quarta-feira, 8 de maio de 2013

Sobre contratação de médicos cubanos para trabalhar no Brasil

"Muito interessante e inteligente o artigo. Já participei como membro de banca examinadora quando professor de Medicina da UFPA, para revalidação de diplomas de médicos estrangeiros, antes do REVALIDA.Vi a má vontade de nossos colegas ao avaliarem com perguntas preparadas de vésperas e tão difíceis que a própria banca não sabia responder. Algo está errado. Nessa avaliação, eram 176 candidatos estrangeiros e só 7 foram aprovados. Um absurdo. O problema era puramente político" - Murilo Morhy.

Reproduzo acima o comentário do meu pai ( *-* sim, meu pai querido-lindo-fofo-competente-dengoso...). Ele o fez por ocasião de um ótimo texto que publiquei no face sobre a contratação de médicos cubanos para trabalhar no Brasil. Tô com ambos. Assim, sem muito mais o que dizer, publico o texto de origem do debate, com o devido link do blog do Luis Nassif.

"Por Pedro Saraiva

Olá Nassif, sou médico e gostaria de opinar sobre a gritaria em relação à vinda dos médicos cubanos ao Brasil

Bom, como opinião inteligente se constrói com o contraditório, vou tentar levantar aqui algumas informações sobre a vinda de médicos cubanos para regiões pobres do Brasil que ainda não vi serem abordadas.

- O principal motivo de reclamação dos médicos, da imprensa e do CFM seria uma suposta validação automática dos diplomas destes médicos cubanos, coisa que em momento algum foi afirmado por qualquer membro do governo. Pelo contrário, o próprio ministro da saúde, Antônio Padilha, já disse que concorda que a contratação de médicos estrangeiros deve seguir critérios de qualidade e responsabilidade profissional. Portanto, o governo não anunciou que trará médicos cubanos indiscriminadamente para o país. Isto é uma interpretação desonesta.

- Acho estranho o governo ter falado em atrair médicos cubanos, portugueses e espanhóis, e a gritaria ser somente em relação aos médicos cubanos. Será que somente os médicos cubanos precisam revalidar diploma? Sou médico e vivo em Portugal, posso garantir que nos últimos anos conheci médicos portugueses e espanhóis que tinham nível técnico de sofrível para terrível. E olha que segundo a OMS, Espanha e Portugal têm, respectivamente, o 6º e o 11º melhores sistemas de saúde do mundo (não tarda a Troika dar um jeito nesse excesso de qualidade). Profissional ruim há em todos os lugares e profissões. Do jeito que o discurso está focado nos médicos de Cuba, parece que o problema real não é bem a revalidação do diploma, mas sim puro preconceito.

- Portugal já importa médicos cubanos desde 2009. Aqui também há dificuldade de convencer os médicos a ir trabalhar em regiões mais longínquos, afastadas dos grandes centros. Os cubanos vieram estimulados pelo governo, fizeram prova e foram aprovados em grande maioria (mais à frente vou dar maiores detalhes deste fato). A população aprovou a vinda dos cubanos, e em 2012, sob pressão popular, o governo português renovou a parceria, com amplo apoio dos pacientes. Portanto, um dos países com melhores resultados na área de saúde do mundo importa médicos cubanos e a população aprova o seu trabalho.

- Acho que é ponto pacífico para todos que médicos estrangeiro tenham que ser submetidos a provas aí no Brasil. Não faz sentido importar profissionais de baixa qualidade. Como já disse, o próprio ministro da saúde diz concordar com isso. Eu mesmo fui submetido a 5 provas aqui em Portugal para poder validar meu título de especialista. As minhas provas foram voltadas a testar meus conhecimentos na área em que iria atuar, que no caso é Nefrologia. Os cubanos que vieram trabalhar em Medicina de família também foram submetidos a provas, para que o governo tivesse o mínimo de controle sobre a sua qualidade.

Pois bem, na última leva, 60 médicos cubanos prestaram exame e 44 foram aprovados (73,3%). Fui procurar dados sobre o Revalida, exame brasileiro para médicos estrangeiros e descobri que no ano de 2012, de 182 médicos cubanos inscritos, apenas 20 foram aprovados (10,9%). Há algo de estranho em tamanha dissociação. Será que estamos avaliando corretamente os médicos estrangeiros?

Seria bem interessante que nossos médicos se submetessem a este exame ao final do curso de medicina. Não seria justo que os médicos brasileiros também só fossem autorizados a exercer medicina se passassem no Valida? Se a preocupação é com a qualidade do profissional que vai ser lançado no mercado de trabalho, o que importa se ele foi formado no Brasil, em Cuba ou China? O CFM se diz tão preocupado com a qualidade do médico cubano, mas não faz nada contra o grande negócio que se tornaram as faculdades caça-níqueis de Medicina. No Brasil existe um exército de médicos de qualidade pavorosa. Gente que não sabe a diferença entre esôfago e traqueia, como eu já pude bem atestar. Porque tanto temor em relação à qualidade dos estrangeiros e tanta complacência com os brasileiros?

- Em relação este exame de validação do diploma para estrangeiros abro um parêntesis para contar uma situação que presenciei quando ainda era acadêmico de medicina, lá no Hospital do Fundão da UFRJ.

Um rapaz, se não me engano brasileiro, tinha feito seu curso de medicina na Bolívia e havia retornado ao país para exercer sua profissão. Como era de se esperar, o rapaz foi submetido a um exame, que eu acredito ser o Revalida (na época realmente não procurei me informar). O fato é que a prova prática foi na enfermaria que eu estava estagiando e por isso pude acompanhar parte da avaliação. Dois fatos me chamaram a atenção, o primeiro é a grande má vontade dos componentes da banca com o candidato. Não tenho dúvidas que ele já havia sido prejulgado antes da prova ter sido iniciada. Outro fato foi o tipo de perguntas que fizeram. Lembro bem que as perguntas feitas para o rapaz eram bem mais difíceis que aquelas que nos faziam nas nossas provam. Lembro deles terem pedidos informações sobre detalhes anatômicos do pescoço que só interessam a cirurgiões de cabeça e pescoço. O sujeito que vai ser médico de família, não tem que saber todos os nervos e vasos que passam ao lado da laringe e da tireoide. O cara tem que saber tratar diarreia, verminose, hipertensão, diabetes e colesterol alto. Soube dias depois que o rapaz tinha sido reprovado.

Não sei se todas as provas do Revalida são assim, pois só assisti a uma, e mesmo assim parcialmente. Mas é muito estranho os médicos cubanos terem alta taxa de aprovação em Portugal e pouquíssimos passarem no Brasil. Outro número que chama a atenção é o fato de mais de 10% dos médicos em atividade em Portugal serem estrangeiros. Na Inglaterra são 40%. No Brasil esse número é menor que 1%. E vou logo avisando, meu salário aqui não é maior do que dos meus colegas que ficaram no Brasil.

- Até agora não vi nem o CFM nem a imprensa irem lá nas áreas mais carentes do Brasil perguntar o que a população sem acesso à saúde acha de virem 6000 médicos cubanos para atendê-los. Será que é melhor ficar sem médico do que ter médicos cubanos? É o óbvio ululante que o ideal seria criar condições para que médicos brasileiros se sentissem estimulados a ir trabalhar no interior. Mas em um país das dimensões do Brasil e com a responsabilidade de tocar a medicina básica pulverizada nas mãos de centenas de prefeitos, isso não vai ocorrer de uma hora para outra. Na verdade, o governo até lançou nos últimos anos o Programa de Valorização do Profissional da Atenção Básica (Provab), que oferece salários mensais de R$ 8 mil e pontos na progressão de carreira para os médicos que vão para as periferias. O problema é que até hoje só 4 mil médicos aceitaram participar do programa. Não é só salário, faltam condições de trabalho. O que fazemos então? vamos pedir para os mais pobres aguentar mais alguns anos até alguém conseguir transformar o SUS naquilo que todos desejam? Vira lá para a criança com diarreia ou para a mãe grávida sem pré-natal e diz para ela segurar as pontas sem médico, porque os médicos do sul e sudeste do Brasil, que não querem ir para o interior, acham que essa história de trazer médico cubano vai desvalorizar a medicina do Brasil.

- É bom lembrar que Cuba exporta médicos para mais de 70 países. Os cubanos estão acostumados e aceitam trabalhar em condições muito inferiores. Aliás, é nisso que eles são bons. Eles fazem medicina preventiva em massa, que é muito mais barata, e com grandes resultados. Durante o terremoto do Haiti, quem evitou uma catástrofe ainda maior foram os médicos cubanos. Em poucas semanas os médicos dos países ricos deram no pé e deixaram centenas de milhares de pessoas sem auxílio médico. Se não fosse Cuba e seus médicos, haveria uma tragédia humanitária de proporções dantescas. Até o New England Journal of Medicine, a revista mais respeitada de medicina do mundo, fez há poucos meses um artigo sobre a medicina em Cuba. O destaque vai exatamente para a capacidade do país em fazer medicina de qualidade com recursos baixíssimos (http://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMp1215226).

- Com muito menos recursos, a medicina de Cuba dá um banho em resultados na medicina brasileira. É no mínimo uma grande arrogância achar que os médicos cubanos não estão preparados para praticar medicina básica aqui no Brasil. O CFM diz que a medicina de Cuba é de má qualidade, mas não explica por que a saúde dos cubanos, como muito menos recursos tecnológicos e com uma suposta inferioridade qualitativa, tem índices de saúde infinitamente melhores que a do Brasil e semelhantes à avançada medicina americana (dados da OMS).

- Agora, ninguém tem que ir cobrar do médico cubano que ele saiba fazer cirurgia de válvula cardíaca ou que seja mestre em dar laudos de ressonância magnética. Eles não vêm para cá para trabalhar em medicina nuclear ou para fazer hemodiálises nos pacientes. Medicina altamente tecnológica e ultra especializada não diminui mortalidade infantil, não diminui mortalidade materna, não previne verminose, não conscientiza a população em relação a cuidados de saúde, não trata diarreia de criança, não aumenta cobertura vacinal, nem atua na área de prevenção. É isso que parece não entrar na cabeça de médicos que são formados para serem superespecialistas, de forma a suprir a necessidade uma medicina privada e altamente tecnológica. Atenção! O governo que trazer médicos para tratar diarreia e desidratação! Não é preciso grande estrutura para fazer o mínimo. Essa população mais pobre não tem o mínimo!

Que venham os médicos cubanos, que eles façam o Revalida, mas que eles sejam avaliados em relação àquilo que se espera deles. Se os médicos ricos do sul maravilha não querem ir para o interior, que continuem lutando por melhores condições de trabalho, que cobrem dos governos em todas as esferas, não só da Federal, melhores condições de carreia, mas que ao menos se sensibilizem com aqueles que não podem esperar anos pela mudança do sistema, e aceitem de bom grado os colegas estrangeiros que se dispõe a vir aqui salvar vidas.

Infelizmente até a classe médica aderiu ao ativismo de Facebook. O cara lê a Veja ou O Globo, se revolta com o governo, vai no Facebook, repete meia dúzia de clichês ou frases feitas e sente que já exerceu sua cidadania. Enquanto isso, a população carente, que nem sabe o que é Facebook morre à mingua, sem atendimento médico brasileiro ou cubano"

17 comentários:

Silvina disse...

"Infelizmente até a classe médica aderiu ao ativismo de Facebook. O cara lê a Veja ou O Globo, se revolta com o governo, vai no Facebook, repete meia dúzia de clichês ou frases feitas e sente que já exerceu sua cidadania."

Esta frase, Erika, é, infelizmente, pura verdade. Alguns médicos, elite que são, fãs incondicionais da Veja (arg!) e da Globo (farinha do mesmo saco e legítimos fundadores da imprensa golpista), pensam (ou fingem) que fazem alguma coisa em nome da "democracia".
Em todos os ramos há os bons e os péssimos. Mas, todos, na verdade adotam "farinha pouca, meu pirão primeiro".
- Solidariedade? Ah, isso é coisa de sindicato polonês, acho até que tem alguma coisa relacionada com corredor polones, parece...
E assim caminha a humanidade.

Erika Morhy disse...

Esse corporativismo e que está "pari passu" à lógica da reserva de mercado parece estar aferrada a todas as classes profissionais. Por demais triste, Silvina.

Geraldo Roger Normando Jr disse...

Belo artigo, Erika. A discussão está acesa. Nós, do departamento de cirurgia da UFPA e do Hospital Barros Barreto temos a oportunidade de desenvolver um programa chamado de “Interiorização da Cirurgia”. Lá não trocamos válvula aórtica, tampouco pulmão. Lá fazemos o básico da cirurgia, que representa a diarreia e as verminoses do tratamento clínico citado no texto acima. Vão um residente e um cirurgião para tutoria da residência que passam um mês, em sistema de revezamento. Quem coordena esse projeto é o professor e cirurgião Luiz Alberto Moraes. É um projeto ambicioso no sentido da interiorização e existe desde de 1995. É bastante louvável no que tange o olhar acadêmico, humanístico e técnico propriamente dito. Não existe programa de residência médica neste país com ideia semelhante. Os que tentaram falharam. Lá o residente (cirurgião em formação) é obrigado a ir, por sua vez ele é estimulado também, pois lá vai intervir como cirurgião em procedimentos básicos, como a retirada de um apêndice inflamado. Oriximiná e Bragança são as cidades, mas já andamos por Santarém (no início) e pelo Jari. Alguns residentes que já acabaram o período de estágio e, estimulado pelo olhar interiorano, por lá ficaram ou se estenderam mais além. Até ao interior do estado do Amazonas tem “gente nossa”. Concluo que, apesar de ser uma especialidade mais complexa, o governo poderia investir mais, seja através da universidade, seja através de outro programa. A ideia de se construir hospitais satélites com O.S (Santarém, Marabá, Breves, Tucuruí, Altamira) como no último governo de Jatene, melhorou muito esse tipo de atendimento, mas há ainda muito o que se fazer, sem precisar importar ninguém. Penso que seja possível. Sim, penso, por que já estive nessas brenhas. Aliás, vim de lá...

Geraldo Roger Normando Jr disse...

"A relação numérica médico/paciente mostra que não faltam médicos. O que há é que médicos não querem se arriscar onde faltam meios para exercer a medicina numa época em que cada vez mais famílias de pacientes e ministério público entram na justiça contra o "erro médico". Além disso, muitos médicos recebem ofertas de trabalho no interior com um bom salário, mas que são pagos nos primeiros meses e depois recebem calotes. Diante da incapacidade de administrar a saúde pública os governantes se preocupam em culpar os médicos, para quem não dão meio de trabalho" Alexandre Garcia, Rede Globo, com permnissão da Silvina.

Geraldo Roger Normando Jr disse...

"A relação numérica médico/paciente mostra que não faltam médicos. O que há é que médicos não querem se arriscar onde faltam meios para exercer a medicina numa época em que cada vez mais famílias de pacientes e ministério público entram na justiça contra o "erro médico". Além disso, muitos médicos recebem ofertas de trabalho no interior com um bom salário, mas que são pagos nos primeiros meses e depois recebem calotes. Diante da incapacidade de administrar a saúde pública os governantes se preocupam em culpar os médicos, para quem não dão meio de trabalho" Alexandre Garcia, Rede Globo, com permnissão da Silvina.

Erika Morhy disse...

Bela iniciativa com o projeto, Roger. E tem fundamento o comentário seguinte. Ainda assim, acredito que a categoria - assim como lutou soberbamente para implantar o AI-5 da saúde (ops), digo o Ato Médico - deve lutar pelas melhorias da qualidade de trabalho, sem abrir mão do valioso intercâmbio entre nações.
Encontrei outro artigo que vale a pena manter ler, pra manter o debate aceso, com todo respeito, colega.

"Médicos cubanos assustam o Conselho Federal de Medicina. Corporativistas temem que mudança do foco no atendimento abale o sistema mercantil de saúde do Brasil

A virulenta reação do Conselho Federal de Medicina (CFM) contra a vinda de seis mil médicos cubanos para trabalhar em áreas absolutamente carentes do país é muito mais do que uma atitude corporativista: expõe o pavor que uma certa elite da classe médica tem diante dos êxitos inevitáveis do modelo adotado na ilha, que prioriza a prevenção e a educação para a saúde, reduzindo não apenas os índices de enfermidades, mas sobretudo a necessidade de atendimento e os custos com a saúde.

Essa não é a primeira investida radical do CFM e da Associação Médica Brasileira contra a prática vitoriosa dos médicos cubanos entre nós. Em 2005, quando o governador de Tocantins não conseguia médicos para a maioria dos seus pequenos e afastados municípios, recorreu a um convênio com Cuba e viu o quadro de saúde mudar rapidamente com a presença de apenas uma centena de profissionais daquele país.

A reação das entidades médicas de Tocantins, comprometidas com a baixa qualidade da medicina pública que favorece o atendimento privado, foi quase de desespero. Elas só descansaram quando obtiveram uma liminar de um juiz de primeira instância determinando em 2007 a imediata “expulsão” dos médicos cubanos.
No Brasil, o apego às grandes cidades
medicos-brasil

Dos 371.788 médicos brasileiros, 260.251 estão nas regiões Sul e Sudeste (Foto:

Neste momento, o governo da presidenta Dilma Rousseff só está cogitando de trazer os médicos cubanos, responsáveis pelos melhores índices de saúde do Continente, diante da impossibilidade de assegurar a presença de profissionais brasileiros em mais de um milhar de municípios, mesmo com a oferta de vencimentos bem superiores aos pagos nos grandes centros urbanos.

E isso não acontece por acaso. O próprio modelo de formação de profissionais de saúde, com quase 58% de escolas privadas, é voltado para um tipo de atendimento vinculado à indústria de equipamentos de alta tecnologia, aos laboratórios e às vantagens do regime híbrido, em que é possível conciliar plantões de 24 horas no sistema público com seus consultórios e clínicas particulares, alimentados pelos planos de saúde.

Mesmo com consultas e procedimentos pagos segundo a tabela da AMB, o volume de clientes é programado para que possam atender no mínimo dez por turnos de cinco horas. O sistema é tão direcionado que na maioria das especialidades o segurado pode ter de esperar mais de dois meses por uma consulta.

Além disso, dependendo da especialidade e do caráter de cada médico, é possível auferir faturamentos paralelos em comissões pelo direcionamento dos exames pedidos como rotinas em cada consulta.
Sem compromisso em retribuir os cursos públicos

Há no Brasil uma grande “injustiça orçamentária”: a formação de médicos nas faculdades públicas, que custa muito dinheiro a todos os brasileiros, não presume nenhuma retribuição social, pelo menos enquanto não se aprova o projeto do senador Cristóvam Buarque, que obriga os médicos recém-formados que tiveram seus cursos custeados com recursos públicos a exercerem a profissão, por dois anos, em municípios com menos de 30 mil habitantes ou em comunidades carentes de regiões metropolitanas" (http://www.pragmatismopolitico.com.br/2013/05/medicos-cubanos-e-o-conselho-de-medicina.html)

Geraldo Roger Normando Jr disse...

Bom texto, Erika. Só não gostei de uma coisa, mas te digo depois.

Silvina disse...

Diga logo, diga logo...

Geraldo Roger Normando Jr disse...

Digo, sim, Silvina. Esse é o flanar, local de opinião. É um Bom texto, mas não chega aos pés do anterior. Discordo de: "possível auferir faturamentos paralelos em comissões pelo direcionamento dos exames pedidos como rotinas em cada consulta." Para mim arranhou o disco, ou melhor, o texto. O cara apelou feio. Perdeu-se no tema. Foi tendencioso. A história não é bem assim (De fato existem médicos que fazem isso, mas essa é outra discussão e na cabe aqui. Tem coisa muito pior que isso, mas isso é outra discussão, reitero).

Inicialmente digo-lhes que não tem nada no interior, só Padre e em alguns, um Pajé. Digo porque vim de lá dos cafundós do Acre, onde passei parte da infância e adolescência. Daí eu envio cubano? Claro! Cubano vai adorar, pois vivem mal. Para os médicos cubanos, qualquer coisa que faça sair daquele mal-estar social é salvação. O Brasil fez isso com os haitianos: houve reclamação no Acre. Os cubanos são os nossos haitianos vestidos de médicos: houve reclamação no CFM, claro. Se o CFM não reagisse, eu me espantaria. O brasileiro está reagindo. O médico brasileiro está só reagindo. Pois ele quer que os próprios brasileiros tenham condições de trabalho no interior, “meios de trabalho” como bem disse o Alexandre Garcia. Essa é a questão. Os cubanos não terão e continuaremos assim. Se houvesse condições de trabalho e os brasileiros não quisessem ir, aí eu me calaria. O resto, para mim, é balela. Você acha que os cubanos vão reclamar de alguma coisa? Mas quando!!! Agora se os cubanos trouxerem uma ouvidoria, aí sim, eu me calo, pois essa ouvidoria tem que proporcionar reclamação para melhorar, coisa que os médicos brasileiros não têm. Neste momento o governo quer é gente que trabalhe sem reclamar, e os cubanos são os melhores para isso, pois vivem em condições sociais desvantajosas. Certa vez andando por Havana parei em frente ao maior Hospital e dei uma leve espiada, por pura curiosidade. Decepcionei-me. Tudo bem, o Hospital não faz medicina preventiva, diríamos "nosotros", mas e daí? Vocês acham que os médicos vão viver fora dos hospitais ou dos centros de saúde? Portanto, faço das ideias do Alexandre Garcia minha égide.

Erika Morhy disse...

Eu compreendo você perfeitamente, meu caro Roger. Mas eu prefiro apostar que os cubanos virão, não por "viverem em condições desvantajosas", "em busca do Elo Perdido", mas porque têm saberes e estratégias que podem nos ajudar a pensar em outras medicinas, ainda que aqui, como lá, encontrem condições inóspitas; que podem salvar vidas, acima de tudo.

Geraldo Roger Normando Jr disse...

Erika, eu preciso ouvir gente assim, esperançosa, pois o meu terreno da esperança está baldio, infestado de musgo e um capinzal que já bate na canela.

Erika Morhy disse...

Roger, meu caro, devo dizer que, vez ou outra, todos nós precisamos de um mutirão em nosso terreno baldio. Eu digo logo que sou uma delas! Um grande abraço pra você e sorte pra nós!

Geraldo Roger Normando Jr disse...

Erika, acabo de ler a reportagem "Cubanos pra quê?", da revista VEJA desta semana. Acho que a nossa discussão foi bem melhor. Diga lá Silvina! Sorte pra tu também, Erika!

Camila disse...
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sharon marjorie shar disse...

Olá Érika, sou médica, tb me formei no Fundão e logo que finalizei a residência em saúde da família optei por trabalhar no interior do Mato Grosso, creio que muitas pessoas que emitem suas opiniões não presenciaram, in loco, algumas atrocidades dentre as quais a falta de médicos é apenas uma delas. Não estou falando de alta tecnologia, estou falando da falta de medicamentos para has e dm, da falta de SRO, da falta de antibióticos mínimos para o tratamento de uma infecção, da falta de um ambiente minimamente asséptico para a realização de partos, da distância de quase 500 km para um hospital de nível secundário dentro de uma fiorino que chamam de ambulãncia e com péssimas estradas, briguei e tenho brigado muito com alguns prefeitos - coronéis, submetendo-me a secretários de saúde sem qq qualificação técnica e o tempo todo me perguntando se estou mesmo no Brasil, e qual não é minha surpresa quando vejo muitos médicos estrangeiros, aceitando e se sujeitando aquilo tudo sem reclamar, em troca de um salário que eles consideram bom se comparado a seus países de origem, obviamente não dá pra generalizar. Definitivamente sou a favor do revalida para todos os médicos mas preocupo-me muitíssimo com o fato de que a aceitação do caos acabe relativizando-o, isto acontece comigo diariamente pois já me pego aceitando situações antes inaceitáveis. Fica pra pensar...

Erika Morhy disse...

Sharon, adianto minhas desculpas pela demora em postar seu comentário. Estou com problemas em minha internet aqui na Argentina. Mas vamos lá! Agradeço sua observação e não tenho a menor dúvida sobre os motivos de sua indignação. Na região Norte do Brasil, em especial no Pará, onde nasci e vivi por mais de 30 anos, acho inaceitável alguém dizer que não sabe das condições citadas por você. Estão mais que claras por diferentes formas de comunicação (não só midiáticas ou profissionais, mas também pelo envolvimento de parentes e amigos e terceiros). Ou seja, acredito que quem opina, tem um mínimo de conhecimento de causa. Depois disso, vem uma série de outros fatores, que acredito terem sido citadas na postagem e comentários. Em suma, sou a favor do projeto para vinda de médicos de outros países porque entendo que seja uma medida de emergência e não significa que aceitá-lo seja abrir mão de exigir melhoras no quadro estrutural da saúde no país, triste como já descreveste bem. Meu pai me conta, por exemplo, sobre a experiência dele no antigo projeto Rondon, a primeira edição. Uma e outra foto ajudam a refrescar a memória. Este é só uma pequeníssima ocasião ilustrativa.
Bem, espero que possamos dar uma boa sacudida nos nossos governantes e em nós mesmo, para criarmos um cenário mais justo para cada ser humano, esteja ele onde for.
Um abraço e contribua sempre com nossas reflexões.

Erika Morhy disse...

Acabo de me dar conta que liberei indevidamente um comentário de autoria de Camila nesta postagem. Desculpem-me todxs.
Está bem claro que o blog é um espaço que permite o contraditório. Permite indignação. Até opiniões sem muito fundamento, que seja. Mas é absolutamente desnecessário fazer ataques pessoais, cuspir insultos e vomitar termos rasteiros.
Como cada questão descrita por Camila me parece devidamente contemplada pela postagem e pelos demais comentários muito bem sustentados, vou me dar ao luxo e ousadia de não retrucar.