domingo, 18 de janeiro de 2026

"EDAC" é daqui?


 

Ao despois de depois,

andaram dizendo que você tinha inventado uma língua nova

e eu não gosto de língua inventada.

Sempre arreneguei de esperantos e volapuques.

Manuel Bandeira em carta a Guimarães Rosa, após leitura de Grande Sertão: Veredas.

 

Duas provocações: no título e na epígrafe: “EDAC e “volapuques”, independentes de sabermos o que Guimarães Rosa fez com a língua de Fernando Pessoa; independente do que o cirurgião torácico faz com a língua portuguesa.

Comecemos pelo Bandeira. Volapuques foi a tentativa do padre alemão Martin Schleyer (1831-1912) criar uma língua artificial em 1879, com base especial no inglês e alguns elementos do alemão, francês e latim, cujo ideário de comunicação não foi bem-sucedido (vol (mundo) + pük (fala) → Volapük = “língua do mundo”). Esse padre não é o do balão, mas voou alto para tentar alcançar a torre de Babel.

Já EDAC vem do inglês: Excessive Dynamic Airway Collapse. Isoladamente não significa absolutamente nada para quem não esteja familiarizado com o jargão médico. O paciente quando ouve toma um susto. Apesar de não se tratar de anglicismo consagrado, é sigla repleta de contexto, por isso, antes de explicar a doença, precisa-se explicar a sigla, que carrega certa musicalidade.

(Já pensou EDAC na voz do Sinatra? - EDAC, I did it my way...)

Mas aí me vem o João Aléssio, professor de Cirurgia Torácica da UNIFESP (Escola Paulista de Medicina), com essa: “I'M EDAC! AND YOU, Roger? Depois seguiu: "No Stress! Don't worry...”

Adorei a provocação. Aléssio gosta de polêmicas e discussões frajolas, e quem já acompanhou a “Reunião da Pizza” entre os paulistas sabe muito bem do que estou falando. No mais, ao me provocar, sabe que de alguma forma vou recorrer a Guimarães Rosa.

Vale Manuel Bandeira com um “plus a mais” de Guimarães Rosa? O meu volapuquês foi pra devolver a provocação a João Aléssio com o EDAC.

           Para ele, “A língua é viva e influenciável, mostra bem para onde irá um povo. As culturas mais fortes dominarão as mais fracas, seja pela força das armas e do dinheiro, como influenciando fortemente a sua própria educação [leia-se: tupi-guarani]. O que seria falar e escrever um simples EDAC nos tempos de Facebook, Instagram, Whatsapp, Twitter e até do Tik-Tok? Ocorre que EDAC isoladamente não é nada, é uma sigla de outra língua. Não é um anglicismo de domínio habitual; é uma sigla vazia”. Na postagem seguinte ele grifa: “é perda de tempo quando se tem palavra em português para definir claramente as doenças e se usa o inglês. Sempre dizemos que temos que difundir o diagnóstico do colapso da membrana posterior da traqueia para os pneumologistas e os clínicos. Imaginem... primeiro temos que explicar o significado da sigla e depois a própria doença. It’s not easy! O mundo moderno não deve ser ágil e prático? Para que confusões e ainda com outras línguas e países[?] And...be happy!"

Pelo lado de fora do João Aléssio, EDAC é exemplo qual SIDA/AIDS. Pelo lado neurolinguístico, EDAC, na voz de Frank Sinatra, tem mais sonoridade. Dá até para aportuguesar: O paciente está edaquisado - Don’t worry!!!. Talvez prefiramos EDAC não por desprezo à nossa língua, mas por impulsão, por musicalidade. EDAC inclusive nos favoreceu para escrever o título, deixando a retórica ambígua cuja oralidade se torna provocativa e com estilística típica, quase jazzística. Deixa o texto com o peso de uma pluma.

Essa discussão lingüística volapuquiana, no entanto, não diminui a importância médica do tema. Pelo contrário. Estudos recentes mostram que o colapso excessivo das vias aéreas centrais — englobando tanto o EDAC quanto a traqueobroncomalácia (TBM) — é mais comum do que se imagina e, frequentemente subdiagnosticada. Os sintomas se confundem com asma, DPOC ou refluxo, retardando o diagnóstico correto.

Do ponto de vista anátomo-funcional, há diferenças claras: no EDAC, ocorre a invaginação exagerada da parede posterior da traqueia; na TBM o problema está no enfraquecimento do arcabouço cartilagenoso, que desaba durante o ciclo respiratório. Em que pese a diferença na estrutura anatômica, o impacto clínico é semelhante: tosse intensa, dispneia, infecções respiratórias recorrentes e prejuízo da qualidade de vida.

Mas a melhor notícia vem de longe. Chao, De Angelis e cols. retratam em seu recente artigo (2025) resultados animadores do tratamento cirúrgico. Para os cirurgiões do Beth Israel Medical Center (Boston), a traqueobroncoplastia mostrou melhora significativa dos sintomas e da qualidade de vida, tanto nos pacientes com EDAC quanto nos com TBM, com taxas de complicações e desfechos semelhantes entre os grupos. Exatamente o que observamos em nossa prática cirúrgica. Em outras palavras: independente da sigla, tratar as disfunções das vias aéreas centrais funcionou bem para os 73 bostonianos que fizeram parte do estudo, com melhorias significativas na qualidade de vida e no teste de caminhada de 6min.

Escrever sobre essa polêmica não é só gesto de simpatia aos que apreciam a ambigüidade lingüística, mas acima de tudo uma divisória semântica no diagnóstico, jogando xadrez com as palavras. Esse é, a nosso ver, a maior mensagem, independente se estejamos ou não criando uma espécie de "esperanto-volapuque cibernético universal”, conforme aferiram João Aléssio e Manuel Bandeira.

Bom saber que existem esses defensores da língua-pátria. Eles mantém-se com seus volumes correntes pulmonares sem forçar a necessidade de outras línguas. Já não basta o que fizemos com o tupi-guarani e o nheengatu?

 

 Referência:

Cho JM, De Angelis P, Mathew F e cols. Tracheobronchoplasty for Excessive Dynamic Airway Collapse and Tracheobronchomalacia: A Comparative Analysis of Distinct Airway Disorders. Ann Thorac Surg 2025;120:1062-71.


Roger Normando. Professor de Cirurgia Torácica - Universidade Federal do Pará.

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