segunda-feira, 28 de junho de 2010

Olhos com que Olhas, Não São Os Que te Olho

Falei agora com uma amiga minha pelo skype. Doutora em Antropologia Linguística, de volta da Europa depois de um visiting fellowship numa universidade holandeza. Diz-me ela que em Belém, no Pará, os paraenses nas ruas comemoram a vitoria de 3 x 0 do Brasil sobre nossos hermanos chilenos. Foi um jogão contra uma seleção de corajosos, concordamos todos nós.
Invejo o discernimento de Belém. Aqui em Brasília, capital do Brasil e Distrito Federal, classificada como segunda maior renda per capta do país, nem buum de foguete ouvi nos três goals da seleção brasileira que nosso time fez nesta Copa de 2010. Gente estranha essa, meus vizinhos com seus BMWs, Mercedes, Land Rovers e Jaguares... nos seus apartamentos de 1 milhão de reais ou 4 milhões de dólares.
O que eles ignoram da fátua anestesia é que a partir da exceção um todo se constroi, porque o todo não se constitui senão pela dinâmica das partes aparentemente incongruentes, conjugadas da semeadura à colheita num ritmo doido que desafia o maestro, a banda e a audiência de maioria surda.
Daí a pergunta inescapável que é diferente daquela opositora e de viés ideológico, ainda que ambas sejam historicamente determinadas: Esses jovens concursados com qual cabeça e de qual caverna interpretam o mundo escroto, que por ser urbe tenebrosa lhes satisfaz com o a grife da hora, o nome do relógio, da roupa ou da marca de carro e lhes agravam como feitiço o senso e o salário para além da poupança?
O pensamento aqui estaria concluído, com ou sem resposta, não fosse emoldurado antes do termo pelo berro na sala ao lado, de sobrinho que anunciava a avó que amanhã "teria de qualquer jeito" a camisa do Nakamura. Desconcentrado pela exclamativa imponderável frente às circunstâncias etárias e financeiras do declarante, apenas restou-me à vista do inevitável o desconsolo de constatar que tal posse da camisa nakamuriana, símbolo dos exatos 15 minutos de glória do jogador japonês, estariam juntados outros tantos cobres obscuros destinados a um falsificador qualquer, atravessados por algum ambulante nas rotatórias das quadras ou em algum cubículo da Feira do Paraguai em Brasília, na Praça da República em Belém, na Cinelândia ou na Paulista, apesar de todos serem provenientes das economias de vozinhas incautas!
Barbaridade. A consciência é uma merda, quando inútil pelas circunstâncias. Escape-nos arqueólogos darem resposta a tais paraísos da serotonina, por escala animal presente antes da aventura cultural; porque do ponto de vista econômico a culpa dessas reflexões é por agora do Paul Krugman, keynesiano notável, que levou-me até ali e de lá vim para ter os ouvidos cheios das vozes de minha casa.

2 comentários:

Homem do Norte disse...

Não me surpreende. Eu já tinha "ouvisto" falar nisto. Tem um pouco de icterícia neste olhar brasiliense para o Brazil (com Z, mesmo), conforme esta foto do blog, aqui ao meu lado, num look para o infinito.
Roger

Itajaí de Albuquerque disse...

Sim, homem do norte. E o problema só agrava.