terça-feira, 1 de maio de 2018

Top Knife, jornada na poesia


Se um dia me perguntarem o que serei.
Digo: médico de palavras simples.
Dessas que usam no alicerce da vida...
Priscila Franco, poeta.

A gente vive mesmo é de calçar sandálias, vagar mundos e contar fatos. De vez em quando sobra um tempinho para trabalhar e dar de comer pros peixinhos. Contar fatos me parece combinar com chocolate quente, então deixemos a fumaça desenhar arabescos no ar e penetrar pelas narinas.
Aconteceu por volta de 2008, num congresso Pan-americano, em Campinas. Eu tive uma participação longe de ser modesta, mas o meu interesse maior era conhecer o Keneth Mattox, considerado o bardo da cirurgia mundial, e apertar a mão daquele caubói texano. Ele já escreveu vários livros; comandou o resgate das vítimas do Katrina; de quebra também escreveu um capítulo denso num livro de cirurgia que escrevi em 2007 (EDUFPA) - e ainda fez a introdução. 
Eu precisava agradecer...
Na mesma laçada Mattox havia lançado “Top Knife – a arte e a estratégia da cirurgia do trauma.” Claro que comprei e ganhei um autógrafo, além de uma foto ao lado do baluarte. Alto, largo e claro, trajava um paletó de marca, envergava uma gravata com a bandeira texana e um chapelão ao melhor estilo caubói; tinha um ar juvenil e vivaz de quem só envelhece pelas rugas, pois pela alma haviam esquecido de avisar-lhe que os anos se passaram. Tivemos um bom aproach, apesar do meu inglês açaí-com-tapioca, e o dele, de texano com voz de trovão em estilo teatral.
Já de volta a Belém, na sala de aula e em visita com os alunos às enfermarias - e o top knife mattoxiano sobraçado -, uma jovem me abordou e achou o título assaz interessante, pois não é comum livros acadêmicos com alcunhas roliudianas. Disse-lhe que havia conversado com o autor e que era uma homenagem ao filme Top Gun – ases indomáveis, cuja estratégia de guerra do filme poderia ser comparada à da sala cirúrgica em situações “in extremis”.
        A aluna se chamava Priscila.  Ela anotou aquilo tudo e me mandou no dia seguinte um texto curto chamado “Top Knife – jornada na cirurgia”. Era uma alusão ao livro de Mattox. O texto é simplesmente fantástico e representa o olhar de um estudante frente às ciladas cirúrgicas. Ele encontra-se afixado na porta do Serviço de Cirurgia e será abertura do manual de cirurgia da UFPA, endereçado aos alunos.
      Após se graduar, Priscila Franco pegou o beco e foi para São Paulo fazer residência médica. Seu último texto postado foi de julho de 2011 e nunca mais li mais nada. Fui para o noticiário e achei o motivo: depois de um plantão pesado, voltando para casa por uma dessas estradas paulistas, um caminhão invadiu sua pista e ceifou sua vida. Alguns acharam que ela estava cansada do plantão e havia perdido o reflexo. O que ficou da médica, escritora e poeta foram alguns versos, lembranças do internato e também essa pequena peça que dorme de luz acesa nas ideias de Keneth Mattox, e que será imortalizada em breve.
       O que temos agora é uma amostra grátis de tantos poemas que ela prescreveu. São textos incrustados na contextualização médica, com uma estética provocadora que invoca um transplante de ideias e de resistência à verborragia indolente, quase sangrante, que assola a linguagem médica - que ora dorme apedrejando o inconsciente, ora passeia pela poesia moderna jogando flores ao léu.

Se um dia me perguntarem o que serei
Digo: médico de palavras simples
Dessas que usam no alicerce da vida
Mas que andam ao descaso por aí...

A palavra paixão. 
Virou esquizofrênica! 
Anda tendo alucinações. 
Acha que é amor.

E o amor? Hipocondríaco! 
Deu-se mil doenças... 
E parece que morre amanhã...

A coragem, em regular estado geral, 
diz que contraiu o vírus da indolência 
e desmotivação.

A amizade nem se fala... 
Uma febre de origem desconhecida. 
Parece a palavra colega quando estava doente. 
Será que é a mesma coisa?

O respeito é o mais perdido. 
Não sabe nem que médico procurar. 
Pode ser o mesmo da educação, 
que anda se queixando,há tempos, 
de dores na sua espinha dorsal...

A fidelidade, por acidente de trabalho, 
adquiriu doença venérea. 
Queixa-se de esquentamento...

A gratidão. 
Diagnóstico a esclarecer. 
Parece doença rara.

A honestidade, coitada. 
Para essa, nem concorrência tem... 
Talvez a mais moribunda de todas...

E oxalá que ninguém morra dessas verdades...

Se um dia me perguntarem o que serei
Digo médico de palavras simples
Médico de palavras simples
Palavras simples
Simples!

Um comentário:

Cintia Costa disse...

Amei, simplesmente amei! Tem horas que apenas a arte da poesia pode expressar os sentimentos.
Muito obrigada por compartilhar!