segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Saudações, Nise! Sobre como lidar com seres humanos

No dia em que muitos brasileiros tinham a obrigação de depositar seu voto nas urnas do segundo turno das eleições municipais no país, a alagoana Nise da Silveira completou 17 anos de falecida. Minha memória provavelmente não me permitiria lembrar dessa data se eu não tivesse acabado de ler o livro sobre a “psiquiatra rebelde”, assinada por Luiz Carlos Mello, sugerido e emprestado a mim pelo meu irmão Murilo, um leitor voraz.

Há muitos anos eu já havia lido algumas poucas coisas sobre o trabalho de Nise, que inspirou recentemente um filme sobre sua vida. Bom e fiel a muito do que li sobre ela, por sinal. Mas nada comparado ao que o livro me proporcionou. Uma delícia de leitura! Contém muito de escritos dela mesma, tanto que dá pra esquecer que o livro é de Luiz Mello. Que escrita emocionante e límpida! Tão clara que nem parece conter a densidade de conhecimentos que apresenta.

Não bastasse a belezura, o conteúdo da obra “Nise da Silveira. Caminhos de uma psiquiatra rebelde” (2014, Automatica Edições Ltda) é extremamente instigante. Permite a discussão de diversos temas, além do que notoriamente está posto em questão, que é a metodologia de tratamento de esquizofrênicos numa época não tão remota e o esforço monumental da alagoana por desenvolver uma forma diferente de relação com internos em centros especializados da qual fez parte no Rio de Janeiro.

Parêntese Um: foi por se permitir ler obras então criminalizadas pela ditadura militar que imperava no Brasil que Nise chegou a ser presa e compartilhar cela com a escritora e jornalista paraense Eneida de Moraes. Ficou detida por um ano.

Nise era aprendiz e mestre ao mesmo tempo, e desbravou um nicho que ainda lhe exigia enfrentar o machismo. Não duvidou em estudar Medicina, mesmo sendo a única mulher da turma. Não duvidou em abrir mão de estatus privilegiado entre homens - que se vangloriavam em adotar as mais novas tecnologias oferecidas pelo mercado para esquizofrênicos, como a lobotomia – e cuidar do então chamado centro de terapia ocupacional criado para quem ela insistia em chamar de clientes. Ela não titubeou em enfrentar colegas de profissão por diversas vezes. Uma ousadia... uma coragem invejável!

Parêntese Dois: barrada de um primeiro congresso internacional pelos próprios colegas de casa, preparou-se para o próximo que seria realizado sete anos depois. Sete anos! É muita determinação. E ela foi e arrasou.

Quando viu nos estudos de Carl Jung uma possibilidade para aprofundar seu saber, foi continente adiante e foi muito bem recebida por cartas e pessoalmente. Quando via na articulação com artistas a chance de expandir suas propostas e melhorar a qualidade de vida de quem aceitou se inserir em seus ateliês, também superava cada barreira que colocavam em sua rota. Impossível não admirar essa mulher.

Nise talvez seja mais conhecida entre os ativistas da luta antimanicomial. Mas me parece muito pouco conhecida para tamanha contribuição que deu não só na terapia junto a quem era diagnosticado com esquizofrenia, mas para tamanha contribuição que deu, isso sim, para iluminar a forma de relação entre seres humanos, nossa maneira de lidar uns com os outros. Esse é um desafio e tanto.

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Argentina é chamada a parar em defesa das mulheres






Mulheres de toda a Argentina têm hoje um chamado contra a crescente onda de femicídios no país. A proposta é parar suas atividades laborais por uma hora, entre 13h e 14h, sob o lema #NiUnaMenos. Às 17h, vai haver uma marcha do tradicional Obelisco até a Praça de Maio, em Buenos Aires, e a ideia é que se vistam de negro, para demonstrar o luto especialmente pelo recente assassinato da jovem Lucía, em Mar del Plata.


A consigna já vem sendo utilizada há dois anos em protesto contra a violência desferida sobre as mulheres, em claros atos de uma cultura machista. As mobilizações vêm ganhando força de tempos em tempos, a cada garota desaparecida, assediada ou morta; a cada mulher aviltada em casa, no emprego, na escola, na rua ou nos transportes públicos.

Nos últimos dias, houve o 31o Encontro Nacional de Mulheres, na cidade de Rosario. Foi um momento de grande expressão, só tão massivo quanto há 10 anos, comentam muitos dos que estão engajados na luta por uma sociedade menos virulenta contra as mulheres, como o presidente da federação de jovens (Fede), do Partido Comunista argentino, Emiliano Vazquez. Atividade, aliás, que contou com a repressão da polícia, algo recorrente nos últimos meses. Ele conta que a temática de gênero tem ocupado lugar prioritário nas agendas políticas de organizações e partidos políticos, o que pressiona a sociedade a promover mudanças culturais.

Deixo, em espanhol, a chamada para o ato, que justifica bem o porquê de a mobilização implicar empregadores.

No Brasil, sabemos que a cruz das mulheres não é menos pesada. Por isso também é justo mais que sabermos do que ocorre no país vizinho, é justo nos darmos as mãos.

“El 19 de Octubre #NosotrasParamos contra la violencia femicida y contra la precarización de nuestras vidas

Paro de mujeres dijimos desde #NiUnaMenos con la rabia por el femicidio de Lucía en Mar del Plata. Y en el mismo día, el odio de una madre mata a su hija lesbiana, y al día siguiente, dos adolescentes son acuchilladas en La Boca. Con los cuerpos todavía movilizados por el Encuentro Nacional de Mujeres en Rosario y con la bronca de la represión que sufrimos latente, la idea empezó a salir de las redes para convertirse en una asamblea que alojó la sede de la Confederación de Trabajadores de la Economía Popular (CTEP) Fuimos cientos de mujeres organizadas -casi 50 organizaciones y sindicatos representados- y muchísimas más no encuadradas en ninguna agrupación pero con la misma voluntad de organizarse para decir otra vez: ¡Basta! Y juntas decidimos parar: las que tienen un empleo formal y las que no, las cooperativistas, las precarizadas, las que trabajan en tareas de cuidado y no reciben salario, las desocupadas, las estudiantes, las artesanas, las artistas, todas.
Esta vez, el cese de actividades será por una hora, entre las 13 y las 14. Y ahí donde estemos saldremos a la calle, a la puerta de nuestros lugares de trabajo rentados o no
para hacernos visibles.

Porque detrás del aumento y la saña de la violencia femicida también hay una trama económica, la falta de autonomía de las mujeres nos deja más desprotegidas a la hora de decir no y nos convierte en blancos móviles de las redes de trata o cuerpos “baratos” para el tráfico de drogas y la venta al menudeo.

Porque si el desempleo promedio en Argentina es del 9,3 por ciento, para las mujeres es del 10,5
Porque el 76% del trabajo doméstico no remunerado lo hacen las mujeres.
Porque las tareas de cuidado que asumimos nos exponen a mayor precarización laboral.
Porque en los trabajos precarizados la brecha salarial aumenta del 30 al 40 por ciento con respecto a los varones.
Porque el 20% de las mujeres que reciben salario a cambio de su trabajo se desempeñan en tareas domésticas -después seremos mayoritariamente maestras y enfermeras, todos trabajos fundamentales pero desjerarquizados.
Porque cuando tenemos hijos o hijas tenemos que cuidarlos nosotras y la tasa de actividad baja del 54 al 39%.
Porque las licencias por maternidad son cortas y prácticamente no hay guarderías en ningún lugar de trabajo, ni estatal, ni privado.

Por todo esto, el 19/10  #NosotrasParamos, para decir otra vez #NIUnaMenos y que #VivasNosQueremos”

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Entre souvenirs e fés

          Ormindo, um profissional liberal de 50 anos de idade, treinava com afinco e paciência, durante os raiares do sol, para entender sua fisiologia do esforço, pois se desafiava a fazer em 50 minutos o trajeto de 10km da corrida do Círio de Nazaré. Preso a números, seria Ormindo Pimenta 50/50, candidato a: homem inteiro para a vida.
O esforço exigido para treinamento de corrida sobrecarrega a musculatura e as articulações dos membros inferiores. O impacto repetitivo de cada passada transmite ao torso forças estimadas em duas a três vezes o peso corpóreo. A tendência é que, a partir de determinada passada o indivíduo comece a sentir dor e certo grau de irritação. Ormindo precisava entender tais fundamentos para seguir treinando para a corrida do círio, que ocorre uma semana após a procissão de Nazaré, segundo domingo de outubro, em Belém-PA. As últimas versões do evento têm exigido dos corredores de rua cada vez mais empenho e perfomance, por isso Ormindo se dedicava com afinco.
Num dos treinamentos resolveu acompanhar, no seu ritmo, o cortejo do círio fluvial, que se dirigia, por terra, ao distrito de Icoaracy. A quilométrica fila de carros atrás da berlinda estava mais para engarrafamento à paulista que procissão de fé. Eram roncos dos motores e buzinas os cânticos de louvores. Uns querendo passar pelo outro, enovelando o trânsito; outro por cima de calçadas e acostamentos por onde Ormindo treinava; gritos e xingamentos não faltavam apesar da sacralidade do evento. E, apesar do caos, Ormindo seguiu determinado.
Certa altura, o cortejo da virgem e Ormindo parearam. Ele se deslumbrou com aquela imagem e se sentiu vestido por aquele manto e protegido de todos os males. Aproveitou e, com braço direito hasteado após o sinal da cruz, agradeceu a morada que conseguira levantar no último ano.
Ormindo calçava tênis, camisa dry fit e calção brancos. Foi ficando para trás junto com os carros e toda aquela procissão, até perceber que estava incomodando. Buzinas e reverências ao xingamento faziam parte dos bordões de quem estava atrapalhando trânsito e, consequentemente, a procissão. Carros tiravam fino, e teve um que fusca quase o atropela. Eram mais de cento e meio, sofreúdos. 
Cirandou uma idéia ao ver a frente um vendedor de fitas e colares referentes ao círio de Nazaré. Foi lá, gastou dez dinheiros e se fartou de adornos. Depois seguiu correndo os quilômetros que faltavam. Já enfeitado de romeiro, começou a perceber que os retardatários começaram a lhe oferecer água, prece, e diversos apoios, inclusive vozeavam: “vamos lá, você vai conseguir pagar sua promessa”. Carros desviavam para dar passagem àquele promesseiro.  As fitinhas se converteram em passaporte, abre alas, salvo-conduto, marcas indeléveis de fé, respeito e compaixão. Ele se perguntava: precisava? No fundo, mesmo envolto em tantos sentimentos, estava a matéria - souvenirs.
Percebia-se ali a força metafísica homo, um sinal de alerta a quem ousa desafiar a corda que atraca a fé ao pé do homem. Ao finalizar o trajeto, percebera que estava na corda bamba entre a crença e a descrença, sem conseguir apalpar a fé concreta desse povo que se desfaz em chamego diante da imagética mariana. Comoveu-se a ponto de rasgar o coração - frágeis cordoalhas-, como um bibelô no cume da prateleira. Por fim, pediu à Senhora que lhe desse sabedoria pra entender a variedade de crenças que conduz a humanidade.