Ao despois de depois,
andaram dizendo que você tinha inventado
uma língua nova
e eu não gosto de língua inventada.
Sempre arreneguei de esperantos e
volapuques.
Manuel
Bandeira em carta a Guimarães Rosa,
após leitura de Grande Sertão: Veredas.
Duas
provocações: no título e na epígrafe: “EDAC” e “volapuques”, independentes de sabermos
o que Guimarães Rosa fez com a língua de Fernando Pessoa; independente do que o
cirurgião torácico faz com a língua portuguesa.
Comecemos pelo Bandeira. Volapuques foi a tentativa do padre alemão Martin Schleyer (1831-1912) criar uma língua artificial em 1879, com base especial no inglês e alguns elementos do alemão, francês e latim, cujo ideário de comunicação não foi bem-sucedido (vol (mundo) + pük (fala) → Volapük = “língua do mundo”). Esse padre não é o do balão, mas voou alto para tentar alcançar a torre de Babel.
Já
EDAC vem do inglês: Excessive Dynamic Airway Collapse. Isoladamente não significa
absolutamente nada para quem não esteja familiarizado com o jargão médico. O
paciente quando ouve toma um susto. Apesar de não se tratar de anglicismo consagrado,
é sigla repleta de contexto, por isso, antes de explicar a doença, precisa-se
explicar a sigla, que carrega certa musicalidade.
(Já pensou EDAC na
voz do Sinatra? - EDAC,
Mas aí me vem o
João Aléssio, professor de Cirurgia
Torácica da UNIFESP (Escola Paulista de Medicina), com essa: “I'M EDAC! AND YOU, Roger? Depois seguiu: "No
Stress! Don't worry...”
Adorei a provocação. Aléssio gosta de polêmicas e discussões frajolas, e quem já acompanhou a “Reunião da Pizza” entre os paulistas sabe muito bem do que estou falando. No mais, ao me provocar, sabe que de alguma forma vou recorrer a Guimarães Rosa.
Vale Manuel Bandeira com um “plus
a mais” de Guimarães Rosa? O meu volapuquês foi pra devolver a provocação a
João Aléssio com o EDAC.
Para ele, “A língua é
viva e influenciável, mostra bem para onde irá um povo. As culturas mais fortes
dominarão as mais fracas, seja pela força das armas e do dinheiro, como
influenciando fortemente a sua própria educação [leia-se: tupi-guarani]. O que seria falar e escrever
um simples EDAC nos tempos de Facebook, Instagram, Whatsapp, Twitter e até do
Tik-Tok? Ocorre que EDAC isoladamente não é nada, é uma sigla de outra língua.
Não é um anglicismo de domínio habitual; é uma sigla vazia”. Na
postagem seguinte ele grifa: “é perda de tempo quando se tem palavra em
português para definir claramente as doenças e se usa o inglês. Sempre dizemos
que temos que difundir o diagnóstico do colapso da membrana posterior da
traqueia para os pneumologistas e os clínicos. Imaginem... primeiro temos que
explicar o significado da sigla e depois a própria doença. It’s not easy! O mundo moderno não deve ser ágil e prático? Para
que confusões e ainda com outras línguas e países[?] And...be happy!"
Pelo lado de fora do João Aléssio, EDAC é exemplo qual SIDA/AIDS. Pelo lado neurolinguístico, EDAC, na voz de Frank
Sinatra, tem mais sonoridade. Dá até para aportuguesar: O paciente está edaquisado
- Don’t worry!!!. Talvez prefiramos
EDAC não por desprezo à nossa língua, mas por impulsão, por musicalidade. EDAC
inclusive nos favoreceu para escrever o título, deixando a retórica ambígua
cuja oralidade se torna provocativa e com estilística típica, quase jazzística. Deixa o texto com o peso de uma pluma.
Essa discussão lingüística
volapuquiana, no entanto, não diminui a importância médica do tema. Pelo
contrário. Estudos recentes mostram que o colapso excessivo das vias aéreas
centrais — englobando tanto o EDAC quanto a traqueobroncomalácia (TBM) — é mais comum do que se imagina e,
frequentemente subdiagnosticada. Os sintomas se confundem com asma, DPOC ou
refluxo, retardando o diagnóstico correto.
Do ponto de vista
anátomo-funcional, há diferenças claras: no EDAC, ocorre a invaginação
exagerada da parede posterior da traqueia; na TBM o problema está no
enfraquecimento do arcabouço cartilagenoso, que desaba durante o ciclo
respiratório. Em que pese a diferença na estrutura anatômica, o impacto clínico
é semelhante: tosse intensa, dispneia, infecções respiratórias recorrentes e
prejuízo da qualidade de vida.
Mas a melhor
notícia vem de longe. Chao, De Angelis e cols. retratam em seu recente artigo
(2025) resultados animadores do tratamento cirúrgico. Para os cirurgiões do
Beth Israel Medical Center (Boston), a traqueobroncoplastia
mostrou melhora significativa dos sintomas e da qualidade de vida, tanto nos
pacientes com EDAC quanto nos com TBM, com taxas de complicações e desfechos
semelhantes entre os grupos. Exatamente o que observamos em nossa prática cirúrgica. Em outras palavras: independente da sigla, tratar
as disfunções das vias aéreas centrais funcionou bem para os 73 bostonianos que
fizeram parte do estudo, com melhorias significativas na qualidade de vida e no teste de caminhada de 6min.
Escrever sobre essa
polêmica não é só gesto de simpatia aos que apreciam a ambigüidade lingüística,
mas acima de tudo uma divisória semântica no diagnóstico, jogando xadrez com as
palavras. Esse é, a nosso ver, a maior mensagem, independente se estejamos ou
não criando uma espécie de "esperanto-volapuque cibernético universal”,
conforme aferiram João Aléssio e Manuel Bandeira.
Bom saber que existem esses defensores da língua-pátria. Eles mantém-se com seus volumes correntes pulmonares sem forçar a necessidade de outras línguas. Já não basta o que fizemos com o tupi-guarani e o nheengatu?
Referência:
Cho JM, De
Angelis P, Mathew F e cols. Tracheobronchoplasty for Excessive Dynamic Airway
Collapse and Tracheobronchomalacia: A Comparative Analysis of Distinct Airway
Disorders. Ann Thorac Surg 2025;120:1062-71.
Roger Normando. Professor de Cirurgia Torácica - Universidade Federal do Pará.


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