domingo, 22 de novembro de 2015

A fronteira da travessia

Depois do mar do Oiapoque avista-se o do Caribe...

 - Pra onde pensa que vai?

- Caiena!

- Qual tua idade?

- Dezessete.

- Não, não. Pode chispar daí se não tiver o dinheiro da passagem.

- O Claude Buchert está me esperando. Vai acertar tudo quando aportarmos.

- Descreio. Não conheço ninguém com esse nome. Mais: os franceses estão restringindo a entrada de estrangeiros pelo Atlântico; ainda: você é de menor!

        O diálogo entre Corumbá e o menino aconteceu em 1987, no porto do Oiapoque, onde começa o Brasil. O pequeno, desacanhado, só queria atravessar a fronteira na busca do sonho de todo artista e não poderia temer o tatuado marinheiro musculoso e bafento.

Quando o menino conheceu Claude, francês de Tolouse, tempos antes em Macapá, ganhou a promessa de montar, em Caiena, uma banda que mostrasse a riqueza do ritmo amazônico. Tudo porque Claude, promotor musical, avistou certa vez o tal moleque multi-instrumentista num recanto tucuju e ficou deslumbrado com seu talento.

O marinheiro não permitiu o embarque.

Noite adentro, mar rosnando, Corumbá descobre o moleque encafuado entre outros passageiros, só com a roupa do corpo. Corumbá puxou-o pela gola da camisa para jogá-lo ao mar. O menino aponta para o piso do barco onde há uma fresta por onde mina água. Lá estava fincado o pé direito dele contendo o vazamento, pois a calafetagem havia descolado em plena travessia. Corumbá se viu em apuros e todos apelaram. Ele cedeu. A viagem toda foi o garoto jogando de volta, com uma cumbuca, a água que entrava pela falha.

Do caribe o menino só conhecia histórias do pai músico, que ligava o radinho de pilha para ouvir os ritmos, em ondas tropicais. Mas o menino queria mesmo era atravessar as ondas do rádio, beber da fonte e saber se a velha promessa de Claude ainda estaria no ar... ou ficaria no mar.

A monotonia da viagem foi vencida pelo marmulhar das ondas batendo no casquinho, cujo motor parecia falhar a cada estrondo na lateral. Não havia um trisco de horizonte; a noite era só breu e o céu sustentava estrelas e o sonho do pequeno. Foi-se construindo a esperança a cada hora, mas vez por outra era carcomida pelo medo de emborcar e todos virarem tira-gosto de tubarão.

Ele dizia que sua alma de músico era um rio estagnado, pois nenhum vento enluava a vela de seus sonhos. Por isso estava ali, caolho da vida com a voz trancafiada no amanhecer vindouro. Pelas esquinas de sua cidade vivia à deriva e sob ilusão de acordes e harmonias nas cantorias regadas a incertezas. Sentia-se irmão das coisas sem adjetivos. O próprio nome desafinava entre o sonambulismo de atravessar a fronteira e a esperança de encontrar Claude.

Relembra com exatidão a chegada, após fuga a braçadas até a praia de Montjoly - sem esquecer que o débito da passagem ficou “dependurado”, salvaguardado pelo pé do moleque. Por fim, a experiência jamais lhe saiu da memória e a travessia o assombrou por mais de três anos, até o retorno definitivo pelo mesmo caminho - coisa de memória, antes que a modernidade delete.

Na mochila da volta trouxe não só o culto à língua de Baudelaire, mas a tessitura caribenha transfigurada em zankerada.

Conta ainda que na volta reencontrou o velho marinheiro e fez questão de pagar uma passagem a mais e ainda resistir ao troco. Dívida saldada, Corumbá e o menino Fineias Nelluty se tornaram amigos.
Blog de Rocha/Elton Tavares
Vinte anos após aquele diálogo foi iniciada a construção de uma ponte estaiada na fronteira entre as duas nações, mas ainda se aguarda por histórias de comunhão e progresso, que não devem afogar fecundos relatos de travessias pelo mar da história. Ou como diria na canção "A ponte" de Zé Miguel e Jeresier: Mais c`est bien plus qu`um pont une autre vision..

3 comentários:

joão plaça, jr disse...

É, meu caro, travessias...

Geraldo Roger Normando Jr disse...

"Digo: o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia"
Guimarães Rosa, em: "Grande sertão:veredas".

Abel Sidney disse...

Estou ouvindo neste exato momento Bacabeiras, música instrumental deste menino criativo do Amapá, o Fineias Nelluty, tão bem retratado por você, Roger!

https://www.youtube.com/watch?v=CZsagXGAJ30

Além de paidégua (popular, dançante e envolvente) o cara atravessa e acontece em muitas praias.

Bom conhecer o Fineias! :)