segunda-feira, 13 de julho de 2009

Entre-Tempos

A morte concebe o inaceitável e impõe-se aos sentidos como soco no solear, como patada e choque. Paraliza os que ficam para trás, quando rompe o fio vital e reordena o tempo: ao prosseguir a algaravia do tempo vivo, que inconciliável segue a juzante daquele que é da memória dos mortos. É disso que escrevo; da dor de ver-me obrigado doravante a ter um Juvêncio na memória daqueles que partiram para sempre.
Dono de personalidade singular, fazia da vida uma celebração, estivesse ele com amigos ou adversários políticos, garantindo aos primeiros a fortuna da amizade e, aos segundos, a crítica falada e escrita como espadas afiadíssimas, mas empunhadas com respeito ao contradito. Por isso penso que para ele, no tempo em que viveu, haveria uma frase que se lhe ajustaria como luva, e por certo não o desmereceria a descrição da máxima de Montaigne: Je ne fay rien sans gayeté; isto é, nada faço sem alegria.
E aqui paro pela tristeza enorme que me aquece os olhos nesse momento. Encerro com este poema para os vivos, das Ordenações de Carlos Nejar:
I Fidelidade

Meus mortos, eu vos entendo
como se nos estivéssemos vendo.
Parai - murmúrio -
convosco vou caminhando.
A cada margem - murmúrio -
e os mortos andam.

Sei porque não obedecem:
estão postos em si mesmos
já libertos deste encargo
de levar o esquecimento.

Tento sustê-los com textos,
ritmos. Tento chamá-los,
Euclides, Francisco...
E os mortos andam , não ouvem,
me olham, imponderáveis,
como se fossem comigo.
(...)

IV Trilha

Caminhai: dura é a ida,
breve nossa volta.
Por andanças colhermos
o ar e o mais, à solta.
Somos reinos: vivemos.
Ai de nós, somos reinos
vazios de tanta coisa!

Ai de nós, ai de nós
que desertamos
e fruímos a vida
nos subúrbios!
A esperança, como o joio.
A morte , ao fim de tudo.

Caminhai, pois. À volta
roda o mundo.

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