segunda-feira, 18 de dezembro de 2006

Bodes expiatórios


Foto: Reuters.
Cinco enfermeiras búlgaras e um médico palestino foram presos e acusados em 1998 de injetar deliberadamente o vírus da AIDS em quatrocentas crianças internadas no Al-Fateh Children’s Hospital, em Benghazi, Líbia, matando-as.

Frente a um escândalo dessas proporções, a comunidade científica internacional e a Organização Mundial da Saúde mobilizaram-se no sentido de esclarecer o que teria ocorrido naquele hospital.

Especialistas de renome internacional, após exaustivas revisões de prontuários, após testarem centenas de amostras de sangue para a caracterização da variedade de HIV presente no hospital, e de revisarem todo o processo de atendimento que ali era realizado, reuniram evidências suficientes para concluir que a tragédia já acontecia antes dos voluntários chegarem a Líbia e poderia, para maior indignação do leitor, ser evitada se o hospital não estivesse reusando equipamento médico descartável para a redução de custos.

Diversos especialistas mundiais na doença, dentre eles o co-descobridor do vírus da AIDS, o francês Luc Montagnier, validaram esse relatório.

Debalde foram os esforços da comunidade internacional para modificar a situação dos profissionais de saúde acusados de assassinato em massa. Oito anos depois, em 2004, todos foram condenados à morte. Entretanto, novamente sob pressão internacional, e desta vez liderada por mais de cem prêmios nobeis, o governo do Coronel Khadaffi, depois de afirmar que os seis condenados eram agentes da CIA e do Mossad, foi obrigado a marcar um novo julgamento para amanhã, 19 de dezembro.

As lideranças científicas internacionais, entretanto, estão preocupadas em razão da justiça líbia ter sinalizado que as evidências científicas reunidas com grande esforço não serão aceitas, ou apreciadas com a seriedade que requer o assunto.

Segundo Richard Roberts, Nobel de Fisiologia e Medicina, aceitar o relatório dos cientistas significa não só mudar o destino dos acusados, mas também obrigará a Líbia a reconhecer que o hospital adotava regras de higiene que disseminavam HIV entre crianças. Para Robert a situação é ainda mais complicada porque “Essas pessoas são o bode expiatório ideal: são estrangeiros. E os líbios sabem que o governo búlgaro e o governo palestino não podiam fazer muito barulho na época que os fatos ocorreram”.

Detalhes técnicos da investigação internacional estão publicados no New England Journal of Medicine desta semana.

Um comentário:

Yúdice Randol disse...

A história é chocante e merece toda a atenção. Imagino o efeito que ela causa em profissionais da saúde, num mundo em que uma das mais nobres missões que os mesmos podem realizar é viajar para países mais frágeis nessa área, levando seu apoio a populações desassistidas.
Mais uma vez, os governos ditatoriais mostram que são perniciosos e que matam até quando exercem as mais rotineiras atividades. Não se trata de extermínio de criminosos políticos, mas de crianças, pura e simplesmente, vitimizadas por um Estado incapaz, inconseqüente, irresponsável, criminoso.