segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Alepo: misericórdia

De repente Sabá de abadia me vem com essa flecha de jambu, a mirar o marco zero da comunicação e fazer tremer a língua: “O domínio paulatino da linguagem colocou ordem no verdadeiro caos que eram as sinapses cerebrais dos primeiros hominídeos. A linguagem colocava ordem no pensamento. Pensamento domado inicia-se a jornada da auto-expressão humana. Das pinturas rupestres para a escrita de "No início era o verbo..." transcorreram milhares e milhares de anos. Uma lenta construção, como se vê. Hoje, estamos a nos esculpir por meios tantos, mas a palavra, oral ou escrita, segue nos fazendo, nos guiando, nos desvelando. Evocando a figura emblemática do profeta das gentilezas, que palavra melhor nos define? Ou ainda: nos desafia, inquieta, atordoa, ecoa, surpreende?" Mais adiante, Dora Schinitman retrata que a função primária da linguagem é a construção de mundos humanos. Labareda traduziu: “A linguagem emana construção de manos mais humanos", com palavras deliciosamente surrupiada de Joãozinho Gomes em “Ao mano humano”, parceria com Zé Miguel.
Mas, se existe uma linguagem que desafia a ferro e fogo o humanismo de Schinitman é a da guerra, sem misericórdia, que deixa Alepo em carne viva e com os nervos expostos. A libertação de Alepo veio - se é que veio – no galope de tanques de guerra, sob suspiros de uma primavera árabe, em meio a coices de metralhadoras a cuspir sangue arterial pelas esquinas e se misturar às poeiras de seus escombros até se fazer sarapatel, e escorrer pelas valas abertas da Síria.
Alepo, foi (ou ainda é) o campo de concentração que não vivi, e só li nas apostilas da segunda guerra. Não falo aqui, do leste da cidade, do norte do país, da rosa dos ventos oestes. Falo, sim, da geografia humana sul-real a deixar Dali estupefato e fazer tremer o bigode.
A dor escarrada nas lentes televisivas e no rosto das crianças mudas mudam minha verve suburbana. Parto aos espasmos para tentar me envolver num pensamento mais universal do holocausto, ao ouvir o estouro do canhão apontando para o céu na tentativa de balear deuses. Quando não se vingam, as bala perdidas voltam e acertam a fossa posterior dos cérebros inocentes ou o peito de uma criança. Assim se faz a linguagem, oral ou escrita, dessa guerra.
Alepo é o mais rugoso destroço desse miserável conflito, a preço de uma celestialidade questionável. O tema é tão frio que me causa dor na espinha e colapso em meus alvéolos pulmonares. Falta ar. Falta tripa. Falta entender. Só me sobram tetanias na alma e o coração a fibrilar. Há dor em Alepo, como há em qualquer guerra onde se vê crianças e inocentes a cristalizar o cerebelo na ideia de divagar a esmo, em marcha ebriosa que faz o Oriente caminhar entre fronteiras. As lágrimas das mães escorrem no rosto sujo dos escombros, deixando a impressão de que um rio de dor passa por ali, e são insuficientes para lavar a alma desses espartanos.
Os valores do fundamentalismo e o caráter barulhento dessa ideologia lembram folhas de zinco entregue às chuvaradas de inverno caindo no teto de de minha casa de infância de calmaria - perturbam minha verve.
Dá até para limpar as lágrimas, mas regressar à normalidade da segunda-feira é bem mais difícil, pois somos sentimentos disfarçados e imiscuídos em palavras algemadas àquele aldeão, conforme retrata Corisco: "A paz é um tropeço, um acidente, um soluço da guerra [...] Apenas um hiato entre o sonho e o fato".

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