domingo, 19 de novembro de 2006

Pipi na rua

General Gurjão com Primeiro de Março.
Ao passar por ali, você não terá dúvidas da serventia que tem aquele espaço. Ali, à vista de todos, um concorrido mictório público à céu aberto. No período noturno, quando a esquina é muito mal iluminada, às vezes é possível ver mais de um usuário. Isto sem que ninguém ouse incomodar o desatino de muitos.
Um pouco mais à frente, já na esquina com a Padre Prudêncio, alguém deposita há anos, diariamente, um monturo de lixo e entulho. A calçada já não existe mais e os pedestres com ela não contam, forçados a andar no meio da rua esquivando-se do entulho. Isto a apenas 1 ou 2 quadras da principal praça da cidade.

Em uma reportagem na edição de hoje, o Diário do Pará pergunta: Problema cultural ou de educação? Inicia a matéria afirmando:

Belém possui 17 banheiros públicos em diversos pontos da cidade, como praças e feiras. No entanto, a cultura de usar a árvore ou poste mais próximos como mictório ainda existe, motivo de reclamação de vendedores, associação de amigos e cooperativas.

Para uma cidade como Belém, o número de banheiros públicos é absolutamente insuficiente. Ou será que 17 banheiros públicos seriam o bastante.
Mas arriscaria afirmar que mesmo que inundássemos Belém com banheiros, ainda assim, lamentavelmente, persistiriam os desatinados em seus propósitos.
Não duvidaria em opinar também que a educação é o principal problema. Se observarmos o universo de barbaridades que nossa população de todas as classes sociais é capaz de fazer, veremos o quanto ainda precisamos trabalhar para mudar esta realidade.
Vamos tentar elencar algumas delas:
  • cuspir no chão, arrotar entre outros atos impublicáveis;
  • som alto nos carros em logradouros públicos;
  • som alto em casas e apartamentos aos fins-de-semana;
  • jogar lixo pela janela dos automóveis;
  • falar alto em restaurantes;
  • não responder adequadamente a gentilezas;
  • não recolher os excrementos de seus animais de estimação;
  • ...
Deixo o restante da lista para os comentaristas complementarem.
Neste universo de barbaridades, o pipi na rua parece até uma mera conseqüência natural dos fatos. A educação é sim um grande problema.
Os indicadores sociais desfavoráveis tem sua parcela de culpa no resultado final. Desemprego, má distribuição de renda, pobreza, entre outros, podem sim gerar estes e muitos outros problemas como o aumento da chamada economia informal.
Mas analisando as ações governamentais ao longo dos tempos, o cenário é igualmente desanimador. Quando se viaja ao exterior, a inevitável comparação só piora o resultado da análise. Mesmo tendo em vista os procedentes questionamentos que se possa fazer sobre estas comparações, lá percebemos que o poder público atua muito mais aparelhado para fazer frente a estes problemas.
Paris por exemplo, além da aura romântica de cidade-luz, é também conhecida pelo infindável número de cães circulando pelas ruas junto com seus legítimos donos. Isto também a transforma em uma cidade em que devemos ter os olhos também no chão, apesar das belezas que nos forçam a evitá-lo. Mas lá podemos ver durante à noite, um veículo especializado para lidar com este problema. Uma espécie de trator equipado com um "sugador de titica" (me perdoem a expressão) e um forte jato d'água. Lá também vemos os tais banheiros públicos, espalhados de maneira massificada em todos os pontos da cidade. E não são gratuitos também.

E o que dizer de uma cidade que se sente confortável com apenas 17 banheiros públicos e é capaz de permitir que alguém deposite um monturo de lixo no mesmo lugar há anos, em plena zona central?
Como falar de turismo numa cidade com este perfil?
Um bom início é admitir que somos mesmo um povo rude e bárbaro e precisamos mesmo de muita educação. Em seguida, os poderes constituídos poderiam ajudar ampliando seus equipamentos e fiscalizando aquilo que a lei já postula em seus inúmeros códigos de posturas.
E que governos e cidadãos reforcem seus esforços no sentido de educar aqueles que vem depois a não repetirem estes atos tão condenáveis de seus pais.
Quem sabe assim, daqui a algum tempo, não ocorre a mudança?

3 comentários:

Yúdice Randol disse...

Já postei sobre jogar lixo em qualquer canto e sobre a mania de não dar passagem a ambulâncias. Esta, além de má educação, chega a ser criminoso. Mas tem muito mais, claro. Não temos como defender os conterrâneos.

Alex Lacerda de Souza disse...

acabei de chegar da Praça do Carmo, e vi vistosos e brilhantes carros serem estacionados por suas donas em cima da praça, para participarem de um cha de panela em um bar da moda, nos gramados e aonde mais deu, sem o menor respeito ou civilidade com o bem público. Se os "bem- nascidos " assim se comportam o que esperar de pessoas sem o dom da educação formal ? Em Belém e em boa parte do Brasil é feio ou burro respeitar as convenções sociais do resto do mundo, ainda não sei bem por que, mas desconfio que a culpa é de nossas elites, que acham que lei é coisa de/para pobre, e como ninguém é mais leso, os "pobres" também acham que se as desreipeitarem estarão sendo mais "modais".

Flanar disse...

Interessante sua tese, Alex. E nem um pouco impossível de se crer. Mas como explicar vc ir a casa de um pescador no interior do Pará e ser melhor recebido do que em algum flat da cidade?
Como explicar a maneira simples porém carinhosa que o caboclo recebe os "bem nascidos" em rincões amazônicos? Não é nada científico mas, pessoalmente tive boas experiências nestes cenários citados acima. São excessões ou são a regra.
Pra pensar...
Abs e obrigado pela visita.