terça-feira, 24 de agosto de 2010

As Balelas do Dr. Dráuzio

Na farmacologia e na política, o equilíbrio é o segredo entre o veneno e o remédio.
(Máxima de Jorge Furtado no blogue Casa de Cinema de Porto Alegre)
Nunca explore a profundidade de um rio, usando ambos os pés
(Sabedoria do povo Ashanti - Gana - África)
Sou um clínico halopata, mas nem por isso saio por aí desmoralizando a quem pratica ou utiliza a homeopatia, ou a acupuntura, embora tenha conhecimento de inúmeros trabalhos científicos que contradizem a efetividade dessas terapêuticas amplamente popularizadas no mundo. Contudo, do mesmo modo, reconheço que tanto faltam evidências científicas com respeito ao uso de fitoterápicos quanto elas não existirem com respeito ao uso de corticosteróides modificar a mortalidade de pacientes vítimas de trauma craniano. No entanto os corticosteróides continuam prescritos para essa condição nos pronto-socorros e unidades de terapia intensiva pelo Brasil afora, não porque nossos clínicos e intensivistas sejam desatualizados em termos terapêuticos, mas simplesmente por nós médicos sabermos que em medicina baseada em evidências é verdadeira a máxima de que a falta momentânea de evidência não significa de que há ausência de evidência, salvaguardada a segurança. Por sua vez, no tocante a questões de evidência, nem a Anvisa, nem o Ministério da Saúde teem se conduzido de forma escandalosa como aponta em véspera de eleição o Dr. Antonio Dráuzio Varella, clínico de incansável fôlego para bater pernas pela Amazônia afora, no intuito de formar um riquíssimo acervo farmacológico na Universidade Paulista (Unip), diz que para a produção de novos fármacos.
Em que pese a pose bem estudada, acessando o Currículo Lattes (CNPq), lemos que o pesquisador Dráuzio Varella com 14 anos de atividade dedicadas a pesquisa acadêmica resume hoje uma produção bibliográfica de parcos 7 trabalhos, dos quais quase 90 % publicados em periódicos destituídos de impacto científico digno de nota, com indicação nenhuma de que tais trabalhos tenham sido citados na produção bibliográfica de seus pares. Para quem não sabe a Unip é propriedade do ex-acadêmico de medicina José Carlos Di Genio, notório empresário que associado com Varella e outros dois colegas fundaram um cursinho de vestibular ( o 9 de julho), pedra basilar daquela empresa de ensino superior, no tempo em que havia a famigerada Operação Bandeirantes (Oban) e o Comando de Caça aos Comunistas barbarizava os estudantes da Faculdade de Filosofia da USP e, chegada a vez, poria a Marília Pera para correr nua pela rua, depois que empastelaram a peça Roda Viva de Chico Buarque.
Mas, ao contrário do que afirma ou sugere o comunicador Dráuzio Varella, os fitoterápicos não estão ao deus dará no Brasil. Eles são objeto de uma Política Nacional em curso, que antes de ser aprovada esteve em consulta pública e que jamais representa ou representará uma medicina pobre para pobres, como forma de ocupar uma alegado vazio de remédios não ofertados pelo governo. Como é de conhecimento público, além da farmácia básica e dos chamados medicamentos de alto custo, o governo Lula ampliou o acesso com as chamadas farmácias populares, onde a população pode adquirir mais de 100 diferentes tipos de medicamentos a preços de que podem deduzir-se 90% de desconto.
Ao contrário do que afirma o profícuo Varella, o Ministério da Saúde, o Ministério de Ciência e Tecnologia e as Fundações Estaduais de Amparo a Pesquisa teem empenhado recursos para pesquisa de fitoterápicos, por reconhecerem que se trata de área estratégica para o desenvolvimento de novos medicamentos, apesar de, excetuando os cosméticos, não suficientemente atrativa para a indústria autóctone. Não bastasse isso, que reflete recomendações da última Conferência Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação em Saúde, o Banco Nacional de Desenvolvimento (Bndes) tem dialogado com o setor farmacêutico nacional no sentido de induzir uma ação estruturante para a área. Até hoje foram investidos cerca de 2 milhões de reais em pesquisas, muito dinheiro se considerarmos que até 2002 nada existia em termos de política e fomento setorial, mas que requer, após pontapé inicial, ampliação frente ao montante de recursos necessários para isolar uma molécula natural e a partir dela construir uma sintética, sem contar as despesas pesadíssimas referentes ao depósito de patente internacional. Nesse caso planejamento estratégico e road mapping sem dúvida ajudariam a vencer um prazo habitual de no mínimo dez anos para desenvolver um medicamento nos moldes aqui avaliados.
Se o nosso desbravador midiático dos segredos das ervas medicinais da Amazônia tirasse a trave do olho veria, por exemplo, que seus "colegas" pesquisadores organizaram desde 2008 a Rede Fito sob coordenação do Instituto de Tecnologia em Fármacos (Farmanguinhos - Fundação Instituto Oswaldo Cruz), que reune cientistas e representantes da cadeia produtiva de fitoterápicos, como pequenos agricultores e empresários, integrando seis biomas brasileiros: Amazônia, Mata Atlântica, Caatinga, Cerrado, Pampa e Pantanal com o objetivo de fazer a difícil ponte entre pesquisa, desenvolvimento e inovação. Enfim é lastimável que alguém ponha a única reputação profissional de peso público que o destacou, a de divulgador de assuntos médicos-científicos, a perder nas águas turvas da bacia eleitoreira de quem ele sempre reputou como o melhor ministro da saúde que o Brasil já teve. Quanto ao argumento de que encontrara um engenheiro clinicando nas dependências da Embrapa, que em si nada tem a ver com política pública, o Dr. Dráuzio Varella abriu mão do seu dever de chamar a polícia diante do flagrante de charlatanismo. Preferiu abusar do fato para assombrar nas noites de domingo, sempre infestadas de seres fáusticos e fantásticos, de quem nossos caruanas na sua inocência querem distância.

5 comentários:

Scylla Lage Neto disse...

Itajaí, adorei o seu post.
Há tempos venho batendo na tecla de que o Dr. Varella presta um serviço negativo à divulgação de assuntos de saúde, via Rede Globo.
Sempre tendencioso, nada científico e pouco humilde, o seu posicionamento influencia milhões de pessoas Brasil afora.
O que é divulgado no programa Fantástico e/ou publicado na revista Veja (assim como outros semanários "compráveis" por qualquer indústria farmacêutica ou de materiais medico-hospitalares) vira lei na semana seguinte e a repercussão no próprio consultório é imediata.
Assim o país permanece desinformado e fica cada vez mais difícil desatolarmos desse lamaçal.
Um abraço.

Itajaí de Albuquerque disse...

Ainda bem, Scylla. Eu pensei que estava só. Valeu.

Luiz Braga disse...

Enfim alguém para desmascarar o Doutor Sabe Tudo!!! Como médico, é um ótimo maqueteiro de si mesmo. Suas passagens pela Amazônia nada trouxeram de bom para os pobres coitados focalizados em suas reportagens. O código de ética médica certamente desacomselha as atitudes de auto-promoção do Doutor Dráuzio, mas quem liga para ética nesse Brasil de oportunistas? Enquanto isso, os verdadeiros heróis seguem seu trabalho nos distantes rincôes da Amazônia, sem a cobertura espetaculosa do popstar.
Que diria Gaspar Viana de um coleguinha assim...

Itajaí de Albuquerque disse...

Você toca numa questão sensível, Luiz. A Amazônia já conheceu homens de grande valor em ciência, que em suas pesquisas sempre buscavam contribuir para a melhoria da terrível realidade social que até hoje vivemos. Nunca, entretanto, com o objetivo de almejar fama e espetáculo!
São nomes que hoje alguns estão quase esquecidos pela mídia cega de imediatismo e superficialidade. Dentre outros que me escapam de lembrar: Gaspar Vianna e Jayme Aben-Athar (dito o sábio de Gurupá), ambos alunos de Oswaldo Cruz; Emílio Goeldi, que assessorou de forma decisiva o Barão do Rio Branco na questão do Amapá com a França;os médicos indigenistas do Serviço de Proteção Índio (hoje Funai); os médicos da Sesp (depois FSESP, antes de ser destroçado pelo alucinado do Collor). Não se pode deixar de citar o Camilo Vianna, pioneiro na formação de uma consciência ecológica na região, que ele buscava incluir na formação de seus alunos na Enf. S. Francisco da Santa Casa; ou aquele jovem cientista paraense, que agora me foge o nome, prematuramente falecido, que com a sua energia e conhecimento criou uma das mais belas experiências em que saberes científicos e tradicionais (contra os quais o nosso "sábio global"se insurge), está em plena atividade, que é a Estação de Mamirauá; e também o precioso grupo de cientistas que atuam com absoluta discrição no Instituto Evandro Chagas, em Belém, que conduzem não poucas vezes pesquisas valorizadíssimas na comunidade científica internacional.
Enfim, o que não nos falta é trabalho de gente séria para dar exemplo de pesquisa na Amazônia.

Ivo Cardoso disse...

Há algum tempo fiquei estarrecido ouvindo o Dr. Dráuzio condenar os chás - ele não fez qualquer distinção! - sem consulta médica. Na ocasião escrevi que ele deveria pregar esta incrível verdade na Inglaterra, na Índia, na China, países, como tantos outros, onde o chá é ritual diário. Mas o homenzinho, dublê de repórter da Globo (que nem sempre prima pela qualidade ou isenção do que afirma), estava à vontade para pregar suas baboseiras como verdades indiscutíveis.