quarta-feira, 1 de junho de 2011

Celulares e tumores


Glioma maligno (glioblastoma)

Neste mundo binário em que vivemos, cheio de dicotomias antagônicas, pontos e contra-pontos, o anúncio feito ontem em Lyon pela OMS relacionando a possibilidade de surgimento de tumores cerebrais desencadeados pela energia emitida pelos aparelhos da telefonia celular, caiu como um tsunami na consciência coletiva.
E o que mais me espanta é como este assunto demorou tanto tempo para vir à tona, pois há mais de 10 anos é sabido que a radiação eletromagnética gerada pelos celulares tem influência como fator desencadeante de certos tipos de tumores no cérebro (principalmente dos gliomas e neurinomas), em pessoas predispostas.
A exposição excessiva ao celular (30 minutos por dia, ao longo de 10 anos) parece aumentar em 40% o risco de surgimento de gliomas, o que levará o uso do celular a ser classificado como de risco 2B - POSSIVELMENTE CANCERÍGENO, junto com substâncias como chumbo e pesticidas, por exemplo.
O mecanismo atribuído à gênese dos tumores seria através da geração de danos no DNA das células cerebrais pelas ondas de radiação não-ionizada, aliás bem semelhantes àquelas geradas pelos fornos de micro-ondas.
Os gliomas são tumores primários do cérebro, originados na glia, estruturas celulares (astrócitos e oligodendrogliócitos) que oferecem suporte aos neurônios. Este tipo de tumor apresenta características bem peculiares, como a possibilidade de ser benigno a princípio (Graus I e II) e de se tranformar em maligno (Graus III e IV) no decorrer de sua evolução.
O tratamento é cirúrgico, complementado por radioterapia e quimioterapia, e o prognóstico varia com o grau de malignidade apresentado. Via de regra, as chances de sobrevivência a longo prazo não são muito animadoras.
É interessante ressaltar que outras formas de radiação podem gerar tumores cerebrais, como o raio-X, que está ligado à origem de certos tipos de meningeomas.
O trabalho científico que norteou a OMS a fazer o anúncio de ontem será publicado em julho na revista Lancet.
Será que num futuro breve os anúncios das operadoras Oi, Tim, Claro e Vivo ou dos fabricantes Nokia, Motorola e Apple trarão um aviso sinistro, tipo "O Ministério da Saúde adverte: falar no celular pode desencadear tumores no cérebro"?
Veremos.

3 comentários:

Homem do Norte disse...

Scylla, você tem percebido um aumento no número de operações por este tipo de tumor? A pergunta é repleta de empirismo, mas é o ponto de partida para o raciocínio científico. Chega a ser uma epidemia de tumor numa proporção pelo menos próxima das vendas de celulares?
Abraços.

Scylla Lage Neto disse...

Roger, aparentemente sim.
Mas temos que considerar a maior disponibilidade dos meios de diagnóstico para um número crecente de pessoas.
É curioso, mas tenho visto muitos neurinomas do nervo estato-acústico (aquele que está mais perto da fonte de radiofrequência, ou seja, do ouvido), com diâmetro inferior a 10 mm (provavelmente recentes, com pouquíssimos anos de crescimento).
Observemos.
Um grande abraço.

Homem do Norte disse...

O empirismo é uma observação de relevância e suscita pesquisar o problema com metodologia rigorosa, portanto o seu relato nos preocupa, pois é o extrapolamento clínico de uma preocupação laboratorial (alteração no DNA). O que se precisa é aplicar um teste estatístico, e penso que os grandes centros de pesquisa certamente responderão essa pergunta com taxas de prevalência acima do normal na era pré-celular, mas o que mais me intriga é que deveríamos ter uma epidemia de cancer nesta região do Sistema Nervoso, dado o uso expressivo de celulares. De qualquer maneira passarei a me preocupar mais até que essa tormenta nos abandone.