terça-feira, 20 de novembro de 2007

Abordagens

Li no blog do Yúdice seu relato a respeito da abordagem que sofreu (esta é a palavra apropriada) em uma blitz na cidade. No mesmo diapasão, o intimorato Fred Guerreiro testemunha algo parecido. Os casos, infelizmente, não são isolados.

Sou daqueles que acreditam que as pessoas valem por seu próprio nome, e não pelos títulos, cargos ou outras qualificações que porventura ostentem. As pessoas valem por ser pessoas, e não por qualquer outro motivo. Umberto Eco, de modo elegantemente apropriado, faz esta observação logo na primeira das missivas enviadas ao Cardeal Carlo Maria Martini, no livro “Em que crêem os que não crêem”, quando diz porque o chamará simplesmente pelo nome, não fazendo referência à sua condição eclesiástica.

Isto é válido em países de 1º mundo. Em Pindorama, parece que a coisa não é bem assim.

A propósito do tema, lembrei-me de um episódio que presenciei, nos meus tempos de estudante, voltando da UFPa com um colega, de carona com nosso professor de Introdução ao Estudo do Direito.

Estávamos no carro com o professor quando ele foi parado por uma blitz da Polícia Militar, próximo à Universidade. Seguiu-se algo parecido com o relatado nos blogs que mencionei.

Naquela época, como as carteiras de habilitação não possuíam foto, a entrega do documento deveria ser seguida da entrega da carteira de identidade. Até este momento, a truculência era o mote de ação do valoroso PM. Quando nosso professor entregou-lhe a documentação pessoal e de seu carro, o policial ficou pálido: para seu desconforto, o professor era também magistrado. Esta simples identificação lhe valeu uns 15 pedidos de desculpas – sinal que o militar sabia que estava agindo erradamente.

Quando percebeu a situação, nosso professor passou no PM um dos maiores pitos que já ouvi alguém passar na vida: com elegância, mas muita ironia, acusou-o claramente de só o estar tratando com a devida educação e civilidade porque descobriu que ele era juiz. Disse-lhe que não era por seu cargo que deveria ser tratado melhor ou pior que qualquer outro cidadão, para ao final recomendar que modificasse completamente seu comportamento, dizendo-lhe ainda que não era sua selvageria que iria angariar-lhe respeito de quem quer que fosse.

Anos depois, tive a infelicidade de passar por situação semelhante. E mais uma vez, para minha tristeza, o que incutiu respeito foi uma carteira de funcionário público – a minha, que não vale nada, mas que impingiu não sei lá que temor a um policial de pouca instrução.

Fatos como este causam-me, decididamente, um profundo desgosto e uma desesperança no nosso futuro. Espero ainda estar vivo quando um cidadão valer, no Brasil, pelo simples fato de ser exatamente isto: cidadão.

4 comentários:

Oliver disse...

Francisco, vai acontecer um festival de cinema franco-germânico em Belém. Li a grade de títulos e está sensacional. Não deixe de acompanhar. Especialmente A grande ilusão e A regra do jogo, ambos de Renoir, filho do genial impressionista, que revi recentemente. Como gostaria de rever os outros clássicos anunciados, que assisti quando adolescente nas sessões da APCC no Grêmio Literário Português e no Cine Palácio.

Yúdice Andrade disse...

É, meu amigo, num país em que pessoas criam o movimento "Posso me identificar?", para reivindicar o direito de puxar a cédula de identidade antes de tomar um tiro na cara, desferido por um policial diante da suspeita de se ser um criminoso, está difícil esperar que as pessoas valham pelo que são: seres humanos, conceito ainda mais básico do que cidadão.

Francisco Rocha Junior disse...

Oliver, soube do festival. Saiu uma reportagem no Diário do Pará de hoje. Vou comparecer, sim, com certeza absoluta, em especial ao filmes que indicaste. Já ouvi muito falar de "A Grande Ilusão", mas nunca tive oportunidade de vê-lo. Será uma excelente oportunidade. Valeu pela dica.

Francisco Rocha Junior disse...

O pior, Yúdice, é que isto é uma mudança que independe de governo. Esteja quem esteja, venha quem venha, a mentalidade não mudará somente pela implementação com sucesso de políticas públicas de segurança e cidadania. É preciso um movimento verdadeiramente humanista.
Há tempos defendo a idéia de que esta caminhada à civilização depende de um envolvimento amplo da sociedade. Das igrejas, da academia, das escolas, dos partidos políticos, dos movimentos sociais, de absolutamente todos. Um novo contrato social, mais profundo que o "novo pacto social" de que falou Lula no início de seu primeiro mandato - e que, para infelicidade e decepção geral da nação, não vingou.