A caminho
do hospital onde trabalho, uma notícia inquietante invadiu o rádio: envenenamento de árvores
na vila de Alter-do-Chão. Injetaram nas raízes para elas tombarem. Caso de
polícia!
Na cultura amazônica, a samaúma é frequentemente considerada uma árvore sagrada, associada a mitos, espiritualidade e conexão com o passado. Reza a lenda que em seus subsolos existem restos mortais de nossos ancestrais. Suas raízes gigantescas, em formato tabulares, são conhecidas como sapopemas. As estruturas se projetam lateralmente a partir da base do tronco e podem alcançar vários metros de extensão. Não imagino essas raízes, da altura de um muro, sendo maltratadas por alguém.
Ainda com a notícia martelando
na cabeça, cheguei ao hospital para ver o caso de um idoso
de 83 anos, que apresentava abscesso na borda costal esquerda, há três meses.
Havia um chamamento no peito: incisão esternal para acesso à revascularização
do miocárdio (ponte de safena), ocorrida há quatro anos. Na cicatriz havia uma fístula cutânea, minando pus; outra à altura do umbigo, também purgando. Convivia passivamente
com aquele fardo. A família foi incisiva: “o abscesso da lateral não tem nada a
ver com a operação cardíaca, por isso lhe chamaram”. Perguntei-lhe o que tinha
a dizer acerca da supuração próxima ao umbigo, tão distante quanto o dito abscesso.
O corpo humano é um sistema estrutural
complexo nos quais ossos, músculos, órgãos e tecidos funcionam de forma
integrada para manter equilíbrio e garantir a sobrevivência do organismo. Os
diversos componentes do tórax estão conectados com todo o corpo humano. O esterno
é um deles. Funciona como aquelas sapopemas. Digamos que as cartilagens presas
ao esterno, assim como músculos, nervos, vasos e sistema linfático sejam
exatamente essa conexão estrutural representada pelas raízes das árvores.
O que o
vozinho tem, de fato, é uma osteomielite crônica fistulada do esterno. A infecção é óssea. É frequentemente
causada por bactérias que invadem o osso por disseminação sanguínea ou por contigüidade
- como nos procedimentos cirúrgicos cardíacos. O comprometimento do esterno
pode levar à destruição progressiva do osso, afetando a estabilidade da floresta
torácica e toda a eco-vizinhança. É um desses transtornos que nenhum cirurgião pode
se esquivar. 
A relação
conceitual entre anatomia humana e arquitetura da natureza leva-nos a correlacionar
os mecanismos da osteomielite esternal com a estrutura radicular da samaúma. A abordagem
comparativa entre os dois sistemas explora conceitos de suporte estrutural,
disseminação de dano, adaptação ecológica e integridade funcional.
Aí nasce um novo conceito: o de biofilme. Ou seja, há a contaminação, persistência
de bactérias em microambientes, que contribuem para destruição óssea e
falha terapêutica. Esse biofilme entra em hibernação e à medida que o
tempo vai passando as bactérias vão se enraizando pelas camadas mais profundas por contigüidade, até purgar no próprio leito esternal ou mais adiante, como no
umbigo e rebordo costal do vozinho. Esse caminho pode durar meses ou anos, até eclodir um
furúnculo mais distante e ficar jorrando pus eternamente, configurando as
fístulas. É o caso do nosso acima, cuja infecção caminhou pelo forro da
caixa torácica, até chegar à região condrocondral, como se fossem sapopemas.
Assim como a samaúma sustenta a floresta com suas raízes
profundas, o esterno sustenta a arquitetura do tórax. Ambos são pilares de um
sistema maior, onde cada conexão - raiz ou cartilagem - participa de uma intricada
rede de equilíbrio e vida. Quando o veneno alcança as raízes da árvore, a
floresta inteira pressente o colapso. Da mesma forma, quando a infecção se
insinua no osso, ela não se limita a um ponto isolado.
A
osteomielite do esterno, tal como o envenenamento da samaúma, revela que as
estruturas mais robustas também guardam vulnerabilidades invisíveis. E assim,
entre raízes e cartilagens, entre floresta e anatomia, compreende-se o que é interdependência.
