domingo, 1 de maio de 2016

Entre bananeiras que separam quintais

...mas o avanço da ciência esmaga as obras-primas
Julio Verne, em: “Da terra à lua”

Vivia noutras esferas, o menino. Sempre que o chamavam para jogar bola de gude ele se esquivava e danava-se a trancafiar-se no quarto que dividia com três irmãos. Na boca da noite se esgueirava pela janela da casa a apreciar lua e estrelas. Vez por outra ia à varanda olhar a rua ou ao quintal apreciar o céu, sem passar além das bananeiras que dividiam o quintal vizinho, onde guardada estava a surpresa dos anos vindouros...
Ficou assim depois de ler Julio Verne. Passou a desejar sondar mundos abissais e interestelares quando a noite vestia aquele mundo.
Após mirar céu e seus olhos serem invadidos pela escuridão do lugar, baixava a cabeça e dava noutra varanda, pegada à sua. Lá ele descobriu que tinha uma luz de vela dentro de uma menina que crescia e sonhava com livros. O menino Julio no nome estava sempre a olhar aquela menina que, no facho de suas retinas, achava foco na pele da leitura dela.
Quem seria?
Foi depois de uma estação chuvosa de inverno amazônico, em que corpos adolescentes arrancaram suspiros de árvores, bichos e crepúsculos cúmplices; que muros romperam-se por entre bananeiras. Eis que iniciaram conversas.
Ele dizia que a lua não era longe e, subindo num balão cheio de um gás obtido do azoto, trinta e sete vezes mais leve que o hidrogênio, atingiria a lua após dezenove dias de travessia.
Ela suspirou; ar lhe faltou; quase desmaia. Ele a acudiu com água da cacimba, que havia numa cumbuca ao lado; achou que tivesse falado alguma asneira.
Ela recobrou-se depois de duas goladas, e disse:
- Não. Nada de asneira. Foi um certo Hans Pfael, de Roterdã, quem disse isso.
-Sim, é verdade, respondeu Julio, estupefato e com os olhos arregalados.
- Agora entendo o porquê de seu nome. Uma homenagem a Julio Verne?
-Sim. Foi meu pai quem alcunhou. Ele costumava lê-lo.
Já recuperada, retornaram ao livro de Verne. Leram juntos: “Assim, há alguns anos um geômetra alemão propôs enviar uma comissão de sábios para as estepes da Sibéria. Ali, em vastas planícies, deviam fazer desenhar imensas figuras geométricas, por meio de refletores luminosos, entre outras, a do quadrado da hipotenusa. Qualquer ser inteligente, dizia este geômetra, deve compreender o destino científico dessa figura“.
Assim se descobriram leitores. Assim descobriram a química do amor entre páginas de ficção científica.
Eles não se abalaram com o vendaval de palavras que ululavam pelos quintais, entre bananeiras, feito cercas que separavam os dois terrenos. Palavras novas eram agraciadas com beijos demorados e abraços em redemoinhos.
Os curumins cresciam e continuaram lendo a dois. Seus amigos não entendiam aquela mistura de sentimentos.
Outros curumins surgiram após desenlaces de DNA. As horas suprimidas a passar, de uma âmbula para a outra, feito relógio de marcar tempo, transformaram-se em livros espalhados pela casa, alargando-lhes o quintal e a vida.
Hoje as histórias contadas inundam a varanda de lembranças tantas. Lembram juntos e acompanhados dos filhos a epopeia das bananeiras que faziam fronteiras e se tornaram ninho de aventura quando olhavam para o céu.


Em parceria com Abel Sidney

2 comentários:

Raimundo Rocha neto disse...

Roger ,esse texto nos transporta à Belém , no início da década de 1970, onde morávamos em uma passagem na 14 de março, em pleno Umarizal, em frente ao PSM, onde as casas eram separadas por muros vivos de bananeiras! Lembranças de infância não muito distantes!!!!!!

Geraldo Roger Normando Jr disse...

Rochinha, as bananeiras são atributos de nossa infância adormecida, que se torna viva após relatos como este, de cortejo literários. Esse texto tem mais efeito por conta da proeza poética do Abel, um quase-vizinho de uma infância marcante dos tempo em que morávamos no interior dessa amazônia desvairada...