terça-feira, 28 de abril de 2009

Histórias do Murubira: a árvore


Imagem: Carlos Barretto (2009)*

Estas sementes aí de cima, tem uma história. Permitam-me compartilhá-la com vocês.

São de uma árvore muito bonita, que a prefeitura uma vez plantou, na ocasião da última reforma no muro de arrimo da praia de Murubira, no Mosqueiro. A árvore sempre encantou a mim e a meus filhos pelo caule longo e copa muito ampla, mas, principalmente, pelas belas sementes que dava. Espalhava pelo chão centenas de sementinhas de cor vermelho vivo e brilhante.
Com elas, feito um ábaco, ensinei-os a contar, ainda em tenra idade. E guardava sempre as sementes recolhidas em uma velha farinheira de madeira.

Um dia, após uma forte tempestade, um raio fulminaria nossa querida atração. Foi um choque para todos. A tristeza foi muito grande. Após algum tempo, ruminando aquela tristeza, decidimos que devíamos plantar uma daquelas sementes. Desejávamos ver uma árvore igual aquela que deixara de existir, em toda sua exuberância, espalhando suas sementes na porta de nossa casa. Foi então que, recolhemos algumas sementes e as trouxemos a Belém. Ao chegar em casa, conseguimos um vasinho e plantamos com todo o esmero. Após alguns dias, para nossa alegria, eis que surgia um belo broto. Por semanas, o broto cresceu e se tornou um plantinha de cerca de 20 cm. Chegava a hora de tirá-la do vasinho e transportá-la para o lugar definitivo.

Na primeira oportunidade, levamos com todo o cuidado o vasinho de volta para o Mosqueiro. Meu filho mais velho, então com 7 anos, carregava o vasinho com tanto cuidado, que parecia ser seu último pertence. Chegamos como sempre à noite e logo pusemos mãos à obra.
Estudamos o lugar de morada definitiva da plantinha. Atravessamos a rua, olhamos a casa bem de frente. Com atenção, observamos que a casa já possuía um velho flamboyant, plantado por minha mãe do lado esquerdo, (pouco depois da construção da casa, que tem mais de 60 anos), e decidimos que deveríamos plantar a nova futura árvore do lado direito. Assim, equilibraríamos a visão da entrada principal e ganharíamos sombra em uma área que por muitos anos recebia o sol frontal da tarde.

Assim foi feito. No período inicial, tudo era pura ansiedade. Será que ela se adaptaria bem no local escolhido? Aceitaria o destino que lhe estávamos propondo? Os caseiros saberiam valorizar a mudança que estávamos implantando? As dúvidas eram muitas.

Mas o tempo passava e a cada fim-de-semana que íamos a Mosqueiro, logo corríamos para conferir seu desenvolvimento. Em pouco menos de 3 meses, a planta cresceu um pouquinho mas, deixou ver mais galhos e mostrava inegáveis sinais de felicidade. Aliviados, constatávamos que a idéia se sedimentava com tranquilidade.

Os tempos passaram. O menor, na época do plantio com 3 anos, agora tirava fotografias com o exato tamanho da pequena árvore, fazendo questão de segurar seu caule com as pequenas mãozinhas. O mais velho, já ultrapassava e muito a sua altura. Até que, finalmente, as coisas começaram a se inverter. Eles cresciam. Mas a árvore, dava de 20 a zero neles. Espantados, foram pegando cada vez mais gosto pelo seu acompanhamento. Toda vez que chegávamos no Murubira, eles logo corriam para a frente da casa gritando:

- A árvore! A árvore!

Pois agora, passados quase 10 anos de seu plantio, a árvore esparrama suas sementes diariamente no gramado. A generosa sombra que ela proporciona, agora nos permite botar uma rede e dormir no terraço, sentindo os ventos e ouvindo as marés.

No momento, estamos em nova fase. Recolhemos sempre todas as sementes que podemos e guardamos na velha farinheira de madeira. Algumas se perderam. Outras, após conseguirmos uma vez mais a cumplicidade dos caseiros e de seus filhos, foram ficando e enchendo a farinheira. E hoje, é tudo isso que temos.

Uma farinheira inteirinha, cheia de felicidade.

*Não sei a razão mas, toda a vez que publico uma imagem, o blogger se encarrega de deixá-la anêmica. Já as submeto a alguma edição prévia, carregando na saturação. Mesmo assim, elas acabam deste jeito, como se necessitassem de sulfato ferroso.

Mais sobre o assunto em:

19 comentários:

Cléoson Barreto disse...

Bonita história. São lembranças assim que fazem a vida valer a pena. Espero viver experiências assim com meus pequenos (8 anos, 1 ano e mais um pequeno que nasce daqui a 5 meses).

ANDRÉ BATISTA disse...

Dr Carlos
Lembrei em certo momento do Joao e o pé de feijão. Abraço

ANDRÉ BATISTA disse...

Alguém sabe se é possível e como configuro o twitter para o celular?

Yúdice Andrade disse...

A entrega da intimidade, em um blog, tem esse ar fascinante, carregado de vida, que dá um colorido todo especial ao texto e à imagem, mesmo desbotada.
O blog, aliás, permite-nos guardar essas memórias de modo visual, para a posteridade.

Carlos Barretto disse...

Pois é, amigos. Acho que "baixou" Santo Ambrósio" ontem.

Abs

Carlos Barretto disse...

Oi André.
Não sou usuário do Twitter. Mas penso que as respostas a sua pergunta, vão depender do tipo de celular.
Se vc utiliza o iPhone, é fácil. Existem muitos aplicativos gratuitos na iTunes Store que fazem a comunicação não só com o Twitter bem como Facebook, Orkut além de MSN, Yahoo Messenger, Google Talk, entre outros.
Entre eles, citaria o Fring que vc baixa direto utilizando o link abaixo:
http://itunes.apple.com/WebObjects/MZStore.woa/wa/viewSoftware?id=290948830&mt=8
Nas demais plataformas, (Windows Mobile, Blacberry, Symbian) é preciso pesquisar nos repositórios de software para estes aplicativos como Handango, Pocket Gear, etc.

Abs

Carlos Barretto disse...

Cléoson
Estas e outras histórias certamente bem mais interessantes, vc faz acontecer. Basta se deixar envolver por elas. E depois, relatar pra gente aqui.

Abs

Carlos Barretto disse...

Yúdice

Vc é um especialista neste tipo de post. Rendo-me humildemente à sua espontaneidade e clareza, bem superiores a meus cometimentos eventuais.

Abs

Lafayette disse...

Perfeito... perfeito...

Carlos, posso subir para o front, lá no meu blog?

trisesp

Carlos Barretto disse...

Claro que sim, Lafa.
Abs

Anônimo disse...

Parabéns, é uma linda história, e adoro o fato de que pessoas tão distantes, e que às vezes nem se conhecem, vão poder compartilhar esta experiência com você.
Achei as sementes lindas, mas o sentimentos envolvidos são mais lindos ainda,

Ana Marcia

Carlos Barretto disse...

Oi querida.
Há quanto tempo não nos vemos.
Obrigado pelo seu gentil comnetário.

Abs

Hellen Rêgo disse...

Fiz o ensino fundamental em um colegio cheio dessas arvores, com mts sementinhas. Passava o intervalo juntando e trazia para casa. Depois tentava fura-las para fazer colares, nunca consegui.:)
Mamae sempre sumia com elas...
bons tempos

Lafayette disse...

Obrigado Carlos.

Assim que meu tempo parar de correr, vou ribaltar.

seris

Lafayette disse...

Carlos, de acordo com fonte paterna, a árvore que esta semente (é engraçada esta frase que todos nós falamos, pois, na verdade, é ao contrário) se chama Mulungu.

Fui ali, e encontrei:

http://www.arvores.brasil.nom.br/florin/mulungu.htm

http://pt.azarius.net/smartshop/relaxing/herbs/mulungu/

Abraço.

suetheor

Carlos Barretto disse...

Puxa, Lafa.
Eu já ia dizer que minha maior curiosidade era exatamente saber o nome desta árvore.
Não sem alguma emoção, agradeço de coração pela informação.

Abs

Lafayette disse...

Carece de confirmação, mas o velho é leigo, mas, conhece um pouco estas "coisas da mata".

ps.: ainda vou ribaltar lá no meu.

contriu

Belenâmbulo disse...

Prezado Barretto,

Texto delicioso e bela foto (mesmo com a sabotagem do blogger).

Abraço

Carlos Barretto disse...

Obrigado, Wagner.
Continuo fã de sua ótima idéia no Belenâmbulo.

Abs