Um pé de lugar foi plantado no meio desse sertão amazônico, a meia légua de onde moro. Estava no meu encalço
antes mesmo de eu virar mundo.
No caminho, casais de botos Cor-de-Rosa e Tucuxi nos saúdam bem perto.
Mauro diz que eles estão fazendo saliência, mas acho mesmo é que guardam
segredos do fundo do rio.
No itinerário somos Marcelo (irmão), Mauro e Rui (primos). Estes
dois nasceram lá, assim pra mais de vinte que moram em Santarém. Nós, os
filhos da Marina, somos os únicos que nascemos fora do eixo. Fui parido às
margens do Juruá, mas engametado por aquelas bandas, segundo Tajá-Panema. Quando dei por mim, Água Preta veio porejando da memória de minha mãe e fui aparando tudo numa tigela da emoção.
Ainda moram alguns primos por lá, mas a maior parte deserdou para
Santarém, ainda adolescentes, para estudos. Só ficou Beto, que hoje cuida
do povoado e da memória da família.
Quando aportamos no barranco, Beto e esposa receberam-nos com um abraço
gentil. Em sua casa simples de madeira havia preparado almoço: na brasa, uma
banda de Pirapitinga gorda. Comemos até tufar o bucho – na gíria de lá -,
cercado por Papagaios, Passarinhos e uma enxurrada de Macaquinhos-de-cheiro.
Depois da Pirapitinga fui, passo a passo, me incorporando à terra.
Saquei umas fotos e me alojei dentro do útero daquele lugar, que pariu minha
mãe e outros quatro irmãos dela. O verde denso tem cheiro próprio, mas o rio,
neste período, fica raso, e os tesos emergem deixando um vazio abissal de
terras caídas, para se tornar palco onde Garças se tornam bailarinas. Por lá não falta peixe, ovo
de tracajá, canto de Jaçanãs e Papagaios. Pode ser observado também um silêncio que poderia ser dito como ar novo ao meu pulmão recém-transplantado de anseios.
Decerto, naquele meridiano do planeta, rés aos pés das Sapucaias
preservadas pelo óxido do tempo, está a oração certa para esconjurar assaltos
de demônios, rastros de cidade e guerra entre policia e bandido.
Água Preta guarda na cor negra daqueles olhos a fluidez da paz e uma
harmonia hereditária que já passa dos 100 anos de férteis gravidezes.
Difícil foi espiar o rumo de casa com a mesma retina... Difícil. Labareda, do bando de Corisco
7 comentários:
Retina e memória quão justas estão ...
Queres me fazer chorar, mano véio?
Querendo ou não, lágrimas insistiram em lubrificar-me a alma cansada de corrigir erros alheios (felizmente TCCs).
Continue vivendo e escrevendo!!
É muito meu desejo, com seu consentimento, tornar suas crônicas e contos e poemas e tudo o mais misturado e sem limites em livro. Quem sabe?
Abraços daqui da sua também Rondônia...
Abel, não sei se sou merecendente (...como diria Guimarães Rosa) de um livro ou coisa igual... De qualquer maneira, como você faz parte de corpo editorial, quem sabe, um dia....
Apelarei para o voto popular, junto aos seus leitores. Eles decidirão, mais tarde!!
Não tenho - certamente não - volume de leitores para este fim. Quem sabe o tempo, no formato de menino, possa passar e trazer-me essa esperança... Então andar com fé eu vou, pois a fé não costuma falhar, diria Gil, no alpendre de sua poesia.
Que Cronos avalie, pois.
Ora, pois...
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