terça-feira, 8 de março de 2011

O Velho e o Mar

Tenho curiosidade pela personagem de Ernest Hemingway. Já passei por alguns lugares que ele freqüentou – em geral, bares como a Floridita e a Bodeguita Del Medio, em Havana, ou o Harry’s Bar, em Veneza –, o que me dá certa sensação de proximidade que talvez não tenha com outros autores. Na verdade, é um sentimento de que Hemingway era alguém normal, uma pessoa que se poderia encontrar em qualquer esquina do mundo.

Consta que Ernest Hemingway era um bom camarada. Um cara irascível, mas um amigo fiel, um bom companheiro de farra, um sujeito boa praça. E no entanto...

No entanto, eis que de suas obras surge um escritor lúgubre, que buscava um texto cru, enxuto, de muitos substantivos e poucos adjetivos. Mesmo quando se reporta a memórias, como em Paris é uma Festa (Bertrand Brasil, 2009 – e da mesma editora são as demais obras citadas neste texto), e contrariamente ao que anuncia o título, Hemingway parece um autor triste e angustiado.

A sensação se espraia nos pouquíssimos romances que li do autor; um sentimento marcante, porém. Adeus às Armas, por exemplo, narra uma história de amor que termina em perda. O Velho e o Mar, o terceiro e último com que tive contato até agora, termina em outra espécie de perda – não proveniente da morte, mas da dignidade, por um instante recuperada, mas logo perdida pelas circunstâncias da vida e para um adversário mais forte que o homem persistente: a natureza.

Atenção: spoilers!

O Velho e o Mar conta a história de Santiago, um velho pescador cubano que, ao final de um período de 84 dias sem conseguir pescar nada, consegue capturar um marlin descomunal, maior que todos os peixes que já haviam sido pescados em sua comunidade. Por três dias, Santiago luta sozinho com o animal, que o arrastara para o alto-mar, e quando finalmente consegue fisgá-lo, não chega com ele inteiro de volta à praia, simplesmente porque a natureza não permite.

Santiago demonstra uma força mental enorme, uma obstinação que o leva a uma grande batalha e, ao final desta, a uma vitória surpreendente e emocionante. Mas o que se anunciava como sua grande obra, na realidade é um simples prólogo, um prelúdio para a vitória da Natureza (talvez seja melhor anunciá-la com N maiúsculo), que ocorre na fase menos gloriosa de sua guerra pessoal. Terminado o trabalho de guerreiro, vem o trabalho de escravo, como o próprio Santiago diz para si mesmo; e é neste trabalho de escravo, o labor do dia-a-dia, que Santiago sente que seu esforço foi vão.

A luta do homem solitário com o peixe, uma metáfora evidente da persistência do homem e de sua incapacidade de domar a natureza, virou filme oscarizado, estrelado por Spencer Tracy. Da obra, sobressai-se, como eu disse antes, uma tristeza descomunal, diante da sorte que o destino reserva a Santiago. Uma tristeza parecida com aquela que se sente ao se ler A Pérola, obra de menor fôlego, mas de igual desesperança, de outro grande autor americano, John Steinbeck.

Mas este é livro para outro post.

7 comentários:

Homem do Norte disse...

Bela interpretação.

Scylla Lage Neto disse...

Francisco, você resgatou em mim um livro que marcou a minha juventude e me sinto agora na obrigação de relê-lo.
Super postagem!

Francisco Rocha Junior disse...

Obrigado, Roger e Scylla.

Scylla, pois eu li já na maturidadede e fiquei profundamente emocionado com o texto.

Abs.

Lucas de Arruda Câmara disse...

Coincidentemente, comprei The Old Man and The Sea num daqueles fantásticos sebos da Av. de Mayo; não sei se chegaste a conhecer algum. Ainda não li nada do Hemingway. Além desse, tenho uma edição com os 50 primeiros contos dele, mas tenho a péssima mania de comprar um livro atrás de outro, e demoro séculos pra acabar lendo-os de fato.
Não sei se te recordas que o Hemingway lutou a segunda guerra, como membro honorário do exército americano. Uma parte dessa história é contada em Slightly Out Of Focus, ainda sem tradução, do Robert Capa, fotojornalista de guerra que tirou aquela famosa foto do miliciano espanhol caindo após levar um tiro. Esse livro é o diário de guerra do Capa, com algumas 'licenças poéticas' rs.
Segue um trecho sobre o Hemingway. Se passa entre o dia d e a tomada de paris:

"Ernest Hemingway sent a message to me at Granville. From the start of the French campaign, he had attached himself to the 4th infantary. He sad that the infantary was having a good war for a photographer and I ought to stop fooling around behind a lot of tanks. He sent a freshly captured Mercedes, in all its luxury, to fetch me, and I unwillingly climbed in a was driven to his battelfield.
The forty-eight stitches had left no visible trace on Papa's [apelido de capa p/ Hemingway] scalp, and he had shaved off his inprintable beard. He received me crisply. He had become an honorary member of the 4th division and was as widely respected for his guts and military knowledge as for his writing. He had a little army of his own inside the division. The comanding general, Barton, had assigned to him as public relations officer Lt. Stevenson, Teddy Roosevelt's former aide. He was also assigned a cook, a driver, a former motorbike champion who functioned as photographer, and his own ration of scotch.
Officially, they were all public relations personnel, but under Papa's influence they became a bunch of bloodthirsty Indians. Hemingway, as a war correpondent, was not allowed to carry arms, but his task force carried every weapon imaginable, of both German and american make. They were even motorized. Besides the Mercedes, they had captured a motorcycle replete with sidecar."

Se tiverem a oportunidade de ler, é um livro que vale a pena, e o Capa, além de tudo, é muito divertido.
Boa quarta-feira de cinzas a todos,
Abraço!

Francisco Rocha Junior disse...

Oi, Lucas.

Quanto privilégio do velho Papa na guerra, hein? Deve ser porque já nessa época ele era uma celebridade.

Hemingway serviu também na 1a Guerra, no norte da Itália, cenário de Adeus às Armas (outro livro que virou filme), recomendadíssimo.

Não conheço o livro a que te referes mas, se der, vou atrás. Também tenho essa mania de comprar vários livros e demorar a ler muitos deles. Tenho-os como um tesouro que guardo para um dia, quando menos me lembrar, encontrá-los e me encantar - com a redescoberta e sua leitura. Em uma imagem menos lírica, algo como um cachorro que guarda um osso e um belo dia o encontra.

Abração.

Scylla Lage Neto disse...

Francisco, eu tenho exatamente a mesma mania, a de "colecionador de ossos".
E, diferente de um cemitério, a coleção é um verdadeiro biotério.
Abs.

Francisco Rocha Junior disse...

Scylla,
os livros-ossos são como zumbis: um belo dia eles acordam.
Abs.