domingo, 28 de setembro de 2008

Bandeira pouca é bobagem

Pegando o mote da postagem anterior: e como miséria temos para dar e vender, Belém está mesmo no buraco. Definitivamente. A terceira pesquisa Vox Populi, encomendada pelo Diário do Pará, colocando aquele ser humanóide em primeiro lugar, com 35% das intenções de voto, distanciando-se dos adversários, em segundo lugar os igualmente desesperançosos Valéria e Priante, com 15%, é o que de pior poderia ser dito para este malsinado sítio de horrores.
Não tem jeito: toda eleição prova o que já estamos cansados de saber: o brasileiro comum, por sua rarefeita educação geral, torna-se um eleitor medíocre, capaz de sempre reeleger qualquer asno, por pior que tenha sido o seu (des)governo. Ele já está lá, mesmo. Então deixa. Todos vão roubar, mesmo, então fica esse. É como aquela piadinha de péssimo gosto que falam acerca de estupro: Se já está dentro, então relaxa e goza. Tenho nojo de escutar isso. Mas tenho um nojo ainda maior de pensar no futuro desta cidade - sim, ela deve ter um - com esse prognóstico.
O pior é que não se trata apenas de mais quatro anos andando em círculos, chorando ao escutar o toque do telefone ou com uma abelha zumbindo no ouvido. Não se trata apenas de mais quatro anos de foro privilegiado nas ações criminais. Não se trata apenas de mais quatro anos vendo esta cidade se afundar. Trata-se, também, de legitimar os quatro anos que em breve se findarão, passando o recibo de que a maioria da cidade aprova e ratifica todos os desmandos, todos os atos de improbidade, toda a depauperação do serviço público, todo os sacrifícios vãos destes tempos sombrios.
É isso que dói. Pelo visto, vou tirar da gaveta a camisa que usava em fins de 2004, com a célebre frase de Aristóteles: "Todo povo tem o governo que merece".

4 comentários:

Marcela Bouth disse...

Não poderia ter se expressado melhor, professor. Faço de suas, as minhas palavras. Odeio esse "papo" de "não tem jeito", "vai ser sempre assim". Se o pensamento de mudança não começar com nós, eleitores, como mudar?

Bia disse...

Caro Yúdice,

Como você, sinto muita raiva. É, raiva. Esse sentimento que a minha geração aprendeu que era feio e devia ser engolido, mas que é tão natural quanto o amor.

E peço, por favor, não tire essa camisa da gaveta. O povo não tem o governo que merece. A elite sim, vai continuar a ter, talvez, o governo que lhe convém.

Se eu pudesse, faria centenas de camisa, caso isso se comprove, dizendo: Ai de nós! Continuamos sem voz!

Penso nos homens e mulheres que saem de casa cedinho, às vezes deixando a filha de 8 anos tomando conta dos que têm 2, 3, 4, 5, e 6 - o que faria 7 morreu no parto - e que vão para o trabalho ou em busca de.

Quando voltam pra casa, sem achar o emprego ou extorquidos pelo cansaço e por um salário indigno, as crianças estão famintas, a mais velha exausta - quem sabe foi à casa da vizinha comer um pedaço de bolo e deixou a de 6 anos no seu posto.

Não, esse povo não tem o governo que merece.

Quem tem o governo que quer ter são os Maioranas, os Yamadas, os donos do Lider, do Nazaré, do Formosa, da Big Ben. Esses influem. Financiam. Escolhem, de acordo com seus interesses. Mas, o cidadão comum também escolhe. Escolhe aquilo que enxerga e a ignorância e o cansaço são péssimos binóculos. E alguma coisa, de repente, alivia sua dor: de manhã, ao sair para nova jornada de cansaço, não pisa mais na lama na porta de casa, por que o "Prefeito" meteu ali um asfalto de campanha. Pronto! Esse é o homem!

Não sei se você assistiu ao debate ontem, onde o Prefeito repetiu uma dez vezes que investiu muito em saneamento e citou as 1.380 ruas asfaltadas. Isso. Foi ele quem falou, não eu.

Você sabe que tenho candidato. Que ele – Jordy – faz campanha na rua, nas casas, nas muitas vielas ainda não asfaltadas. E que a nossa capacidade de enfrentar as máquinas públicas e privadas é zero. Mas, ainda assim, ele tem um potencial de votos dos que também querem Belém sem lama na porta e na alma. Sem a lama da escuridão, da ignorância, da desinformação, das crianças com pelo menos um ano de atraso na relação idade/série e que também por isso abandonam a escola. Dos jovens fadados a matar ou a morrer (57% da causa das mortes de jovens entre 10 e 19 anos foi por homicídio, acidente e suicídios,em 2007).

Imploro: não vista essa camisa. Se quiser, não vote em ninguém. O não-voto é um voto.. Se puder, vote Jordy. Mas não desista, por favor. Somos poucos, mas ainda damos um caldo nessa república.

Um abração. Um beijinho pra Júlia.

Yúdice Andrade disse...

Bia e Marcela, suas palavras são corretas e emocionalmente cativantes. Mas devem surtir efeito numa alma como a minha, não na grande soma de pobres coitados que se encaminham para mais um buraco, sem saber ou, pior, sem se importar. Desculpem o desalento. Isso passa. Embora talvez só daqui a quatro anos.

Bia disse...

Outro abraço, meu caro.
Um bom dia pra você.