segunda-feira, 5 de março de 2018

Ao mestre com carinho

O domingo, 25, era de um fevereiro pós-carnaval 2018. O Rio de Janeiro, sob os auspícios do exército, vigiava os morros, entretanto, havia uma porta de igreja, no bairro da Gávea, totalmente aberta, e cercada por favelas da Rocinha e Vidigal. Trata-se de uma igreja ampla e moderna, pelas quais os vitrais reproduzem desenhos de Cândido PortinariLá, o padre Djalma, com um olho grudado na missa e outro na hóstia, via os holofotes da nova ordem.
Entre tantas famílias presentes naquela missa dominical, havia os Teixeira, composta de três descendentes diretos e uma leva de treze netos, acomodados em fileiras de bancos. Com a amizade que guardava, o padre destacou a história do patriarca Jesse Teixeira.
Aquele domingo 25 e aquela família dizem-lhe algum respeito? Provavelmente não, se você for um médico formado depois de 1993, ano da morte de Jesse, aos 75. Foi a partir desta década que uma geração inteira começou a se conectar à tecnologia - que eclodiu no final daquele período, com a chegada da videocirurgia.
Enquanto a tecnologia ensaiava sua chegada ao interior da caixa torácica, vivia-se a grande epopéia dos transplantes pulmonares no Brasil; a cirurgia da traqueia tornara-se mais forte na especialidade e, logo em seguida, o memorial da América Latina via o resplandecer de uma nova sociedade médica, a dos cirurgiões torácicos.
Mas, aquele domingo, dizia-lhe alguma coisa? Sim. Cem anos atrás nascia Jesse Pandolpho Teixeira e aquela família estava ali para celebrar seu nascimento, massivamente representada por filhos, netos e bisnetos. A cirurgiã Maria Morard representava todos os seus discípulos espalhado por esse imenso país.
Com a vocação médica despertada desde a adolescência, Jesse partiu de sua cidade natal, Vitória, no Espírito Santo, para o Rio de Janeiro, ainda aos 16 anos, e logo ingressou na faculdade de medicina. Triunfou por formar uma escola médica de cirurgiões torácicos e uma legião de admiradores. Fundou seu próprio programa de residência, que começou no Sanatório Santa Maria, em Jacarepaguá, e depois foi alicerçado na Rua da Glória, hospital da Beneficência Portuguesa. Furtou-se à sedução das grandes dos cânones universitários, porém sem abandonar os princípios da academia e os rigores da metodologia científica. Publicou muito e escreveu capítulos e livro. Viajou pelo mundo, disseminando a cultura cirúrgica do Brasil, sempre ao lado de sua Gleusa.
Juntou-se a Haroldo Meyer e João Batista Arruda para estender seu professorado ao Hospital de Curicica e formar duas escolas de cirurgia com as mesmas rotinas. Participou ativamente do nascimento da especialidade, nos final dos anos 40, quando a anestesia geral ainda era sonho quimérico. Tomou a cirurgia da tuberculose como seu maior legado e depois se estendeu ao câncer de pulmão, cirurgia da traqueia e parede torácica. Participou do nascimento da cirurgia cardíaca e ovacionou o transplante pulmonar.  Criou vários instrumentos cirúrgicos e adaptou outros, mas o maior de todos os seus legados foram os ensinamentos, que ainda se estendeu a um dos filhos.
“Não sei como as lembranças são conservadas, mas algumas duram para sempre...”, grifou José Camargo em “Saudades do meu pai”, texto que simboliza os ensinamentos e a convivência paternalista. Pode muito bem representar a lembrança remota e adocicada de ares respirados em meio à poluição de desânimos diários, que só nos salva da asfixia quando olhamos para frente e percebemos que a porta da igreja sempre estará aberta.

Nenhum comentário: