sexta-feira, 30 de março de 2007

Sobel


(Culto ecumênico pela memória de Herzog na Catedral da Sé, SP, 1975.
Acervo Sindicato dos Jornalistas do Estado de São Paulo)

Estou chocado com o episódio envolvendo o Rabino Sobel nos EUA, acusado de furtar quatro gravatas numa loja de luxo em Palm Beach, EUA.
Sobel, 63 anos, naturalizado norte-americano e português de nascimento, é um homem de extrema coragem e de uma honestidade religiosa impressionante, respeitado entre os judeus e os não judeus, no Brasil e no exterior. É homem habituado a dialogar com poderosos e a frequentar ambientes de luxo e riqueza, a opor e sofrer oposições inclusive no comunidade judaica.
È, certamente, não pelo furto de gravatas que se deve dimensionar esse homem.
Na época da ditadura, Sobel soube se posicionar contra ela, protestando firmemente contra seus desmandos, revelado ao público especialmente no episódio do assassinato do jornalista Vladimir Herzog no governo Geisel.
Na ocasião, a comunidade judaica paulista, amedrontada, pretendia aceitar a versão do governo e enterrar o jornalista como suicida, apartado do solo sagrado destinado a receber os restos mortais de judeus não suicidas. Uma humilhação para o morto e para a família, portanto.
Sobel impediu essa injustiça e denunciou o escândalo daquela farsa. Sua determinação contribuiu decisivamente para que Herzog fosse enterrado como justo, vítima de um assassinato covarde perpetrado por agentes do Estado, nas dependências de uma repartição pública brasileira, na condição de preso detido por suspeita de atividades subversivas.
Apesar do discurso pró-abertura, ficava provada a violência institucional do regime de exceção, com o uso de torturas contra presos políticos (denúncia antes só ousada por Zuzu Angel, assassinada), e a posição delicada do governo Geisel, desafiado pela chamada linha dura, que conspirava inclusive para derruba-lo com um movimento típico de golpe dentro do golpe para piorar ainda mais o arbítrio (A Ditadura Encurralada, Hélio Gaspari).
Outra luta levada pelo Rabino foi a aproximação entre as religiões, especialmente entre católicos e judeus. Foi um interlocutor importante do Papa João Paulo II, participando ativamente da articulação que levou o Vaticano a reconhecer oficialmente o estado de Israel e a se desculpar pelos atos da Santa Inquisição. Nessa linha são também suas intervenções pelo direito dos palestinos a um Estado soberano.
Essa é a dimensão de Sobel. A adversidade ora vivida por ele representa também o momento de usar de magnanimidade e melhor refletirmos sobre as armadilhas que a vida reserva aos homens.
Segundo, informações mais recentes, o Rabino estaria sofrendo de senilidade (Alzheimer?) e a prática de pequenos furtos seria apenas um dos sintomas que vem apresentando. Só isso, diz uma fonte da comunidade judaica paulista, explica que alguém com salário mensal de U$25,000, sem histórico de cleptomania, seja acusado do furtar objetos no valor de U$680.

8 comentários:

Francisco disse...

Dois reparos, apenas. Sobel nasceu em Portugal e é naturalizado americano.O jornalista torturado e morto chamava-se Vladimir Herzog, conhecido como Vlado.
No mais, seu comentário é irretocável.

oliver disse...

Obrigado, Francisco, pelo comentário. Já fiz os reparos. O sono me atrapalhou e esqueci onde o Rabino nasceu e terminei trocando o nome de Vladimir Herzog pelo do cineasta alemão, Werner Herzog.

Anônimo disse...

Vamos deixar claro: não é nenhum Lalau.

Anônimo disse...

A verdade que a mídia foi respeitosa com Sobel, honrando sua história. Houve apenas duas charges idiotas publicadas. Uma delas no Diário do Pará, que, obviamente, não importa.

francisco rocha junior disse...

Oliver, não teve como não lembrar de ti, depois do comentário do bosta (perdoe-me o termo) do Cláudio Humberto, na sua coluna de hoje. Mas, também, desse biltre, nada é de estranhar. Só que ele deveria ter um pouco de vergonha na cara.

oliver disse...

De fato, você tem razão. E aqui obriga considerarmos o que vem ocorrendo com o exercício da crítica em suas diferentes expressões, nesse país.
Penso que um texto jornalístico, uma crônica, uma charge possui uma função político-pedagógica.
O problema é que alguns que exercem ofícios de comunicação, por deficiência de formação, de caráter, por preconceito, ideologia, oportunismo ou pecúnia, fazem do que produzem um açouge de reputações, para uma turba que consome qualquer coisa que se lhes atire. È deste perigo fascista que falamos.

citadinokane disse...

Oliver,
Reforço o que foi exposto acima, Sobel tem crédito, muito crédito... Quem enfrentou a ditadura, não deve ser lembrado por esse fato estranho para todos - o furto das gravatas, né?!
Abraços,
Pedro

Anônimo disse...

Oliver,

Concordo com o Pedro.

Abraços

Mari