domingo, 11 de setembro de 2016

Perdidos em Abbey Road

He wear no shoeshine...
“Come Together”, do disco: Abbey Road

Já passam das dez da manhã e o frio londrino de final de outono dá trégua. Partimos do sul de Greenwich, pela estação Blackheat, para então pegarmos o metrô no sentido leste e conhecer Abbey Road, a famosa travessia pela faixa de pedestres que ficou consagrada pelos Beatles, em 1969, na capa do Disco “Abbey Road”.
Acontece que, quando chegamos à estação só havia o silêncio do nada – estávamos perdidos em Abbey Road. Com algum custo identificamos uma placa pequena com dizeres: Get back, mas compre seu Ticket to ride até a estação St. John’ Woods, pela via Jubilee. Havíamos confundido a estação com o estúdio. Rimos da gafe e tivemos que suportar o humor londrino e engrossar os arquivos de viajante errante.
Meia volta volver quando, enfim, desembarcamos no sítio certo. Uma chuva fina avisa que um músico toca, indiferente ao alheamento, sua flauta à porta do metrô - por coincidência, Ticket to Ride. Ri pra dentro. Ao lado, um grupo de menininhos loirinhos vestidos de duques acabava de sair da escola e ululavam enquanto o chuvisco crispava. Ouvíamos o flautista, com longas tranças de cabelo afro, até a chuva ceder e retomarmos a caminhada até aportar, de vez, no destino certo. Abbey Road estava na próxima curva à direita, esperando-nos há quase 50 anos.
Por vários minutos, sentado no muro baixo e apreciando aquele movimento, em ponteiro de relógio tipo Big Ben, eu via naquela travessia os carros respeitarem a vez dos fãs-transeuntes. Entre tantos, esseunzinho, pensando naquela imagem "bitouniana" tão urbana.
Guimarães Rosa, em "A terceira margem do rio", relata que “o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia. Apesar da trepidação da partida e do freio estanque da chegada, é na travessia que nos fazemos gente para superar obstáculos não só pra memória em nossos slots cerebrais, mas pra sentir emoção, tormenta ou mesmo o labirinto da caminhada.
Calculei essa travessia como um simples topógrafo, ou seja, de algum ponto equidistante entre a partida e a chegada, desde que coubesse na minha geometria analítica que aprendi na cozinha de minha formação básica.
Talvez Abbey Road, na outra banda da terra, represente a travessia mais popular da historia da humanidade, se olharmos os pés descalços de Paul na capa do álbum. Não que Ringo, John e George estejam soberbos com seus pisantes, ou representem o dilúvio de nossos inconsistentes desperdícios, mas pés descalços sobre asfalto representam desassossego, desenxabimento, eterna inquietude de nossa jornada e dos que se arvoram a costurar desafios com as mãos da tecnologia ou com as próprias mãos - e pés -, deixando-se ser embrulhado pelas malhas abertas do desafio.
A jornada desse roteiro londrino, a cada passo serve para rever, feito os caminhos que os levaram de Liverpool, ou do Cavern Club, que existe em cada ermitão que nos domina e nos arrasta pelas frestas do espaço viscoso do subsolo da alma.
Mas o que vale mesmo, de permeio, são as ilusões escondidas em Strawberry Fields, que funcionam como combustível para a travessia, o mesmo que nos leva a Penny Lane e nos deixará descansando ao lado de Eleanor Rigby, feito o que não fomos e que ficou nos sonhos alados.

9 comentários:

joão plaça, jr disse...

Linda descrição de um momento único e universal de sentimentos embotados/expostos de maneira urgente, real, apressada, onírica.
Parabéns por devolver a paz em momentos tão angustiantes pra quem ainda sonha com o "sleeping bag" metafórico do "real dream"

Valéria Normando disse...

"Tudo que é bom dura o tempo necessário para ser inesquecível" - Fernando Pessoa.

Geraldo Roger Normando Jr disse...

Então, Plaça, continue sonhando, porque "sonhos não envelhecem". O meu durou quase 50 anos. Isso é pouco para quem sonhou a vida inteira. Prossiga...

Geraldo Roger Normando Jr disse...

Receber Fernando é receber o pão do cotidiano para se comer com geleia de morango, feito menino, até se lambuzar. Aliás a vida foi feita para se lambuzar até o necessário, o extraordinário é demais. Volte sempre Fernando, volte...

Clarice Ferreira disse...

Uma jornada londrina que nos leva a lugares e épocas que só a destreza com as palavras que este raro escritor possue. Não fosse um dos melhores bisturis do Brasil, certamente ganharia seu pão com geleia de morango fácil com a emoção que marca suas letras.

Geraldo Roger Normando Jr disse...

Clarice, seu comentário me emociona, ao ponto de ter vontade de sair correndo pelo mundo e continuar ouvindo seu ritual. De Clarice - a Lispector - vem uma frase sensacional que sempre que leio me emociona: "Viver é mágico... e inteiramente inexplicável". Assim, com duas Clarice, saio levitando feito pena leve que se desatarracha de sua membranana pilosa e vem fazer a gente sorrir feito criança de pele macia.

Ana Rosa Bosi disse...

Alegria e emoção em seu texto! Que na sua travessia em sua vida, tenham poucos obstáculos! Mas que cada um deles seja ultrapassado de forma simples e fácil, como consegues juntar letras e palavras para formar maravilhas para nos encantar

Ana Rosa Bosi disse...

Vejo alegria e emoção em suas linhas, meu amigo!!!!
Que nas travessias de sua vida, supere os obstáculos, de forma simples e fácil, como consegue juntar sabiamente, letras e palavras para assim, nascer textos maravilhosos para encantar nossos dias

Clarice Ferreira disse...

Um poeta, eterno menino na capacidade de ver a vida com as cores da alma .... Nos surpreenda sempre Roger, com seus incríveis textos irretocáveis.