segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Entre o Bar do Parque e o Central Park



O parque central de Nova Iorque só me levava ao festival de Woodstock e ao edifício Dakota. O Bar do Parque, não. Este, apesar do bar não ter parque, mas uma praça-quase-parque, leva-me ao bafafá e ao Ruy Barata, poeta de “Antilogia” que escreveu uma das mais belas peças sobre o tempo, em Pauapixuna: “O tempo tem tempo de tempo ser; o tempo tem tempo de tempo dar, ao tempo da noite que vai correr, ao tempo do dia que vai chegar.”
Vi-o algumas vezes por lá com suas pernas enoveladas, conspirando seus segredos com a fumaça de de seus cigarros. Essa é uma das lembranças do nosso Paranatinga, que dava impressão de estar apenas se deliciando de seus poemas e composições musicais ao lado de um copo de uísque com gelo entre baforadas.
As leiras e esteiras do Central Park, não. Este eu não tinha ideia de sua grandeza iconográfica, até caminhar por seus trilhos acarpetados por folhas mortas que despencavam a todo momento, denunciando a virada da estação e a nossa presença. Feito um flaneur agarrando-se ao frio pisamos sobre aquele silêncio apreciando a biografia do lugar e seus museus ao redor. Entre uma página e outra desta biografia, um esquilo cruzava nossa trilha.
Nossa? Sim, nosso caminho: meu e de minha namorada, afinal era comemoração de 25 anos de casamento e a viagem valeria uma ação de graças de tal peso. Já era tempo de tempo ser, diria Ruy, por isso dei a mão ao meu amor e sai a pé no rumo do destino, pisando em folhas caídas e cruzando com esquilos naquele jardim urbano de tantas produções cinematográficas e literárias.
Lá fora, New York fervia. A quinta avenida pegava fogo com a trump-revolution, que sacodia o mundo (e ainda sacode) a ponto de trepidar a ponte do Brooklin e recolher os bagos do touro de Wall Street. Eu preferi ficar entre selfies, juras de amor eterno e os últimos raios de sol daquele outono novaiorquino, cujas cores se empaletavam num amarelo vangoghiano, pintando algo impressionantemente belo para o eterno sabor da vida a dois.
Levamos tempo para completar esse caminho e esse destino - sina de gente marcada para a eternidade. A medida que parávamos para novos cliques, em torno do lago central, reconstruíamos aquele sino que "blem-blem-blou" na hora do “sim”, quando éramos apenas dois jovens em busca do futuro perdido em cada sonho dormido com travesseiro feito da própria mochila, descascada de desafios e das estepes por onde tudo começou, sob a assinatura do Cristo Redentor.
Na caminhada pelo parque, reservamos uns passos para conversar sobre a prole que engole parte de nosso temperado sentimento, mas que aduba nossa jornada para uma finitude plangente, que ali parecia não findar - não fossem as rugas.
Passava por nós gente correndo, gente andando. Todos ditavam, ao seu jeito, o final daquela tarde. O nosso ritmo parecia diferente, pois acompanhava o de Agnes Martin (1912- 2014), em exposição no Guggenheim, logo ao lado. Ela transmitia uma espécie de pacto com silêncio das artes. Sim, sim, tudo a ver com quem gostaria de ficar em silêncio ouvindo o passado construído e reconstruído entre vários senões, para refletir sobre a riqueza imaterial adquirida ao longo da jornada, prateada de chamego.
Uma observação: não visitamos o edifício Dakota, em acordo tácito. Entendemos que aquela bala que abalou o mundo embotaria nossas bodas. Preferimos sair cantarolando All you need is love, love... love is all you need.. 

6 comentários:

Abel Sidney disse...

A literatura é feita de pactos. Acordos e promessas. Ler ou fazer isso e aquilo. Conhecer mais este ou aquele autor. Aprofundar-me neste ou noutro gênero.

No caso presente, o enredo e os personagens (ao par da paisagem) atraíram-me para o pacto. Ou mais precisamente: o tema - o transcorrer dos 25 anos de casado de Roger e Valéria num parque de memórias e esquilos, numa das mais emblemáticas cidades do mundo...

Isso inspira, exige imitação, pede viagem, solicita ritual semelhante. Força-me a ter, mais tarde, um que retrate, nalgum lugar do mundo, o balanço geral de 1/4 de século de convivência entre eu e Izabel...

Caro Roger, como você saiu na frente e já fez história, agora devo seguir na sua trilha.

Abraço,
Abel

PS.: nossas peripécias literárias, tecidas lentamente, em boas conversas, no Rio de Janeiro, há de dar bons frutos e hão de merecer, ao menos, um breve relato nas páginas do livro que engendras.

Francisco Santiago disse...

Show

Erika Morhy disse...

Ah, Roger, que bonita declaração de amor. É, sim. À Valéria, à vida. E acho o maior barato poder transformar em crônicas um pouco destes sentimentos que nos atravessam.

Felicidades a você, a vocês.

Raimundo Rocha neto disse...

Parabéns Roger e Léla! Conheço essa história desde o começo , e sou testemunha, que a Valéria, sempre Vale e sempre Valerá a companhia! Amamos vocês , os meninos, nossas lembranças..............Seria bom comemorar aí , embaixo de uma árvore, com uma Breja , mais ou menos gelada, e um Matrinxã, numa brasinha!!!! Sem se importar, evidentemente, em levar uma "Trumpetada".

Valéria Normando disse...

Viver intensamente estes momentos, declarados pelo sábio que trata com sutileza cada detalhe, nada mais é do que magnificente. O trato a dois não pode ser tão privado diante dos que amam. Rogo pela saúde, para que possamos juntos caminhar mais e mais... Amo-te hoje ... com o desejo fiel pelo amanhã.

Geraldo Roger Normando Jr disse...

Erica, como certa vez afirmou Danilo, um dos filhos, "tenho essa doença: crônica".