sábado, 27 de junho de 2009

Cai o Pano*


















Cingapura à noite. Foto tirada contra o vidro do hotel
em velocidade baixa e iso elevada, sem tripé.


Are you Michael Jackson´s friend? Eu compreendi a pergunta do jovem que a mim se dirigia numa loja de discos HMV, ontem em Cingapura. Desculpe, mas por que você me faz esta pergunta, respondi. Ele, com aquele aquela tranquilidade dos orientais, entao me contou do inusitado que corria o mundo pela internete: a mais complexa personalidade da cena mundial da música pop escrevera outro capítulo de uma biografia onde sucesso, sofrimento e escândalos foram conjugados de forma cruel e única - Michael Jackson morrera em circunstâncias obscuras.
Depois de 11 horas de voo para Frankfurt, enquanto aguardo minha conexão para o Brasil, reflito sobre a vida do grande artista desaparecido, que conheci quando cantava com os irmãos no conjunto The Jackson's 5, no selo da legendaria gravadora Motown em meados dos anos 70. Era o tempo de Ben, e nós no alvorecer da adolescência, tal qual o cantor-mirim dos Jackson, caíamos apaixonados nos acordes românticos da música, não poucas vezes sem entendermos nada do que ela dizia.

Ben, you're always running here and there
You feel you're not wanted anywhere
If you ever look behind
And don't like what you find
There's one thing you should know
You've got a place to go
(you've got a place to go)

A voz de belo timbre escapou da instabilidade emocional e depois dos fatos a ela associados, mas o homem naufragou de forma sucessiva na intranquilidade de uma vida privada, à luz trazida crua e de forma preconceituosa por uma imprensa ávida por mais e maiores escândalos no show business. Não fosse pela genialidade musical, certamente o artista Michael Jackson teria sido a caricatura que fisicamente se tornou ao buscar algo que parecia imprescindível para completá-lo, misturando criador e criatura num amálgama com proporçoes e densidades nunca dantes testemunhadas publicamente. Contudo, o fenótipo embranquecido, inegável expressão de mimesis, não permitiu que escondesse nem dos outros nem da sociedade a sexualidade incompleta e oculta na argamassa de uma personalidade tão frágil quanto perigosamente assustadora.
A Antiguidade quando afirma que a arte é longa e a vida é breve, diz-nos que os desenganos que o torturaram em vida não serão contudo o seu legado aos próximos. Sobriveverá dele a música e a coreografia como expressões únicas da arte mundial dos últimos quarenta anos, referenciadas às tradições da música negra norte-americana, desde os cantos de resistência nas plantations até a explosão do rythm & blues do qual a obra jacksoniana recebe influências.
São testemunhas desse epitáfio, as vozes de diversas e diferentes personalidades do mundo musical, religioso e político, que em coro registraram a importância do artista. Confirmam-nas a brutal ascensão dos acessos à internete logo após a divulgação de sua morte, a ponto da segurança do Google considerar que, frente a inusual estatística, estava sofrendo um ataque superlativo de hackers. Quanto a mim, a propósito da pergunta dos cingapurenses, essa era a senha para uma homenagem pública em memória do artista. Razões de trabalho, infelizmente, não me permitiram atender ao convite, o que faz também deste post expressão de solitária homengem a aqueles jovens amigos de Michael Jackson.

*Cai o pano é expressão teatral que referencia ao momento em que desce a cortina ao final de um ato ou da conclusão da peça. Utilizou-a Agatha Christie para dar título ao seu último livro , aquele em que o lendário detetive belga Hercule Poirot morre para solucionar o crime.

3 comentários:

Carlos Barretto disse...

Quanto a foto devo reconhecer que prendeste bem a respiração para obtê-la. Afinal, em baixa velocidade, não é fácil obter uma foto tão interessante quanto esta.

Bia disse...

Que belo texto. Gostaria de tê-lo escrito. Mas, para isso, teria que purgar ( de purgatório, mesmo!) a mesquinha e estreita visão que tenho dos últimos anos da vida de Jackson.

Na verdade, minha geração não o curtiu, nem compreendeu. Curtíamos Billie Holliday, Ella Fitzgerald e dos mais novos, eu, especialmente, Tracy Chapman.

Mas, infelizmente permiti a mídia me inoculasse o veneno do preconceito e isso fez com que eu enxergasse de forma miúda um grande artista.

Obrigada pela oportunidade de purgar meu preconceito.

Um abraço.

Itajaí de Albuquerque disse...

Barretto, prendi sim. Eu pretendia um skyline e imaginava que o hotel tivesse uma cobertura onde pudesse apoiar a D-40. Não havia. Daí que tive que improvisar. Usei depois edição com AP elements para correções necessárias.
Bia, como você, andei muito tempo aborrecido com o MJ. Fazia tempo que não aparecias. Venha sempre.
Abs.