sexta-feira, 4 de março de 2016

Geração Smartphone

                                                                                     Amaury Dantas, médico e escritor

Entrei no elevador e encontrei duas adolescentes conversando. Como todas adolescentes, belas, bonitas e agitadas. Uma dizia não acreditar em políticos, são todos ladrões, bandidos. E a outra, ainda que não parasse de mexer no celular, balançando a cabeça, concordava plenamente. Intruso, perguntei: Quer dizer então que nas próximas eleições vocês não votarão em ninguém? Espantadas, entreolharam-se, e uma disse: Meu voto é nulo. E a outra ficou calada com sorriso impune.
A viagem no elevador foi rápida. Chegando ao térreo, como bom cavalheiro, abri a porta e as damas saíram com seus whatsapps e cabelos esvoaçantes. Parece que iam para academia de ginástica.
Fiquei pensando o quanto a juventude vem sofrendo sem a percepção exata das responsabilidades do estado, diante das trapalhadas do governo e sem se dar conta do poder da sociedade. Afinal, estado, governo e sociedade são entidades diferentes e nem sempre seus conceitos são bem compreendidos.
Gostaria imensamente de ter-lhes dito que fora da política é impossível sonhar com mundo mais justo e democrático. Que sem democracia, sem estado de direito e sem eleições livres, jamais haverá possibilidades de mais cidadania, educação, emprego, melhor distribuição de renda e, por conseguinte, menos corrupção, violência, autoritarismo, assaltos, sequestros e mortes.
Perdi oportunidade de dizer-lhes que nenhuma forma de ditadura vale a pena porque castram a liberdade de opinião, de expressão, de associação. Já vimos esse filme. Já vivemos isso. Mas elas, não. Votar nulo ou branco é tolice, é omissão. 
Queria também que elas soubessem que o romance Cinquenta tons de cinza é uma porcaria. Muito melhor ler o Pssica, do nosso Edyr Augusto, genial; que Umberto Eco, do Nome da Rosa, falecido na semana passada, é maravilhoso; que seria muito bom lessem a  entrevista que D. Erwin Kraütler – Bispo da Prelazia do Xingu – concedeu ao jornalista João Carlos Pereira, testemunho de humanidade, lucidez e coerência, digna de ser colocada 
em um quadro; e que o poeta dos Estatutos do Homem, Thiago de Mello, está de parabéns, pois acaba de completar 90 anos.
Enfim, não consegui lhes dizer, sem moralismo careta, que a vida não se resume a Big Brothers, Coca-Cola, Smartphones, Calipso e academias de malhação. Talvez na próxima viagem.

7 comentários:

Sérgio Lima Jr disse...

Bem que a gente tenta falar com essa juventude, mas será que nos ouvem ?!

Geraldo Roger Normando Jr disse...

Sergio, além da visão, também podem estragar os ouvidos. Vamos fazer o seguinte: o Amaury já alertou e, quando as duas Pequenas entrarem no elevador a gente grita. Hão de ouvir!

Erika Morhy disse...

Um bom texto, o doutor Amaury. Outros serão sempre bem vindos. Mas devo dizer que discordo a respeito da "tolice" do voto branco ou nulo, e ainda sobre a imagem que deixou a respeito das meninas do elevador.
Votar branco ou nulo também pode ter um significado político muito importante e tem meu respeito por isso. Pode ser alguém dizendo que discorda de tudo que está posto. E isso é ótimo que seja dito. Existem outras formas de organização social e é legítimo que se manifeste este desejo. E se alguém o faz sem nenhuma concepção deste tipo também é significativo que o saibamos. Acho inclusive melhor o voto branco ou nulo do que aquele voto "válido", justificado quando com o argumento de que não se quer perdê-lo.
Adorei suas escolhas literárias. Mas isso é identificação, é gosto, e gosto... Bem, o fato é que a descrição das meninas me remete a um certo preconceito, ainda que muitas vezes eu mesma também o tenha. Mas a verdadé que o estereotipo é danado pra nos engessar.
Um abraço e volte sempre, doutor.
Roger, caro colega, parabéns pela iniciativa de convidar o doutor Amaury para compartilhar conosco deste espaço.
erika

Edyr Augusto Proença disse...

Obrigado, amigo, pela menção
Edyr Augusto

Elias Amorim disse...

Erika, você tem toda razão : o voto nulo muitas vezes é a forma de de repudiar essa herança que os maus políticos deixam.
Negar isso é esse direito é uma forma equivocada de ver a verdade de frente!
Parabéns ao autor pelas citações no texto!
Parabéns ás moças pelas respostas!
Elias Amorim

Geraldo Roger Normando Jr disse...

Edyr, muito bom revê-lo por aqui. Dia desses escrevi sobre o teu magnífico "Selva Concreta", a partir do episódio de um personagem chamado Urubu. Foi em blogflanar.blogspot.com/2015/08/sobre-coisas-coronarianas.html

Geraldo Roger Normando Jr disse...

Erika, disse ao "nosso" Amaury que o flanar fica tremulando quando ele nos manda um texto "enflanante" como esse-um. Vamos aguardar mais sobre a participação dele.