sexta-feira, 24 de novembro de 2006

Conselhos tecnológicos: não dê!

Outra situação que enfrento com bastante frequência, é do "amigo" que vem me pedir que "especifique" um notebook, porque finalmente, ele decidiu comprar um.
Aiaiai! Se ele soubesse como esta é uma situação delicada.
Estas máquinas, como absolutamente tudo em informática, são melhores e mais poderosas na proporção direta de seu preço. Não há como não meter a mão no bolso.
Resisto sempre um pouco, antes de evitar o cometimento:

- Olha, cara. Sou médico intensivista. Curto a tecnologia apenas como um hobby meio caro, que alivia minhas angústias cotidianas da vida em UTIs. Só isso.

Mas o sujeito geralmente insiste:

- Mas você montou o seu próprio PC. Aquela máquina maravilhosa que faz uma montanha de coisas. Tem uma rede doméstica wireless em casa. Como é que não pode me dar uma ajudinha.

Geralmente respondo:

- Sim. Sim. Tudo isso é verdade mas não apareceu num piscar de olhos. Li muito a respeito, comprei passo-a-passo todas as peças e tirei um mês inteirinho pra montar tudo. Cometi muitos erros toleráveis no contexto de um projeto pessoal. E ainda estou configurando minha rede doméstica e ainda continuo lendo muito a respeito.

Não tem jeito. Acabei por dar mais motivos para o sujeito continuar sua sanha. Ele fica me olhando com aquela terrível cara de pidão:

- Tá bom! Tá bom! - rendo-me aos fatos, concordando com o sujeito.

Inicia-se então uma longa e nunca reconfortante caminhada.
Na tentativa de ajudar o amigo, começo uma entrevista básica e delicada, que visa estabelecer o tipo de máquina que o consultante deseja, associado ao inarredável fato de quanto ele pretende gastar com o mimo.
Na esmagadora maioria dos casos, o "amigo" deseja uma supermáquina por um precinho camarada. Coisa que não existe nesta área.

Alguns chegam a cometer:

- Não. Não. Eu não quero nada muito exagerado não. Só quero rodar o Auto-CAD pra fazer a reforma de minha casa, o Photoshop para editar minhas fotos e um "programinha" para editar e gravar os vídeos de minha última viagem para a Europa.

Difícil evitar um certo divertimento numa situação destas.
Aí eu sugiro:

- Olha amigo. Pense num Macbook que faz tudo isso com folga ou então prepare-se para investir num notebook de última geração com pelo menos 1 gigabyte de RAM e um HD parrudo. Você não prefere montar uma workstation convencional em sua casa? Acredite! Sai mais barato!

E aí vem a indefectível cara de tacho:

- Puxa! Você só sabe indicar máquinas caras! Um amigo meu comprou no kid leitão um supernotebook por apenas 3000 reais!

Aí a coisa pega. Você é que acaba ficando muito p... da vida com o cara e ele com você.

Mas não pára por aí. Existem outros cenários mais ridículos, para dizer o mínimo.
Após a tal criteriosa entrevista com o cara, e após você ter perguntado umas 3 ou 4 vezes para o rapaz se de fato o principal interesse era apenas editar textos, fazer apresentações e acessar a internet, você concorda que aquele Celeron ou Sempron de R$ 2500,00 está adequado.
Muito bem! O cara corre pra loja e sai satisfeito com o negócio da china que acaba de fechar.
Uma ou duas semanas depois, o sujeito tem o displante de ligar e dizer:

- Pô, meu! Tu me indicaste aquela máquina que me custou tão caro e agora, meu filho diz que essa máquina é uma carroça! Uma toupeira! Que não consegue nem rodar o Counter Strike?

Aí não dá. Enrolo a bandeira e digo:

- Adeus amigo! Vê se não enche! Tosco!

4 comentários:

Ari disse...

Qualquer semelhança com "consulta médica de corredor" - , do tipo: " você é médico, não é? O que é bom pra essa manchinha que eu tenho aqui no braço? É que eu já fui num dermatologista, mas o remédio não fez efeito". E quando você responde: "não sei, sou intensivista!", o cara diz: "pô, num qué dizer o remédio, fala!" - não é mera semelhança.

Antonio Fonseca disse...

Dica de ouro: a primeira pergunta deve ser sempre quanto ele está disposto a gastar! Tendo ouvido uma resposta comece com a sua entrevista.

É fundamental nunca perder de vista a restrição inicial imposta pelo maior interessado em todo o processo.

Na pior das hipóteses, no caso de alguma reclamação descabida, você ainda vai poder "jogar isso na cara dele"! :-)

No melhor cenário possível o interessado na compra não vai demorar para entender ou que ele não tem cacife para comprar um portátil decente (e vai precisar se contar mesmo com um PC convencional) ou que precisa “abrir mais a mão” para evitar dissabores no futuro.

Flanar disse...

Sim, Ari. Toda a semelhança neste caso NÂO é mera coincidencia. Aí se inclui a chamada consulta por telefone também. E vc conhece algumas histórias engreçadas sobre o tema e bem que poderia nos contar em uma crônica ao Flanar. O convite está valendo.

Flanar disse...

É verdade, Antonio. A sensibilidade máxima do conselheiro e uma suprema habilidade, devem estar concentradas nesta delicada questão: $$$$$$$$