Aquele instante mágico, de alguma maneira, era também a realização de um sonho pessoal. A família toda reunida em torno daquelas 14 polegadas, não dava uma palavra. Estavam todos encantados!

Meu pai esforçava-se para responder todas as perguntas que fazíamos. Eram muitas. Eu já me incomodava com o fato de que havia um grande atraso entre o fato e a imagem que nos chegava. Indignado eu pensava: "sacanagem! Isso tudo já aconteceu e só agora estamos vendo"! Mal entendia o empenho tecnológico necessário para que aquelas imagens desfocadas e atrasadas chegassem aos mais variados e distantes rincões do mundo.

Se não me falha a memória, a transmissão iniciou por volta da hora do almoço. As famílias estavam todas em casa. Poucos possuíam televisão no país. Menos ainda na agradável ilha. Talvez muitos nem tenham tomado conhecimento da façanha. Pude comprovar isso cerca de 5 anos mais tarde.

Aficcionado do plastimodelismo, montei um kit da Revell que constava de: 1 foguete Saturno, a cápsula Apollo 11 e o módulo lunar (veja aqui o kit, que ainda está à venda). Uma maravilha que montei com esmero e deixei em exposição no enorme quarto que dividia com meus 3 irmãos. O brinquedo não escapou da curiosidade de Antonio, filho da empregada de minha mãe.

Oriundo da cidade de Igarapé-Miri e apenas 1 ano mais velho que eu, ele tinha o típico perfil de caboclinho amazônico. Brincávamos muito enquanto sua mãe trabalhava. Um dia ele me perguntou sobre "aquela coisa". Espantado com a pergunta, com toda a paciência, descrevi todos os detalhes da missão Apollo 11, indicando o papel de cada um daqueles elementos. Para minha surpresa (e posterior indignação), ele simplesmente não acreditava!!

Desafiado, na sequência emprestei-lhe então uma edição especial da revista Veja (que guardo até hoje) dedicada a então designada "corrida espacial". Ricamente encadernada e ILUSTRADA. Não adiantou! Para minha absoluta irritação, ele não tirava da cara um riso maroto, (que tenho dificuldade em descrever). Mas em síntese, eu traduziria aquele riso assim: "esse almofadinha  cara pensa que vai me enganar"?

Para ler e ver mais:

9 comentários:

Marise Rocha Morbach disse...

"Bacanérrimo" este texto Barreto; eu estava em um sofá em São Paulo em 1969 vendo o homem pisar na lua: que viagem! Muito legal esta tua lembrança!

Carlos Barretto  disse...

Obrigado, Marise.
É sempre bom resgatar a memória. A gente se diverte e se emociona.
Bjs

Flávio Sidrim Nassar disse...

Carlinhos(desculpa, não consigo te chamar de Carlos Barretto)
Que beleza!
As lembranças de Moscou e da chegada do H à lua.
Nós não tinhamos tv em Mosqueiro.
O radio me desmotivou.
Peguei minha bicicleta e fui dar uma volta.
Era em torno do meio dia.
Tava tudo deserto.
Parecia jogo da Copa.
Fui até a rua das Mangueiras (16 de novembro), enquanto pedalava filosofei: eu aqui e o homem chegando na lua.
Tenho isso muito nítido.
Mesmo tendo sido um torcedor da URSS na corrida espacial, estava orgulhoso e feliz, me sentia humanidade, sem limites.
Obrigado por teres me estimulado à esta viagem de volta.

Carlos Barretto  disse...

Pois é, Flávio.
Seria muito interessante que muitos contassem para nós, o que estavam fazendo na época.
Obrigado pela visita.

Abs

Edyr Augusto Proença disse...

Carlos, adorei o texto. Não tenho recordação daquele dia. Talvez estivesse, como sempre ocorria naquela época, sonhando com outros mundos. Pensando bem, continuo assim..
Abs

Prof. Alan disse...

iBarreto, não tenho ideia de onde estava nesse dia, afinal de contas só baixei a este plano mais de 2 anos depois, em setembro de 1971.

Mas essa aventura, acho que a maior aventura do nosso tempo, me fascina até hoje. Tenho os vídeos de uma série da BBC, que produziu uma ficção narrada em forma de documentário, sobre como seria a viagem de seres humanos a outros planetas (Space Odyssey - http://www.imdb.com/title/tt0395417/).

É interessante lembrar a quantidade de coisas que temos hoje no cotidiano, que foram fruto das pesquisas feitas para viabilizar o programa espacial: o transístor e o circuito integrado; o forno de micro-ondas doméstico; a tecnologia de absorção de impacto dos tênis; óculos escuros com proteção UV; filtros de água; e tantas outras invenções que nem dá espaço pra falar.

Enfim, essa viagem pode ser comparada com a aventura europeia de lançar-se aos oceanos, há alguns séculos. Em pioneirismo, coragem e monumentalidade.

Carlos Barretto  disse...

Edyr
Todas as lembranças que tenho deste dia especial, foram narradas no texto. E olha que eu tinha apenas 7 anos.

Alan.
Sem a menor dúvida.

Abs

Marcelo disse...

Muito claros a retrospectiva, a memoria e o texto, Carlitos ! Acho q eu tava c a testosterona (afinal tinha 13 anos) mto alta nesse dia e portanto atras da Ana Maria, a primeira menina q dancei e "colei" naquelas festinhas de luz negra ! Recordo do stress do papai pra sintonizar e tal ! E ai, nao lembro direito... mas tenho a impressao q ...fui ... rs !

Carlos Barretto  disse...

Marcelo

Acho que fizeste muito bem!

Rsssss