quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

As sangreiras de todos os dias

Roger Normando, cirurgião e professor da UFPA

Nesta manhã domingueira chamou-me atenção, por se tratar de um tema de minha lide, ou mais ainda, do enredo das minhas confissões científicas no itinerário de médico e professor, a “violência” escorrida nos jornais às vésperas do feriado momesco. Os textos deixam-me, de bandeja, vários aspectos da violência (doença traumatismo, no meu dicionário), por isso a necessidade urgente do diálogo, cujo epicentro de minha verve é “a sangreira escorrendo na mídia”, como se referiu certa vez a professora Amarilis Tupiassu em um de seus belos artigos de domingo.
O caderno de polícia só não me derrota porque convivo com a tal sangreira diariamente no papel de cirurgião, mas às vezes, confesso, a naturalidade com que os jornalistas se atiram à retratação deste mal, devora-me o lado esquerdo da alma, pois é por lá que o ritmo cardíaco inicia o sopro da vida. Só descubro que não sou insano, porque a serotonina (aquele hormônio do prazer), em mim, é imediatamente substituída pela adrenalina (aquele do medo). Percebo que ainda não tenho a anodinia digna dos fotojornalistas (e olha que sou cirurgião!), pois lá revejo alguns daqueles meus pacientes socialmente contextualizado: Alguns são vítimas, outros meliantes. Só não esqueço que todos são iguais naquele atendimento em que estamos cegos às barbáries e confessos réus aos juramentos de Hipócrates.
O sangue das notícias lembra-me a estadunidense Susan Sontag em seu livro “Diante da dor dos outros” (Companhia das letras, 2003) em que faz uma citação, talvez surreal em palavras, mas nem tanto quando fitamos atordoados, todas as manhãs, as fotografias nos cadernos policiais: “Nas expectativas modernas e no sentimento ético moderno, cabe uma posição central à convicção de que a guerra é uma aberração, ainda que inevitável. De que a paz é a norma, ainda que inatingível. Não foi assim, é claro, que a guerra foi vista ao longo da história. A guerra foi a norma, e a paz, a exceção”.
Portanto, essa assertiva cabe cada vez mais no meu cotidiano de cirurgião. No outro lado das trincheiras desta guerra civil, uma visão opaca está no meu coração de cidadão, mas bastante translúcida no meu cérebro de cirurgião: fazemos guerra. Se não fazemos, criamos fantasias, damos desfechos, abrimos covas e amontoamos caixões. É isso que vemos no fotojornalismo de todo dia: cadáveres empilhados e lágrimas inundando calçadas de cemitérios no feriado de finados. O comentário é endiabrado, mas ele tem muito de Sontag e da vida que levo como “cirurgião de trincheira” - assim costumo dizer – quando abrimos três abdomes, dois tóraces, um crânio e corrigir umas cinco fraturas, como aconteceu no Hospital Metropolitano numa recente sexta-feira.
Percebemos que os números da desgraça só não são maiores que as tiragens dos jornais, que passaram a vender sangue das vítimas a preços camaradas. Se juntarmos o mês, vai dar quase mil entre os três hospitais de referencia da cidade, conforme a manchete recente de “o liberal”: “Violência interna mil por mês”, cujo tema é apropriado, e que tem uma faceta que não pode estar distante de comentários centrados, como o de Roberto Pompeu de Toledo, em “Woody Allen no Rio” (Veja, 31 outubro de 2009).

5 comentários:

Lafayette disse...

Valeu Roger, interessante artigo.

Yúdice Andrade disse...

Admirável o senso de humanidade constante do texto. Faz-me sentir alívio por não estar sozinho nessa crítica e nessa enorme inquietação.

Raul Reis disse...

Here, here, amigo Roger! Belas palavras, com as quais concordo plenamente. Como jornalista e professor de ética jornalística, deparo-me com este dilema e discussão quase que diariamente.

joaopedromfnormando disse...

Certa vez, quando fui jogar minha pelada de sábado, um dos peladeiros estava entristecido pela morte de um de seus parceiros, após noitada na cidade nova. Foram três balaços. A foto estava escancarada num dos tablóides da cidade. Ele me disse, "morreu de morte natural". Morte natural? Perguntei exclamando. "Sim", respondeu e, no mesmo compasso respiratório prosseguiu: "morrer de violência, hoje em dia, é morrer de morte natural". Pasmei com aquela verdade. Assim como pasmo ao ver tais imagens diariamente, tão natural, tão banal.
Roger Normando, pelo email de JOÃO Pedro Normando

Scylla Lage Neto disse...

Roger, adorei seu post.
Mas quero fazer um pedido a você: escreva para nós "aquelas" histórias do fusca, pois precisamos igualmente de amenidades na busca do equilíbrio de cada dia.
Um abraço.