sábado, 7 de novembro de 2015

Bem-aventurado os que têm sede de alegria (com intervenções cirúrgicas do poeta Abel Sidney)

Nos idos de 80, junto com Sergio, Paulinho, Ismael, Zé Pedro e Max, parceiros do mesmo vagão, começamos a frequentar, ainda estudantes, as salas de cirurgia da Beneficente Portuguesa do Pará. Tínhamos ideal de apenas experimentar aquele lado pulsante da medicina e respirar aqueles ares intumescidos de ciência.
A valência que não nos intimidamos. Fomos batendo na porta, vestindo capote, lavando mãos e colocando pantufas. Permitiram e fomos adentrando. 
Cirurgião, sabe-se, tem uma rotina pesada e desafios amargos. O seu deleite não é essencialmente o sorriso, mas o remédio que abranda dor, a pinça que estanca sangramento, ou a manobra que extirpa tumor e drena fleumas, mesmo que signifique talho no corpo e cicatriz indelével. Pela obstinação de cada um, tinha em mim que o ambiente do centro cirúrgico deveria ser carregado, silencioso, repleto de cheiro de éter e de gente chorando, pois assim líamos nos alfarrábios e ouvíamos na sala de aula.
Que nada!
Lá conhecemos uma criatura tagarela e brincalhona que nos fez rever todo esse cânone. Tirava graça com todos; chamava de bonitão do servente ao presidente. Quando perguntei às enfermeiras de quem se tratava, responderam: um baluarte conhecido em todo território nacional. Opera casos complexos e tem aura cintilante que aguça os mais fracos sentidos. 
Pura verdade. Ele operava como se tivesse tomando um Guarasuco. O homem ainda era doce e generoso com seus pacientes. Costumava referir aos familiares que o sucesso ocorria por conta do anestesista ou o clínico geral - nunca dele. Seguia um perfil profissional que não se apregoa nos corredores dos hospitais, universidades e clero cirúrgico. Era assim o Guilherme Guimarães, ou melhor, Gegê, que empunhava na lâmina de seu bisturi toda a técnica e arte e, no cabo, o bom humor.
Pra mim as cores da sua alma tinham matizes que iam do traquejo com as mãos até o humanismo nas atitudes e palavras, feito missionário. Manifestações elegantes, práticas gentis explodidas no meio do caos eram seus tiques. Para nós, ainda principiantes, foram pequenas revoluções num clérigo que, sabemos todos, é de responsa.
Certa noite - quase meia noite -, fui convidado por ele para participar de uma operação de urgência. Com abdome aberto exalando cheiro de podridão por conta de uma úlcera perfurada, ele interrogou:- você quer ser cirurgião, mesmo? Tem que suportar tudo isso com humor sem perder ímpeto e concentração.
Tititi, patatá, ele seguiu, madrugada adentro, operando e ensinando. Vez por outra ralhava, com sutileza, para não perder o foco, mas o que encantava era a maestria de sua arte e o rigor pelos princípios da técnica operatória. Tudo junto e misturado com alegria e sem aperreio. Fazia jus ao legado de Ambroise Parè sem perder o regalo.
Gegê acabou de subir. Vinha sofrendo dos males da idade e o coração não deixou por menos: bateu asas e fez caminho pro infinito. Restou-nos um par de retinas que, voltadas para a ampulheta da medicina, no contraponto do monólito erguido pela cirurgia, ficaram grudados em nós só para passar outra ideia: a de alegrar nossa rotina sem que abandonemos o trilho, como grifaria o poeta: "
Médico vai pro céu?! Se construir asas vai, é lógico!"
          Gegê fez ninho por lá.

6 comentários:

jorge ivan alves bezerra disse...

A gratidão nessas palavras escritas fazem jus a arte do Mestre que na sua formosura conseguiu ensinar além da técnica cirúrgica a leveza do Ser e com bom humor! Quem teve olhos e ouvidos conseguiu aprender! Parabéns!

Valéria Normando disse...

Me questiono por vezes que desenho tem o dom...até o momento tenho comigo que este vem de mãos dadas com a dedicação de corpo e alma...me parece ser este o desenho de Gegê...

Geraldo Roger Normando Jr disse...

Jorge, isso não só tem textura de verdade, mas também de saudosismo. O texto em epígrafe representa minhas lágrimas diante da partida.

Geraldo Roger Normando Jr disse...

Gegê viveu a era de transformação da cirurgia (cirurgia clássica para a cirurgia minimamente invasiva que vivemos hoje) sem necessariamente se transformar. Pelo contrário, insistiu em defender o passado com a luz de Xenônio do presente. Isso que é viver. Esse é o seu desenho. Um iluminado.

Sérgio Lima Jr disse...

Roger, o Gegê era exatamente isso !! Ainda posso ouvi-lo nos corredores da BB, " Ei bonitona, vem cá ! " como chamava carinhosamente as enfermeiras ! E acho que com essa alegria, distraiu várias vezes a morte ! Com certeza fez seu ninho lá em cima !!

Geraldo Roger Normando Jr disse...

Sergio, tenho pra mim que o Gegê jamais morreu, mesmo a morte tentando insistir; tenho pra mim que na entrada da Bepê tem uma estátua dele com aquela alegria eterna lançada a qualquer hora do dia ou da noite; tenho pra mim que se existe um símbolo branco na medicina ou se há alguém que represente o bom humor é o bonitão do Gegê.