terça-feira, 11 de setembro de 2007

Carta ao trigo novo

Trigo novo, sou eu teu amado,
prazer em viver, só se a teu lado.
Considera a volta ao teu amigo.
Afasta o ingrato do caminho.
Feliz quem comeu do teu amigo:
está contigo e sabe o teu agrado.
Minha casa conta como tua.
Aqui, ao meu lado, é minha e tua.
Faz dias te aguardo - é sol, é lua...
Vem, se tardas mais, Deus cobra o tardo.
Dias bons... enfolhas todo o chão,
e cresces no alto mais que Adão,
na ponta espiga, palha e grãos.
- Lindo o porte que ergues sobre o talo!
Se me vens por este meu recado,
vem na mula, como os bens, montado:
te recebo igual e de bom grado
e a ninguém te dou, nem emprestado.
Por um tempo eu clamo: por teu tempo.
Me aponta o lugar do teu contento.
Que o tio alfaqui não chegue a tempo:
Só descanso, trigo, se te trago.
Ibn Quzman de Córdova (séc. XII) In:
A poesia árabe-andaluza. Michel Sleiman.
Objetiva-FAPESP, 2000

Um comentário:

crisblog disse...

Que lindo. Já tenho várias no arquivo de Silves(acho que é assim).

Boa escolha. Ficou diferente o blog.

O CJK me explicou que "batriça" quer dizer "patrício". A explicação está em um de seus arquivos.

Beijos.