quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

87%

É de 87% o quantitativo de habitantes de Belém, a capital do Pará, que não têm acesso a saneamento básico. Atenção aos detalhes: capital do Estado e saneamento básico.
E é de uma indecência extrema que um dado como esse não tenha sido explorado nas últimas campanhas eleitorais, sobretudo a que tinha por foco, justamente, o Município. Não digo mencionado, e sim explorado à exaustão. Obviamente, não se trata de aspecto a ser lembrado pela prefeitura, ainda mais em se tratando de uma gestão acostumada a simples e peremptoriamente negar tudo de ruim, mesmo que sejam fatos gritando aos olhos de todos. Nem pela Câmara Municipal, já que faz tempo que os parlamentos substituíram a missão institucional de fiscalizar o Executivo pela de protegê-lo e bajulá-lo, em troca de cargos, emendas orçamentárias (que não precisam ser executadas) e outros favores. Mas qual o papel da oposição? E qual o papel das organizações da sociedade civil? E me atrevo a perguntar: qual o papel da imprensa?
Se uma cidade não oferece a seus habitantes saneamento básico, o que se pode esperar dela? Que resolva seus outros problemas infraestruturais que, a despeito de importantíssimos, são menos básicos?
Deveria ser construída uma espécie de placar, no qual esse número - 87% - ficasse exposto ao público o ano inteiro, algo como uma contagem regressiva, para que cada belenense se lembrasse de, todo dia, exigir esgoto e água tratada. Quem sabe esse número também não ajudasse o cidadão comum a se lembrar que um voto vale bem mais do que camisetas coloridas.

3 comentários:

Fabíola Assunção disse...

Credo, Yúdice! Até me espantei com o altíssimo percentual. Só por curiosidade, onde você conseguiu essa informação?

Pior que deve ser isso mesmo. Veja: Belém possui em torno de 70 bairros. Deste total, apenas 7 (ou seja, 10%) podem ser considerados bons para morar com dignidade: Nazaré, Umarizal, Batista Campos, Marco, Reduto, São Braz e parte da Pedreira. Não depreciando os demais bairros, claro, apenas constatando a triste realidade em que vivemos.

Apenas 7 - sete! - bairros bons na Capital do Estado! Que lástima.

Vou perguntar pela milionésima vez: como é que o nosso povo sofrido e castigado pela má gestão Duciomar Costa pode ter reeleito o sedizente?

Não dá para entender.


Fabíola Assunção

Diógenes Brandão disse...

De fato, não há uma mobilização social fortificada que combata este estado calamitoso e medieval em que nos encontramos.

Mas porque isso não é exposto?

Ora, quem conhece algum dono de jornal, jornalista, vereador, deputado, prefeito, governador, juiz ou advogado que more em cima de pontes e não tenha água tratada em casa?

Lembro que a FIESP lançou um placa para contagem da arrecadação de impostos no Brasil, se um deles (empresários) passassem pelas condições de vida, tal como vivem os inúmeros belenenses na periferia da cidade, ao certo o placar seria com outro indicadores.

Yúdice Andrade disse...

Cara Fabíola, a informação estava em reportagem de "O Liberal" de hoje, mencionando dado que consta do anuário sobre a cidade, que aquele jornal publica em parceria com a Vale.
Para mim, serviu como atualização, porque dez anos atrás o número era esse, senão pior. E eu que pensava, ingênuo que sou, que as coisas haviam mudado!

Caro Diógenes, sua lembrança sobre o placar dos impostos foi felicíssima. E nos remete ao velho tema da empatia. As autoridades estão se lixando para o saneamento básico. Só interessa a carga tributária. Claro que também é uma causa justa. Sou revoltado com os impostos que pago, inutilmente. Mas também me interessa a questão do saneamento, embora eu more num bairro seco e saneado. No mínimo, é uma questão de dignidade humana e segurança ambiental.