domingo, 26 de outubro de 2014

Escrito quase póstumo

             Errare Humanum Est. Este deveria ser o título desse escrito quase póstumo. Não é por questões lingüísticas o que considero meu erro, porém Errare Humanum Est. Por diversas vezes eu usei esta frase nos 40 anos de minha vida. Algum pensador de rua disse-me que tudo em excesso faz mal e utilizei esse pensamento em latim como escudo em excesso. Errare Humanum Est.
            Nasci na capital, mas só nasci. As artimanhas eu aprendi no interior, longe dos olhos grandes das autoridades e suas leis robóticas. Não podia pisar na grama, mesmo se meu objeto estivesse lá acidentalmente. Pisava na grama e levava advertência. Pisava propositalmente. Nem o arcebispo me impede de pisar na grama.
            Por aí começou minha ira com a capital. Mudei-me para o interior - isso sim é vida. Piso em qualquer grama, porém as leis flexíveis me proporcionaram atitudes além da flexibilidade do juízo humano. Foi o que me forçou a escrever Errare Humanum Est.
            Na última semana, como de costume, às quartas feiras, o carteiro deixava as encomendas. Tocou a campainha, como de costume. Abri a porta e observei a disposição do carteiro para o trabalho. Parecia-me bem. Não gostei. Puxei a encomenda da mão dele com braveza e fechei a porta com força, sem chances de ouvi-lo terminar de dizer 'Bom Dia'. A última pessoa que vi bem disposta era o homem que veio cobrar a conta de luz. Bem disposto pra me roubar.
            Quando ouvi seu carro chegando e estacionando, soltei meus cães da garagem. Só solto meus cães para assustar ladrões, qualquer tipo de ladrão, inclusive o da conta de luz. Não pago a luz nunca. Eu inventei a luz nesse vilarejo e tenho que pagar? Não. Nem pelo arcebispo. Esse é o preço da flexibilidade.
            Nunca tive esposa. Muito menos filhos. Não que eu tenha conhecimento. A moça da rua de trás está a minha espera. Na entrada da cidade outra já me esperou. Várias já me esperaram aqui. Muitas ainda esperam e algumas ainda farei esperar. A única moça que eu espero, na verdade estou esperando existir. Errare Humanum Est.
            Um dia o carteiro, outro dia a companhia de luz e no outro a polícia. Disseram que briguei na rua. Briguei sim. Dois rapazes cochichando enquanto eu passava na rua. Bati nos dois. Sem eu, eles não estariam vivendo aqui. Eu sou seu Deus. Falando na Vossa Santidade fundei uma religião aqui. Inventei uma religião inexistente, com ideologias sem nexo. A proposta é: pague e serás salvo. Quando a morte chegar dormirás na melhor cama. Mas eu não menti. Quem morre aqui é enterrado num cemitério particular ao longo da estrada, o melhor da região, que por sinal é meu. O único pregador dessa religião sou eu. Numa rua dessas por aqui fiquei sabendo que alguém fazia algo parecido. Uma cisão com a minha igreja. Mandei prender, pois sou o delegado daqui também. Errare Humanum Est.
            Esse é o resumo do que faço por aqui. Nunca fui amado, mas já dizia outro pensador de rua: seria melhor ser temido do que adorado. Até que deu certo. Só não sou o prefeito atualmente, pois já me reelegi, mas ainda assusto com umas armas.
            Depois do carteiro, dos rapazes cochichando, da companhia de luz e de tudo mais, ontem de manhã foi diferente. Um cavalo fazia barulho desde o início da rua. Olhei pela janela e o animal era preto, de só se enxergar os olhos. Num matagal fechado é um ótimo meio de caça. Porém este era estranho. Montado nele, um homem com um chapéu negro, de abas largas. Suas vestes também eram bem escuras: sobretudo, botas e luvas. O animal e o homem pareciam mesclar-se numa só coisa. Perguntei-me que tipo de pessoa usaria essa vestimenta neste calor. Mudaram o uniforme de algum cobrador para me assustar? Tentaram. O homem bateu à minha porta. Abri e ele permaneceu ali, calado e imóvel. Seu rosto fino escondia-se na sombra do chapéu largo.
- Bom dia – ele disse com a voz firme e bem postada, ressoando pela sala.
- Viestes para cobrar o que dessa vez? – perguntei-o
- Tudo
- Tudo? - Dei uma leve risada como quem não entendeu. Como cobrar tudo? Em que sentido?
- Posso entrar? – perguntou o homem.
- Não. Não pode. – respondi
- Presumo que deixe-me entrar.
- Dê-me motivos.
- Há quanto tempo você está tossindo? – perguntou ele. Assustei. Havia tossido na madrugada, mas não agora no contato com ele. Como ele sabia?
- Não estou tossindo.
- Tem tossido durante a madrugada e não percebe? Além disso, no seu cofre pessoal estão quantias de dinheiro com alto valor, que por sinal não são suas.
- Não tenho cofre algum. – respondi.
- Tem, e sua senha é 23615, exatamente a quantia que você arrecada por mês com ilegalidades. Impossível, pensei. Ele sabe a senha do meu cofre e sabe de minha saúde melhor que eu mesmo.
– Presumo que me deixe entrar, - ele continuou. Apenas abri caminho para o homem, que arrastava suas vestes negras pelo chão.
            Sentou-se no meu sofá educadamente, enquanto eu observava-o de longe, assustado e desconfiado. Poderia ser qualquer tipo de gente, mas deduzi que fosse alguém a mando de outra pessoa para matar-me. Caminhei vagarosamente em direção à gaveta em que eu guardava um revólver.
- Não vais precisar de arma. – ele disse quando fiquei próximo da gaveta. Agora, além da minha saúde e meu cofre, sabe dos esconderijos da casa.
- Quem és? E o que queres? – perguntei, sem deixar transmitir meu amedrontamento.
- Não interessa meu nome. Fui enviado para cobrar-te o que deves.
- E o que devo?
- A vida.
            Não era assassino algum. O que minha cabeça imaginava era que seria alguma assombração.
- Você fala coisas sem sentido. Saia da minha casa.- ousei-me a atacá-lo.
- Eu não vou sair. Se me colocares para fora, eu volto.
            Num súbito da consciência, abri a gaveta e, no segundo que entra meu olhar para colocá-lo na mira da arma, sua mão encostou no cano do revólver.
- Disse que não precisarás de arma. Sente-se. – disse ele impulsionando meu braço para baixo. Nesse momento fiquei nervoso, deixei que o medo tomasse conta. Não era um ser humano.
- Me diga, por favor, quem és.
- Já disse, vim cobrar o que deves.
- Mas devo para quem?
- Você sabe as pessoas que deve. Nunca foste leal na vida com nenhuma pessoa. Roubaste, humilhaste a quem precisava para obter poder. Não admites ser mandado. Seu objetivo na vida é mandar.
- E por que deveria acreditar no que dizes?
- Crês em Deus? – ele perguntou.
- Sim, claro.
- Eu sou Deus.
- Claro que não és Deus. Por que estás misterioso? Com as vestes negras? Nunca serás Deus. Impostor, sim!
- Sou outro tipo de deus.
- O Diabo?
- Esse nunca existiu. Foi inventado.
- Só existe um Deus. Não podes ser outro tipo.
- Existem muitos. Sou um deles, uma entidade. Vim cobrar pelos malefícios que causaste aos outros durante a vida. Sou um Deus Justiceiro.
- Então prove que és esse deus.
             O homem olhou-me profundamente. Aproximou-se de mim sempre mirando meus olhos. Não conseguia fazer outra coisa a não ser observar seus olhos sobre mim. Desabei no chão com muito calor. Estava delirando. A minha sala, agora, está rodeada pelas pessoas desse vilarejo. À esquerda o carteiro, à direita o cobrador da luz. Ao fundo os rapazes que briguei e as moças que deixei esperando. As famílias que roubei na igreja, todos estavam ali. Era impossível, a vila inteira não cabe na minha sala, mas estavam ali, sobrepondo uns aos outros, dentro da minha cabeça. Ouvia vozes, gritos, todos dizendo o que eu havia causado: o enriquecimento ilícito como prefeito; o abuso de autoridade como delegado; o crápula como ser humano.
            Com um estalo de dedos do homem, despertei. Observei-o e estava com um bloco de notas na mão juntamente com uma caneta, oferecendo para mim.
- Antes de partirmos, escreverás tua história.
- Partirmos para onde?
- Minha casa.
- Não vou a lugar nenhum. – retruquei. Eu devia estar sonhando.
- Escreve tua história aqui, confessa todos os teus erros nesses papéis. E agora.
- Não escreverei nada. – quando respondi, ele segurou minha mão com tamanha força que não pude mover meus braços. Estavam a quebrar, juntamente com o resto do corpo. O homem agora torturava-me.
- Tudo bem, eu escrevo. Eu disse, já aos gritos.
- Escreva primeiro o título.
- Não faço idéia do que pôr.
- ‘’Errare Humanum Est’’. Este será o título - ele disse
            Respirei fundo. Já havia percebido que era o fim. Com nada a perder, escrevi o título ‘’Errar é humano’’. Não me desdobrei para ordens de outros, eu piso na grama que quiser.
            Levantei, andei até a porta, seguindo o homem. Montamos em seu cavalo e partirmos para outros vilarejos. Errare Humanum Est.

Autor: Bento Guajará, filho de Labareda, do bando de Corisco



3 comentários:

Pedro Vallinoto Neto disse...

Caro amigo Roger.
Ao abordar a escatologia, com a profundeza deste texto. Lembrei de Albert Camus: "vou lhe dizer um grande segredo, meu caro. Não espere o juizo final, ele realiza-se todos os dias". O monoteismo cristão prega a doutrina dos valorosos da fé verdadeira, estes serão poupados ou livres do julgamento prometido ou da fúria de Deus, e, irão para o paraíso. Então senhor Deus cobrador de vestes negras, pregunto-lhe: por que nos fizeste de maneira que "errare humanum est"?
- Te dei o livre arbítrio.
- Não Deus, me deste a arma. Eu carreguei, mas não tive corragem de atirar...

Geraldo Roger Normando Jr disse...

Pedro, sua visita frequente ao nosso blog vem com a certeza de comentários atordoantes. Certamente o autor do texto, Bento Guajará, será notificado.

Valéria Normando disse...

Bento Guajará...homem rico de informação e muita criatividade a ser explorada.