sábado, 7 de março de 2026

Biofilme e sapopemas: a anatomia da osteomielite esternal à luz da natureza

A caminho do hospital onde trabalho, uma notícia inquietante invadiu o rádio: envenenamento de árvores na vila de Alter-do-Chão. Injetaram nas raízes para elas tombarem. Caso de polícia!

    Quem visita Alter-do-Chão e arredores, incluindo a Floresta Nacional do Tapajós, vai se deparar com várias árvores elegantes. A samaúma é uma delas. É a mais emblemática da floresta amazônica. Conhecida por sua robustez, mas é a altura que impressiona. É chamada de mãe da floresta. Podem atingir mais de sessenta metros de altura e desenvolver troncos de grandes diâmetros, capazes de suportar o abraço de 18 adultos.  Diante delas somos anões.

Na cultura amazônica, a samaúma é frequentemente considerada uma árvore sagrada, associada a mitos, espiritualidade e conexão com a natureza. Reza a lenda que em seus subsolos existem restos mortais de nossos ancestrais. Suas raízes gigantescas, em formato tabulares, são conhecidas como sapopemas. As estruturas se projetam lateralmente a partir da base do tronco e podem alcançar vários metros de extensão. Não imagino essas raízes, da altura de um muro, sendo maltratadas por alguém.

Ainda martelando na minha cabeça aquela notícia, cheguei ao hospital para ver o caso de um idoso de 83 anos, que apresentava abscesso no rebordo costal esquerdo, há três meses. Havia um chamamento no peito: incisão esternal para acesso à revascularização do miocárdio, ocorrida há quatro anos. Na cicatriz havia uma fístula cutânea, saindo pus; outra à altura do umbigo, também purgando. Convivia passivamente com aquele fardo. A família foi incisiva: “o abscesso da lateral não tem nada a ver com a operação cardíaca, por isso lhe chamaram”. Perguntei-lhe o que tinha a dizer acerca da supuração próxima ao umbigo, tão distante quanto o recente abscesso.  

 O corpo humano é um sistema estrutural complexo nos quais ossos, músculos, órgãos e tecidos funcionam de forma integrada para manter equilíbrio e garantir a sobrevivência do organismo. Os diversos componentes do tórax estão conectados com todo o corpo humano. O esterno é um deles, e funciona como aquelas sapopemas. Digamos que as cartilagens presas ao esterno, assim como músculos, nervos, vasos e sistema linfático sejam exatamente essa conexão estrutural representada pelas raízes.  

O que o vozinho tem, de fato, é uma osteomielite crônica fistulada do esterno. A infecção óssea é caracterizada pela inflamação do tecido ósseo e medular, frequentemente causada por bactérias que invadem o osso por disseminação sanguínea ou por contigüidade - como nos procedimentos cirúrgicos cardíacos. O comprometimento do esterno pode levar à destruição progressiva do osso, afetando a estabilidade da floresta torácica e toda a eco-vizinhança. É um desses transtornos que nenhum cirurgião pode se esquivar.

A relação conceitual entre anatomia humana e arquitetura da natureza leva-nos a correlacionar os mecanismos da osteomielite esternal com a estrutura radicular da samaúma. A abordagem comparativa entre os dois sistemas explora conceitos de suporte estrutural, disseminação de dano, adaptação ecológica e integridade funcional.

É aqui que um novo conceito se estabelece, o de biofilme. Ou seja, há a contaminação, persistência de bactérias em microambientes ósseos, que contribuem para destruição óssea e falha terapêutica. Esse biofilme entra em hibernação e à medida que o tempo vai passando as bactérias vão se enraizando pelas camadas mais profundas, por contigüidade, até purgar no próprio leito esternal ou adiante, como no umbigo e rebordo costal. Esse caminho pode durar meses, anos, até eclodir um furúnculo mais distante e ficar jorrando pus eternamente, configurando as fístulas. É o caso do nosso vozinho, cuja infecção caminhou pelo subsolo da caixa torácica, até chegar à região condrocondral, como se fossem sapopemas.

Assim como a samaúma sustenta a floresta com suas raízes profundas, o esterno sustenta a arquitetura do tórax. Ambos são pilares de um sistema maior, onde cada conexão - raiz ou cartilagem - participa de uma intricada rede de equilíbrio e vida. Quando o veneno alcança as raízes da árvore, a floresta inteira pressente o colapso. Da mesma forma, quando a infecção se insinua no osso, ela não se limita a um ponto isolado.

A osteomielite do esterno, tal como o envenenamento da samaúma, revela que as estruturas mais robustas também guardam vulnerabilidades invisíveis. E assim, entre raízes e cartilagens, entre floresta e anatomia, compreende-se o que é interdependência.