domingo, 6 de setembro de 2015

O cangaço da imagem - prosa entre Labareda, Corisco e escritores de verdade

Labareda, do bando de Corisco

Dizer da travessia: “Troca-se morte certa por um mar de esperança”. 
O menino bebeu a lógica do mar, 
e regurgitou areia; 
a golfada inundou pulmões, 
minhas retinas ... O coturno do general. 

correiodpbrasil.com.br
A imagem é salgada: não é sírio; não é refugiado. 
É um menino que já não arfa. 
tal um querubim sem asas 
sobraram-lhes indigência e a cova de meio metro. 

Ruge a imagem mais que estampido de canhões. 
Nunca vai findar a tinta que pinta a tristeza; 
vontade de gritar dentro de mim, feito Munch; 
O mundo sem se ir, sem se ficar. 
Sem se caber em si.
(com Irna, Clarice, Luiz e Ana)


Corisco, irmão de cangaço de Labareda:

Teu texto sangra a dor do mundo, Labareda. 
Essa criança desacontecida 
me deu vontade de voltar pras árvores. 
Tarde demais. 
Penso, logo existo em desrazões



Dudu Neves:
Varando mares sagrados
Degredados e rebentos
Sofrimentos refugiados

 hypeness com br
Navegando em tormentos



O êxodo da guerra

Não encerra essa dor

O clamor ainda berra

Entre a paz e opressor



Atitudes do passado

Renovando vaidades

Apartheides bem farpados

Camuflados de bondade

Essa mão que se estende
Não entende que um dia
Pedia tão inclemente
Outra urgente alforria
jovempam.com.br

E aquela mãe chora grisalha
Sem o filho em seu braço
Retratado numa praia
Um bebe morre afogado

Na memória da história
Tudo é glória e sacrifício
Armistício não haverá
Ao pai que sepulta o próprio filho.





Wilson Gorj:

O mar devolveu à terra o corpo de uma criança. 
Nenhum tubarão nem peixes tocaram neste pequenino refugiado. 
Ao que parece, o menino chegou à praia intacto. 
Como se o mar dissesse à humanidade: 
'Não me envolvam nisso. Esse horror é exclusivamente responsabilidade de vocês'

José Camargo:

Aquele abraço que não se desfazia e a falta de palavras foram uma espécie de catarse, como se estivéssemos perplexos à margem do Mediterrâneo, sem mais o que fazer do que pedir desculpa pela naturalidade com que aceitamos, sem gritar, as mortes absurdas que todos os dias deixam mães inconsoláveis, e seguimos a nossa vida como se fosse razoável toda tragédia que não nos atinge diretamente.
Mãe que perde um filho perde o mesmo filho todos os dias.

Clarice Lispector:
Sou atraída aqui pelo que assusta

Jorge Luis Borges:
Los ecribo ahora asi. 
Cumplida la agonia
quiero morrir del todo

Fernando Pessoa (Bernardo Soares):
Que coisa é essa que nos nos mede sem medida 
e nos mata sem ser?

Mario Quintana:
Numa esquina do labirinto às vezes avista-se a lua
"Não! Como é possível uma lua subterrânea?"





6 comentários:

Clarice Ferreira disse...

Zilhões de emoções em um punhado de palavras. Este é o nosso poeta Roger. Entre tantos talentos domina também este!

Geraldo Roger Normando Jr disse...

Emocionado pela sua generosidade, Clarice.

Dudu Neves disse...

A Palavra as vezes pena é leve enleve, outras navalha mortalha. Parabens mano Roger!!!!

Valéria Normando disse...

Impotente...assim me sinto...

Geraldo Roger Normando Jr disse...

Dudu, a palavra ou corta como navalha, ou afaga como um cafuné.

Geraldo Roger Normando Jr disse...

Lela, diante da impotência soltemos o verbo, ou a pena do desenhista e pintor, já que temos pomo e dedos.