sexta-feira, 20 de julho de 2007

A crise, as pinturas negras e o sinal fechado

Frente à crise política do governo Lula cumpre considerar quatro pontos fundamentais, todos interligados, mas aqui necessariamente decompostos em seu itinerário, no modo como é mantida por quem dela faz sustento, sem considerar o que atropela para sobreviver nas leis do vale-tudo da política nacional.
O primeiro deles é a chamada crise aérea, com raiz nas relações militares de trabalho, disparada pela insatisfação salarial dos sargentos da Aeronáutica. Foi ela quem superlotou os aeroportos e antipatizou a classe média com um governo que vem lhe afagando com uma pletora de oferta de concursos públicos, de financiamento da casa própria e a retirada dos miseráveis do alcance de seu pescoço (nada mais a incomoda, que a pobreza que lhe lembra a origem esquecida, ou a riqueza perdida). Quem conhece a História do Brasil bem sabe do valor da classe média para animar o baile da banda de música reacionária em tempos de crise política. Como sabemos, tal segmento, foi fundamental à instalação das piores experiências políticas vivenciadas pelo Brasil, de Getúlio a Castelo, como podemos ler no clássico do brazilianist Thomas Skidmore.
A segunda é o componente das tragédias aéreas que envolvem a GOL e a TAM. A explicação imediata dessas tragédias é uma embrulhada não sem propósito. No primeiro acidente há um possível nexo, representado pela possibilidade de que o cansaço determinado pela peculiaridade da escala de trabalho dos controladores de vôo, responda pela determinação da colisão dos aviões em pleno ar, num lugar onde não mora ninguém. Na segunda aeronave, contudo, faltam ainda elementos que comprovem um nexo causal com a crise aérea brasileira, em que pese todo o esforço empreendido pela súbita especialização de jornalistas e assemelhados nos conhecimentos de segurança de vôo. Tudo bem, de médico e louco todos nós temos um pouco.
No caso do avião da TAM, contudo, na condição de leigo e louco pela verdade, não posso deixar de destacar a possibilidade de falha na aeronave como principalidade da tragédia de Congonhas. Basta observarmos que outros aviões pousaram na mesma pista, naquele mesmo dia, no mesmo horário, sob as mesmas condições metereológicas; basta reconhecermos a inegável qualidade técnica do comandante do avião (53 anos, mais 14 mil horas de vôo, recentemente promovido na companhia); basta olharmos o vídeo registrado na pista de pouso, demonstrando a excessiva velocidade do avião – um bólido sem freios a mais de 200 km/hora; basta admitirmos que o “brinde” do reverso não é troco para uma sensação de segurança do piloto e dos seus passageiros, pois, na verdade, voar sem ele representa uma espécie de "contra-indicação relativa", para usarmos um termo médico, que remete a análise criteriosa de um contexto para adotar ou não uma conduta. Basta lembrarmos que o avião estava superlotado, com peso no limite, chovia muito naquela noite sobre a cidade de São Paulo ... e, de acordo com o Jornal Nacional vinha apresentando problemas com o reverso há mais de dez dias... prazo além do recomendado pelo fabricante para se pilotar um avião sem esse frenador.

Mas, antes de prosseguir, quero apontar uma distinção de estilo na divulgação entre o que ocorreu entre o primeiro acidente, da Gol, e este último, da TAM. Naquele as vítimas não tinham rosto, nem história, surgiam a vista do leitor apenas a tripulação do jatinho norte-americano e o brasileiro, os controladores, praticamente sem qualquer registro fotográfico desses atores. Neste último não: há nome, foto e história para melhor aproveitamento da exploração que fazem da tragédia. No primeiro a subjetividade das vítimas foi secundária ou nula - indicativo de respeito ao direito à privacidade da memória dos mortos. No segundo, certamente inspirada na mídia norte-americana em 11/09, foi trazida à luz, em primeiro plano, exposta no morgue do sensacionalismo dos cadernos especiais que iludem quando noticiam a tragédia.

O terceiro elemento, o asqueroso de todos, está na esfera da partidarização política da crise, no vilipêndio com que a oposição ao governo Lula se apropria da tragédia que enlutou tantas famílias, está no papel desempenhado pela mídia de garantir o êxito na retomada do poder, outrora duas vezes seguidas perdido por aquela.

Imediatamente ao acidente, em busca de notícias, expus-me a leitura de um blogue albergado na página eletrônica de O Globo (Blogue do Noblat) e fiquei escandalizado com a capacidade desse jornalista bem sucedido em desinformar. Mal acontecida a tragédia, esse profissional se indignava porque ainda não tínhamos notícias do número de vítimas, do porque não se liberava a lista de passageiros, todos sinais inequívocos de que o governo federal era inerte, agravando tensões. Como se ignaro fosse de que numa tragédia dessas, o tipo mais difícil de informação a ser prestada é aquela, por exatamente depender da comunicação com as equipes de resgate, interessadas em outro objetivo diverso das Parcas de Pindorama: resgatar, estabilizar acidentados e estabelecer a segurança no local do desastre.

Ignorava não - gravemos! Passava por ignorante para cumprir seu desprezível papel de agitador, censurando inclusive aos que pediam àquela assídua corte de comentaristas, sedenta de sangue petista, respeito na hora grave de incerteza e dor para as mais de duzentas e tantas famílias. Compreendi, então, o que me advertiram sobre o obscuro do jornalismo brasileiro no espaço virtual. Não pensei que fosse tão simples chegar até ele, em que pese aqui mesmo...
No que respeita a esse ponto, concluo como é assustador o modo como a mídia brasileira vem se comportando nos momentos de fragilidade política do governo Lula. Especialmente, pelo que esse modo contem de elementos próprios da ideologia fascista, inimiga de morte da liberdade das gentes. Sempre que penso nesta questão, acorre-me a assombração daquelas figuras horrendas que ilustram a produção artística de Goya, já idoso, surdo e ignorado pelos reis de Espanha, as pinturas negras, ao meu ver inegável testemunho do lado sombrio de nossa dissimulada humanidade.

O quarto é esse episódio menor, mas não menos elucidativo, protagonizado por Marco Aurélio Garcia, de quem recebo por linhas tortas a lição do quão difícil é manter o ritual de homem público, principalmente quando se é vidraça nesse tipo de circo romano em que se transformou o noticiário jornalístico sobre o acidente da TAM.

Eu sei que no passado recente, entre nós, homens públicos ofenderam com arrogância esclarecida aos aposentados e as mulheres brasileiras, em atitude de inspiração bem diferente daquela filmada pela Globo, ela própria objeto do insulto do assessor especial do Presidente. Contudo, isto não serve de atenuante para o gestual espontâneo de Marco Aurélio Garcia, como foi exposto no acougue midiático do Jornal Nacional, que o fez monstro insensível, gozador da tragédia alheia, em reação das mais abjetas que tenho visto em embates políticos.
Infelizmente, frente ao que escrevi, concluo no limite da crônica: há perigo na esquina e o sinal está fechado, como alertaram Belchior e Elis Regina nos repressivos anos 70 aos que davam bobeira para os então donos do estado brasileiro. Mas, não só: hoje, século XXI, vinte e três anos do fim da ditadura militar, eu, aqui parado de pijama, tenho a certeza de que aquele gesto foi certamente praticado por outros brasileiros, indignados com o esforço grotesco da mídia em imputar ao governo do Presidente Lula a responsabilidade integral pelo acidente. A ele, o cidadão anônimo, como aos mortos e as familias enlutadas os detratores do governo não prestaram atenção.

5 comentários:

Anônimo disse...

Bela tentativa, mas soa tão partidarizada quanto as opiniões do outro lado. A sua fala se parece com um monte de retórica que serve para tentar isentar os governos, não somente esse (cuidado), de qualquer responsabilidade.

Não é assim que se constrói a democracia ou uma sociedade mais justa, mesmo que suas razões sejam justificáveis sob certo ponto de vista.

Certamente a ?rainha? também não faria assim. Reflita.

oliver disse...

Tony Blair mostrou a Rainha, a linha de equívoco com que ela conduzia um assunto de estado, que podia lhe custar de vez o prestígio político junto ao povo inglês. No enredo do filme, há uma sutilidade com o que está acontecendo. A propósito, vc. assistiu ao filme? Parece-me que não.

oliver disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
oliver disse...

oliver disse...

Segundo, sempre existe um lado. Não há dúvida... um mundo homogêneo, que pretendem alguns, seria extremamente perigoso e aborrecido.
Mas, o limite ético não é arredável, para lá e para cá de acordo com as conveniências pessoais, partidárias ou religiosos. No direito à crítica e na reação a status quo que nos desagrade.
Se não for assim, nada nos resta senão a barbárie de reconhecermos que os fins justificam os meios, de que as oposições destrutivas, nas experiências democráticas, constroem ao final alguma coisa de útil para a coletividade.

Anônimo disse...

Para mim, o Marco Aurélio Garcia deu uma de Fradim, do Henfil, prá cima das nossas sempre elites reacionárias: TOP, TOP, TOP...
Mas essas, pode cair até trens...NÃO VOLTARÃO!
Tchau, ACMagalhães.