sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

À moda de Chávez

Pior que perder uma disputa, é não saber perdê-la. Por isso, faria melhor o ministro Tarso Genro se ficasse calado, em lugar de minimizar com ironias a derrota do governo na votação da CPMF.

De acordo com a Folha Online, em formatura de novos policiais federais realizada hoje, da qual participou, Genro fez as seguintes afirmações a respeito de Fernando Henrique Cardoso e da vitória da oposição no embate no Senado:

É visível que, por trás desse movimento, tem a sombra do Fernando Henrique Cardoso, que não admite que o Lula é melhor presidente do que ele. E que o governo tirou o país da estagnação e o presidente Lula é muito mais respeitado internacionalmente do que ele.

Essa atitude do Fernando Henrique Cardoso demonstra que ele estava fazendo revanche não só da derrota que sofreu, com a não-eleição de seu candidato.

[É uma revanche] à derrota que está sofrendo no seu íntimo, na sua dor que vem expressando do fato que o presidente Lula tirou o país do atoleiro que ele deixou. Isso dói muito nele.

O ministro também disse que o DEM e o PSDB, supostos responsáveis pelo não à prorrogação da contribuição, “agiram dentro do processo democrático” para impor uma derrota ao governo.

As referências ao processo democrático de votação do projeto no Senado não parecem exprimir o verdadeiro pensamento de Tarso Genro. Falasse ele com sinceridade, deveria ter enaltecido a forma como a votação se deu, e não atribuí-la ao alegado arrivismo da oposição.

Afinal, o governo deveria fazer uma auto-análise percuciente das razões de sua derrota. Notadamente porque não só a oposição votou contra o Executivo; parlamentares da base aliada também disseram não à prorrogação da CPMF. Prova de que a base não é tão sólida, nem tão aliada assim. E a culpa não é de FHC.

3 comentários:

Oliver disse...

Francisco,
Vamos por os pingos nos is. A coalizão do PSDB e DEM derrotou o governo Lula, inviabilizando a CPMF. Qual é o problema de assumir isto? Não têm a certeza do que fizeram? Ou é medo do governo os comparar aos golpistas que tentaram apear o Coronel Chávez do poder em anos recentes?
Pessoalmente acho que fizeram uma burrada. Não pela CPMF em si. Mas pela forma abrupta com que se tiram 40 bilhões de um caixa governamental, em um país com problemas seríssimos de pobreza e desigualdade social. No meu entendimento, isto denota desprezo para com os pobres, comparável ao mesmo desprezo que levou uma garota pobre a ficar presa com vinte homens numa cela, por 30 dias, sendo submetida a violência sexual e humilhações.
Entretanto, o grande estrategista para a não aprovação da CPMF foi FHC. E quem o diz não é o Ministro Tarso Genro. Reconhece-o a Folha de São Paulo, um tradicional adversário do governo Lula, na edição de hoje, conforme publicado na coluna painel.
No "potin" FHC, modesto, nega e dá a honra da batalha da CPMF ao seu "finíssimo" Senador do Amazonas, que estaria ingovernável.
A atitude é típica da política, especialmente quando envolve figuras de alto coturno, que, para não se exporem em assuntos com potencial de nitroglicerina, operam nas sombras e põem à luz os seus perdigueiros como artífices da operação. É assim que funciona, mesmo quando a coisa tem a assinatura dos punhos de renda do príncipe dos sociólogos.
Pelo dito, Genro não fez feio pelo que falou.
Quanto a análise que reclamas, imagina quantas não estão sendo feitas nesse momento, inclusive aqui mesmo ao meu lado (risos).
Quanto a culpa, eu prefiro o raciocínio dos orientais: quando der errado não busque os culpados, entenda o processo e o melhore.
Abs.

Francisco Rocha Junior disse...

Meu caro Oliver,
Vamos por partes, como diria Jack o Estripador (ou sua versão nacional menos glamourosa, o coronel Hildebrando Pascoal):
1. Não creio que o PSDB esteja deixando de assumir a vitória na votação da CPMF. Afinal, o partido apresentou-se desde o início dos debates contra a prorrogação; os governadores do PSDB é que sentiram a barra e assumiram a defesa da contribuição, notadamente os mais lustrosos deles, José Serra e Aécio Neves. Os parlamentares tucanos, porém, assumiram claramente sua posição, durante e depois da votação. Basta lembrar do discurso de Arthur Virgílio na tribuna e sua efusiva comemoração, ao final da sessão;
2. Concordo que prescindir de 40 bilhões de reais por ano não é bom para governo nenhum, daqui, de Serra Leoa, da França ou dos Estados Unidos. Dinheiro em caixa nunca é demais, ainda mais para um país com as mazelas e necessidades do Brasil. Entretanto, como contribuinte que não recebe quase nada de volta daquilo que paga de impostos – e pago-os aos montes, como servidor público e em minha atividade privada, como de resto todos nós pagamos – não posso deixar de ter um certo júbilo pela diminuição imediata da carga tributária que me onera;
3. No que diz respeito ao objeto específico do post, ratifico minha posição: FHC pode ter manobrado nos bastidores para que os senadores peessedebistas fechassem questão em torno da não-prorrogação, mas o grande culpado pela derrota do governo foi ninguém mais ninguém menos que o próprio governo. A prova disso é que, insisto, parlamentares que formalmente compõem a base aliada votaram contra a prorrogação da CPMF, em que pese a demonstração clara e inequívoca da importância que a matéria tinha para o Palácio do Planalto (e nem poderia ser de outra forma, não é mesmo?). A base aliada simplesmente mostrou que não existe como tal: é um amontoado de parceiros (?) sem rumo certo, sem identidade ideológica ou de projeto de país, que vota com o PT por fisiologismo, e não por pensar no mesmo rumo que o presidente ou seu partido.
A forma de construção desta massa parlamentar só podia desembocar nisso. E, creio, assim será até o final do mandato, de modo muito mais explícito. Lula precisa se cuidar, pois o sinal foi claro: ou o presidente é mais generoso com seus parlamentares muy amigos, ou esta foi somente a primeira de muitas derrotas nos próximos três anos. O que, sinceramente, espero que não aconteça.
Abs.

Francisco Rocha Junior disse...

Oliver, bate-me uma suspeita para cujo esclarecimento talvez possas contribuir: alguém (imprensa, governo, etc.) levantou alguma lebre sobre o papel da FIESP no "convencimento" dos parlamentares aliados do governo que votaram contra a CPMF?