quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

O apanhador e o ceifador

A morte veio buscar o escritor J. D. Salinger, hoje, aos 91 anos.

Salinger ficou famoso pelo livro O Apanhador no Campo de Centeio, que descreve o retorno de Holden Caulfield, um adolescente de uma família rica de Nova York, para casa, às vésperas do Natal, após ser expulso do colégio interno em que estudava. Caulfield, no caminho, faz reflexões sobre sua vida, seus impulsos, seu futuro, tudo em uma linguagem claramente adolescente, com os raciocínios tortuosos e sob influência do tédio nihilista próprios da idade.

Por sua vez, o livro de Salinger tornou-se célebre em razão de um outro motivo: o de ter sido mencionado por Marc Chapman, o assassino de John Lennon, como motivador do homicídio do Beatle. Por este motivo funesto, O Apanhador passou a ser considerado uma espécie de livro maldito, citado em filmes por personagens homicidas e, dizem, motivo para que aqueles que o adquirissem passassem a ser alvo da bisbilhotagem da Polícia Federal americana, o FBI. No livro, não há nada, à primeira vista, que justifique este temor. Não há crimes, tentados ou concretizados: Caulfield não mata ninguém, sequer pensa nisso.

O livro, já tive oportunidade de mencionar aqui, não me diz nada de mais. Acho-o - e certamente me exponho às críticas mais ferozes - um grande engodo. Há críticos, porém, que o avaliam como "o livro que inventou uma geração", o que acho um flagrante exagero, já que a linguagem literária de Salinger não é nada atrativa ou original, e o roteiro do livro é de uma platitude espantosa. Dizer que Salinger "inventou uma geração" decorre do fato de que os pensamentos de um jovem de 17 anos nunca antes haviam sido utilizados como fonte de literatura para uma obra que não se destina ao público adolescente. No entanto, nunca consegui me convencer do porquê de O Apanhador no Campo de Centeio ser considerado uma obra tão seminal.

Na tradução brasileira, a curiosidade maior é que da equipe de tradutores fez parte o diplomata Jório Dauster, negociador da dívida externa brasileira no governo Collor de Mello. É de Dauster, portanto, parte da culpa pelo título brasileiro do livro (creio que se poderia deixar de seguir o pé-da-letra e evitar tomar the catcher por o apanhador) e por uma das gírias mais irritantes ditas repetidamente por Caulfield - at all, simplesmente traduzido por e tudo.

De toda sorte, certamente não será por minha mísera má-vontade que Salinger deixará o panteão dos escritores como o autor de um clássico. Paz à sua alma.

4 comentários:

Raul Reis disse...

Um dos meus livros preferidos, vindo da mente de um escritor brilhante. R.I.P., Salinger...

Val-André Mutran disse...

Francisco, conheço Jório Dauster pessoalmente.
Foi Diretor da Vale.
Custa-me crer que um intelectual de sua matiz deve ter se rendido à preguiça quando optou pelos maneirismos adotados na tradução brasileira.
Agora, será que a culpa é dele ou do editor?

Scylla Lage Neto disse...

Francisco, eu li Salinger pela primeira vez no CCBEU, ainda adolescente, e não gostei.
Tentei novamente uns 10 anos depois e não consegui nem terminar o "Apanhador...".
Talvez os críticos estejam certos e neste caso eu devo reler a clássica obra.
Mas terei que aguardar por um momento em que a vontade brote espontânea.
Quem sabe inaugurando um i-pad?
Abs.

Francisco Rocha Junior disse...

Val, esclareço a tua dúvida, ao menos quanto ao título, na postagem que fiz hoje sobre o tema.

Scylla, talvez seja o caso também de eu reler O Apanhador. Outro dia, até tentei, mas acho que ainda estava muito influenciado por minha impressão inicial. Mas vou fazer um esforço e, quando conseguir, pode ser que venha novamente a falar do livro por aqui.

Abraços.