domingo, 26 de setembro de 2010

Nas Entrelinhas do Editorial, a História do Estadão

Em face dos preceitos das Constituições do Mundo Ocidental, de plena proteção ao direito de propriedade,

o conteúdo das colunas de um jornal é espaço tão submetido ao domínio privado quanto a terra”.

Osny Duarte Pereira, jurista.


No Brasil nunca houve liberdade de imprensa. O que existe e sempre existiu é a opinião do dono do jornal.

(…) Então eu resolvi ser rico, para poder ter opinião como jornalista.

No jornalismo como vocês sabem, só se faz fortuna sendo picareta ou então alugando a opinião.

David Nasser, jornalista.


O homem enfrenta a melancolia discordantemente;

deslealmente um sobre o outro.

Thomas Carlyle, historiador.


Se a um conferencista fosse pedido que avaliasse na imprensa brasileira qual jornal esteve sempre envolvido em conspirações políticas e, por circunstância, levado a defesa da democracia, não erraria quem dissesse que seria citado o jornal Estado de São Paulo. Publicação centenária em circulação no Brasil, o diário da família Mesquita tem marcado presença como o jornal que sustentou sem grandes flexões um ideário conservador ao longo de sua longa trajetória, descontado o interregno em que esteve circunstâncialmente na trincheira da oposição à Ditadura de 1964.

É notória a longevidade de sua relação hostil à Getúlio Vargas no que tinha referência aos interesses paulistas na política nacional, ainda que pelo viés conservador apoiasse explícitamente a política varguista de endurecer e reprimir com violência os movimentos de esquerda desde antes da instalação do Estado Novo, quando seu diretor-presidente amargou um exílio em dolce far niente na Europa e depois em uma fazenda no interior paulista.

Visceralmente anti-getulista e organicamente averso a movimentos populares o Estado de São Paulo, após a redemocratização (1945) veio a se alinhar com a União Democrática Nacional (UDN), ocasião em que exerceu aberta oposição a qualquer ato do governo Juscelino Kubitscheck, preferindo investir no apoio a candidatura de Jânio Quadros para que chegasse a cadeira presidencial. Entretanto, quando a elite industrial-cafeeira percebeu que Jânio exerceria o poder ao próprio modo, demonstrando desenvoltura e independência do receituário politico que recebera da UDN, o Estado de São Paulo passou a demonizá-lo, passando a desconstruir a imagem pública do presidente, enquanto em consonância promovia o ultra-direitista Carlos Lacerda como liderança nacional e virtual candidato a Presidência da República, logo surgisse uma primeira oportunidade.

Em 1962 encontramos Júlio de Mesquita Filho como um dos mais proeminentes membros do Instituto de Pesquisa e Estudos Sociais – IPES, organização que entre outras atribuições formulava toda a estratégia para a disseminação da informação que pavimentaria o apoio ao golpe militar que explodiria dois anos depois com a destituição do Presidente João Goulart. Nessa ocasião, segundo Moraes Ferreira, o diretor-presidente do Estado de São Paulo (1927-1969) “participou ativamente da conspiração articulada de início nos meios militares visando a derrubada do regime, tendo redigido um documento sobre os princípios do movimento, que mais tarde se tornou conhecido com o título Roteiro da Revolução”.

Por mais incrível que nos pareça, a oposição à ditadura militar surge de um desentendimento quase pueril, não fosse o assunto grave e afeito a responsabilidade de pessoas adultas. Com incrível ingenuidade, Júlio de Mesquita Filho após a deposição do presidente “descobre” que as lideranças militares golpistas não pretendiam uma intervenção efêmera no Estado, mas sim extendê-la e aprofundá-la na amplitude do tecido sócio-cultural brasileiro, incluída a reformulação de nosso ordenamento jurídico.

A partir desse “amargo despertar”, o Estadão passa então a hostilizar o governo do marechal Castelo Branco e em seguida, como tresloucado, passa a fomentar a candidatura do fraco general Costa e Silva, que uma vez eleito não resistiria às pressões cada vez mais crescentes da chamada linha dura do futuro presidente Médici, que assumiria a presidencia no lugar daquele, que por breve seria vitimado no curto exercício do cargo por um acidente vascular cerebral devastador. Portanto foi por força de uma inusitada contrariedade e de um maniqueísmo de roça que o Estadão caiu em desgraça e viu ir por terra seus objetivos politicos. Uma vez malvisto pelos militares, o resultado foi uma censura surda e implacável, na qual incluía-se a presença diuturna de censores dentro da redação do jornal.

Depois do falecimento do patriarca em 1969, o successor Julio de Mesquita Neto manteve o Estadão alinhado com as forças da redemocratização do país de forma impecável, fazendo contribuições históricas na luta pela livre opinião e contra as ditaduras do cone sul tanto em importantes fóruns no exterior, quanto por se envolver pessoalmente na libertação de presos politicos. Esse é o período de ouro no qual muitos jornalistas fizeram fama no enfrentamento com o governo militar.

Nos últimos anos, usufruindo do liberalismo de Mesquita Neto, falecido em 1996, seus sucessores deram ao jornal um perfil mais assemelhado aos anos que antecederam a ditadura militar, ora malhando no cravo, ora na ferradura, mas sempre animados com o neoliberalismo inaugurado por Collor – a quem apoiaram e depois desapoiaram na medida em que o alagoano estabeleceu as linhas que o levaram ao rumoroso impeachment. Tal qual fizeram quando cansaram das maluquices de Jânio Quadros.

O roteiro da animosidade ao governo Lula não foi diferente. Além de inconformados com a redução do aporte financeiro derivado da decisão federal de adotar regras de comunicação mais equânimes, o azedume veio em definitivo quando José Sarney obteve no STF um "cala a boca" que proíbe ao jornal publicar qualquer notícia que faça referência ao senador amapaense, o que justifica até hoje os donos do jornal publicarem diariamente que o orgão está sob censura.

Contudo a relação do jornal com o governo federal alcançou o ápice de deterioração quando viu contrariado seu objetivo de fazer retornar ao Palácio do Planalto não José Serra, que alguns de seus diretores ignoram, nem a ala principesca de FHC, favorita e insulada internamente no partido, mas o PSDB. Por outro lado, sintomaticamente, o recente editorial (26/09) do Estado de São Paulo surge de parelha com aquele publicado pela concorrente Folha de São Paulo, no mesmo dia, não de todo motivado pela vitória petista na corrida presidencial, mas especialmente devido as atuais pesquisas apontarem o fortalecimento da polarização entre Geraldo Alkmin (PSDB/SP) e Aloisio Mercadante (PT/SP), com o delineamento de provável segundo turno nas eleiçoes para o governo paulista.

Os Mesquitas e os Frias sabem que Dilma eleita para a Presidência da República, o poder de fogo da coligação vitoriosa se voltará para as eleições de segundo turno em São Paulo. Esse cenário em definitivo não é desfecho sequer razoável para o bloco conservador - tucano, que tem dado as cartas na política paulista desde a cadeira do Palácio Bandeirantes há 15 anos, ou há sete mandatos consecutivos. Esse fato, constitucionalmente tão legítimo quanto o PT e aliados disputarem a sucessão de Lula, não mereceu dos zelosos democratas Estadão e Folha de São Paulo uma linha que fosse em anúncio de classificados , para a denúncia de que a continuidade do governo do PSDB em São Paulo deve ser “um mal a evitar” - claro, porque nem burros, nem doidos os três são.

2 comentários:

Itajaí de Albuquerque  disse...

Aviso aos que aqui veem comentar com insulto: não se deem o trabalho, pois nem diminuirão o meu ânimo, nem tão pouco serão publicados. Aproveitem seus tempos de forma mais útil e honesta.

Anônimo disse...

"Eu sinto que alguns veículos tiveram uma preferência eleitoral clara, aberta. Acho positivo aqueles que assumem em editorial que têm uma candidatura do PSDB, porque é mais democrático. Daí quando o leitor lê o jornal, ele verifica o que é notícia e o que é campanha. É democrático, é legítimo, faz parte do processo e vamos ganhar a eleição nacional assim mesmo e vamos pro segundo turno e vou ganhar em São Paulo", disse Mercadante.