segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

HIPERGRAFIA - TALENTO OU DOENÇA?


Philip K. Dick, escritor


Hipergrafia é o termo médico usado para descrever o impulso que leva uma pessoa a escrever de forma compulsiva, quase que ininterrupta.
Na literatura há vários autores prolíficos, alguns célebres (como Victor Hugo e Honoré de Balzac) e outros totalmente desconhecidos do público em geral (como a sul-africana Mary Faulkner, a qual figura como recordista no Guiness, com mais de 900 livros), candidatos a este diagnóstico pelas suas enormes produções literárias.
Do ponto de vista neurólogico o entendimento ainda ocorre de maneira parcial. Sabe-se que o referido impulso origina-se no Sistema Límbico (área cerebral relacionada às emoções), ocorrendo a modulação (ou "edição") nos Lobos Temporais.
Algumas doenças, como o transtorno bipolar e a epilepsia do lobo temporal podem desencadear a compulsão. Curiosamente, se tratados com antidepressivos ou antiepilépticos, os portadores de hipergrafia são "contidos".
Em relação ao talento para a arte de escrever, parece não haver uma relação qualidade/quantidade clara. O célebre caso do pastor americano Robert Shields, que durante 25 anos manteve um diário de seu dia-a-dia, minuto a minuto, num total de 75 mil páginas (4 mil livros, virtualmente) desprovidas de valor literário, é um exemplo clássico.
Um dos meus autores favoritos, o americano Philip K. Dick, famoso pela sua obra de ficção científica, sofria de um "excesso de idéias" tão brutal, que chegava a escrever mal, tendo deixado muitas obras finalizadas de forma tosca, apressada, para passar imediatamente a outros projetos. Muitos livros e contos seus, no entanto, foram caprichosamente "lapidados" por ele, e são considerados obras primas do gênero (como "O Homem do Castelo Alto" e "Os Andróides Sonham com Ovelhas Elétricas?").
O mais curioso em relação a Dick é o fato de que nem mesmo um Acidente Vascular Cerebral Hemorrágico relativamente grave pôde diminuir o seu impulso pela escrita, tendo ele mantido grande produção por ainda 3 anos, até morrer. Contudo, os seus últimos livros, como "Valis" por exemplo, são estranhos e totalmente diversos da fase pré-derrame.
E o raciocínio lógico indica a existência de mecanismo semelhante (talvez "em espelho") para a compulsão pela leitura.
O próprio processo criativo ainda é um vasto território a ser navegado pelas neurociências, em tempos vindouros.

5 comentários:

Mirella Santos disse...

que doença estranha, mas mesmo assim há o que se questionar apesar de ser a escrita compulsiva há de se questionar se há uma genialidade por trás disso ou não, adorei o post

Scylla Lage Neto disse...

Obrigado, Mirella.
Pessoalmente acredito que há sim um que de genial na hipergrafia.
Abs.

Patricia Smaniotto disse...

Apesar de simpático, você deveria dar o crédito do conteúdo e muito da forma dela ao texto do Moacyr Scliar, que eu tinha acabado de ler antes de ler o seu:
A incurável “doença” da escrita
Impulso que leva uma pessoa a escrever parece originar-se no sistema límbico – conjunto de células cerebrais associadas à emoção – e nem sempre gera talentos
por Moacyr Scliar
GALERIA NACIONAL DA IRLANDA, DUBLIN

Nos últimos anos a tecnologia possibilitou identificar no cérebro as regiões responsáveis por muitas funções intelectuais. Mas será possível aperfeiçoar esse conhecimento? Será possível identificar, por exemplo, uma área responsável pelo impulso que leva uma pessoa a escrever?

Esta foi a pergunta que se fez a neurologista americana Alice Weaver Flaherty, da Universidade Harvard, e que procurou responder no livro The midnight disease: the drive to write, writer's block, and the creative brain (A doença da meia-noite: o impulso para escrever, o bloqueio do escritor, o cérebro criativo). Sua motivação era, antes de mais nada, pessoal. Pouco tempo depois de dar à luz gêmeos prematuros que em seguida faleceram, ela sentiu um desejo irresistível de escrever, e sobre qualquer coisa. Um ano depois, novo parto; de novo gêmeos, que desta vez sobreviveram, mas de novo o incontrolável impulso da escrita.

Hipergrafia é o termo médico para descrever essa situação, conhecida há muito tempo: o poeta romano Juvenal falava, no primeiro século d.C. da “incurável doença da escrita”. Recentemente constatou-se que a hipergrafia é freqüentemente desencadeada pela epilepsia do lobo temporal, e que às vezes está associada à doença bipolar, na qual a mania se alterna com a depressão, sendo que os antidepressivos conseguem “estancar” o fluxo verbal. O impulso para escrever parece originar-se no sistema límbico – conjunto de células cerebrais associadas à emoção – e transformado em idéias “editadas” pelos lobos temporais. Alguns portadores de hipergrafia tornaram-se famosos. O pastor americano Robert -Shields manteve, de 1972 a 1997, diários que retratavam sua vida minuto a minuto e que encheram 94 caixas de papelão num total de 75 mil páginas, o suficiente para dar uns 4 mil livros de porte razoável. Virginia Ridley, da Geórgia, escreveu menos, 10 mil páginas, mas o seu texto foi mais útil: quando ela morreu de forma misteriosa, serviu para absolver o viúvo, acusado de assassinato (problema deve ter tido a polícia para ler tantas páginas).

E também existem escritores prolíficos, aqueles que escrevem muito. O que não é necessariamente um sinal de talento. A lista dos autores mais produtivos do mundo inclui nomes absolutamente desconhecidos para a maioria dos leitores, como o da sul-africana Mary Faulkner, que, diferente daquele outro Faulkner – o William – não ganhou o Nobel mas está em primeiro lugar na lista de recordes do Guiness, como autora de 904 livros; Lauran Paine, autor de 850 publicações; e Prentiss Ingraham que publicou 600 obras, das quais 200 sobre o cowboy Buffalo Bill. Mas na lista também estão os reputados Georges Simenon, criador do Inspetor Maigret (mais de 500 livros) e John Creasey, autor de conhecidos thrillers. Prolíficos foram também Charles Dickens, Honoré de Balzac e Victor Hugo. Segundo Shakespeare, autor razoavelmente fecundo, há mais coisas entre o céu e a terra do que alcança a nossa vã filosofia. O mesmo se pode dizer do processo criativo.

Até o fechamento, como pode ver, utiliza o mesmo "gancho", como nós jornalistas dizemos. O endereço do texto do Sclyar é http://www2.uol.com.br/vivermente/artigos/a_incuravel_-doenca-_da_escrita.html

Scylla Lage Neto disse...

Patrícia, me senti até lisonjeado com a comparação feita com Moacyr Scliar, mesmo com a sua insinuação velada de que teria havido plágio de minha parte.
Vejo em muitos jornalistas que escrevem sobre assuntos correlatos às neurociências a prática pura e simples da cópia de periódicos importantes (Nature e Science, por exemplo), mesclando os textos com entrevistas de especialistas locais (geralmente do eixo Rio-São Paulo), disfarçando assim a abordagem superficial com que assuntos por vezes complexos são supostamente dissecados.
Reli o texto escrito há 3 anos, sem pretensões jornalísticas, para este blog, e li o ótimo texto de Scliar em seguida, e sinceramente não identifiquei grandes semelhanças entre os dois, talvez exceto de que ambos versam sobre o mesmo tema, a fascinante hipergrafia.

Carol lucas disse...

engraçado, me chamo carol e pesquisando meu problema achei a hipergrafia, escrevo muito e minhas mãos vivem rabiscadas, tenho compulsão por escrever, gasto em media cem folhas por semana escrevendo coisas inúteis, será que tenho o problema? rsrs