domingo, 9 de dezembro de 2012

A “espetacularização” da violência







“Gostaria de passar um dia 
sem precisar abrir meu computador 
e ser inundado por imagens trágicas e banais.”
Lee Singel, Jornalista 


Numa certa manhã de domingo, relendo os escritos semanais de Elias Pinto, chamou-me atenção o tema da violência (em: “Matadouro a céu aberto”). As metonímias e as metáforas engendradas nos textos desse escritor paraense transfiguram-se em imagens tal como se estivéssemos diante da tela de cinema a roer as unhas, ou a ler um livro de Susan Sontag. Por se tratar de minha lide, ou mais ainda, do enredo de minhas confissões científicas no itinerário de médico e professor, a violência escorrida dos jornais – bestializada, diga-se – deixa escorrer um aspecto particular da dor. Faz lembrar a cabeça de João Batista colocada numa bandeja de inox, tal como em “Salomé”. Daí a necessidade do comentário pulverizado de sentimentalismo e escassez de riso.
 Refiro-me aos Cadernos de Polícia, em que o trágico se veste de banal. Só não me derrota pelo fato de conviver com a sangreira diária no trabalho de cirurgião de emergência. Mas às vezes, confesso: a naturalidade com que os jornalistas se atiram à retratação deste mal belisca o lado esquerdo da minha alma. Só descubro que não sou insano por que a serotonina (aquele hormônio do prazer), em mim, é imediatamente substituída pela adrenalina (o do espanto). Percebo que ainda não tenho a anodinia digna dos fotojornalistas (e olha que sou cirurgião!).
O sangue das notícias lembra-me Sontag em seu “Diante da dor dos outros”, cuja capa traz um Goya evocando a exterminação e êxtase. Faz uma citação, assaz surreal, mas não tão distante do real imagético expresso nos jornais de hoje, quando fitamos, ainda bocejando dentro de pijamas, as fotografias dos encartes policiais: “Nas expectativas modernas e no sentimento ético moderno”, grifa Sontag, “cabe uma posição central à convicção de que a guerra é uma aberração, ainda que inevitável. De que a paz é a norma, ainda que inatingível. Não foi assim, é claro, que a guerra foi vista ao longo da história. A guerra foi norma, e a paz, exceção”.
Portanto, a assertiva se molda cada vez mais no meu cotidiano de emergencista traduzida pela carnificina do trânsito e dos tiroteios de Belém. No outro lado das trincheiras desta guerra civil, uma visão opaca está no meu olho esquerdo de cidadão, mas bastante translúcida no olho direto de cirurgião: fazemos guerra e espetacularizamos a estupidez humana, pois criamos deleites com filminhos em celulares, torcemos pelos piores desfechos das telenovelas, fincamos cruzes em beiras de estradas e amontoamos caixões nos cortejos fúnebres. É também assim que nos deparamos com o fotojornalismo de todo dia: cadáveres empilhados e lágrimas inundando calçadas de cemitérios no feriado de finados. Para a somatória resta o comentário pontiagudo de Sontag, de Elias e da vida dos “cirurgiões de trincheira”, que atravessam noites pinçando sangramentos.
Percebemos que os números da desgraça só não são maiores que as tiragens dos jornais, que passaram a vender sangue das vítimas a preços camaradas só para aumentar o lucro empresarial. Pior!!! Se juntarmos o mês dá quase mil mortes entre os três hospitais de referência da cidade, sem falar nos hospitais privados. Isso é número para tirar qualquer jornal do buraco, pois é um espetáculo que se vende fácil.
A coluna do Elias além de apropriadíssima, revela uma nova faceta “ecopulverizada” das bicicletas que, assim como as motos, estão abarrotando ainda mais nossos pronto-socorros, como já não bastassem socos e pontapés; balas e facas.

O espetáculo do sofrimento

--------------------------

Eu gostaria que houvesse um dia sem imagens. Gostaria de passar um dia sem precisar abrir meu computador e ser inundado por imagens trágicas e banais. Gostaria de passar um dia sem ver a imagem de Kim Kardashian ao lado da imagem de uma pilha de cadáveres no Congo.

Mas mesmo que eu boicotasse a internet, mantivesse o televisor desligado e usasse meu celular só para e-mails e mensagens de texto, as hordas vitoriosas de imagens me envolveriam do vídeo no banco de trás do táxi, do vídeo em um banco ou supermercado, do televisor nas salas de estar de lares vizinhos. Quando nasceu meu segundo filho, uma enfermeira insistiu para eu lhe entregar o meu celular e depois ficou parada do outro lado da cortina tirando fotos enquanto minha filha era retirada de minha mulher numa cesariana. "Como está o bebê?", eu perguntei, esticando os braços para segurar minha nova filha. A enfermeira sorriu para mim e suavemente recolocou o celular em minha mão, dizendo: "Tirei algumas fotos maravilhosas".
Já se escreveu muita coisa sobre a ambiguidade moral da câmera, e o grande livro sobre o tema é Sobre a Fotografia, de Susan Sontag. No entanto, uma reflexão filosófica sobre a fotografia é, a esta altura, irrelevante. O que nos rodeia com a ubiquidade envolvente do oxigênio não é algo como "fotografia". A fotografia é um produto de propósito e vontade. Nosso cerco segundo a segundo por imagens é inteiramente aleatório. É um produto não de propósito e vontade, mas de distração, luxúria e o eterno impulso humano para envergonhar e humilhar.
Uma amiga minha me contou que estava andando por uma rua de Manhattan certo dia quando esbarrou numa pequena multidão de pessoas reunidas na calçada. Quando ela se aproximou, viu que elas estavam rodeando um pássaro com a asa quebrada que lutava pela vida na calçada. Todas brandiam seus aparelhos digitais tirando fotos da criaturinha moribunda.
Qual o significado disso tudo? Estariam simplesmente expressando a necessidade humana de registrar a vida que as cercava, como artistas fizeram desde o tempo das pinturas nas cavernas até os impressionistas, as fotos de Atget de Paris, as fotos de trabalhadores de Salgado, e outros? Ou teriam se tornado, como a decadente classe dirigente do Império Romano tardio, tão indiferentes ao sofrimento que o espetáculo do sofrimento havia se tornado mais um prazer sensual?
E por que alguém simplesmente não pegou a ave e tentou levá-la para um lugar onde ela pudesse ser salva? Antes que minha amiga pudesse fazê-lo, a ave morreu.
Ao que parece, a era digital nos levou a um "ponto de virada". A curiosidade que nos mantém engajados com o mundo e atentos à realidade se transformou num distanciamento obsceno que constata eventos tenebrosos numa fantasia de imunidade de tempo e circunstância. O fotógrafo, como observou Sontag, sempre teve de lidar com o fato de que "capturar" alguém numa película lhe confere um poder potencialmente abusivo. Agora, porém, ninguém lida com nada. As pessoas simplesmente fotografam a agonia de outras pessoas - ou de outras criaturas -, fazem o upload e acionam "enviar".
Na semana passada, o New York Post, tabloide dedicado a reportagens floreadas de acontecimentos revoltantes, se superou no quesito das imagens promíscuas. Ele publicou em primeira página, sob a manchete CONDENADO, e com a legenda EMPURRADO PARA O TRILHO DO METRÔ, ESTE HOMEM ESTÁ PRESTES A MORRER, a foto de um homem de pé sobre os trilhos agarrando-se em desamparo à borda da plataforma enquanto um trem se aproxima para atingi-lo. Segundos depois, ele morreu esmagado. Verificou-se depois que ele era um coreano que havia se envolvido numa briga com um sem-teto, o qual havia atirado o pobre infeliz para os trilhos.
O debate, hoje tão familiar nesta era de captura desregrada de fotos, recomeçou. Por que o fotógrafo não tentou salvar o homem em vez de fazer a sua foto? Como o New York Post foi capaz de publicar tal foto, que seguramente magoaria e indignaria a família da vítima?
Segundo o fotógrafo, que declarou trabalhar como free lance para o New York Post, ele só fez a foto na esperança de usar o flash para alertar e parar o trem. (Sim, e eu tenho um par de asas que uso para ir e voltar voando à Califórnia). Ele também alegou que as outras pessoas na plataforma estavam tirando fotos com suas engenhocas em vez de ajudar o coreano. Nisso eu acredito.
Mas o debate é irrelevante. Fotos como essa continuarão a surgir, e pessoas continuarão alçando o voyeurismo a um repugnante novo tipo de moralidade. A observação indiferente - a sociedade do espetáculo, como alguém um dia a chamou - é uma qualidade de decadência e os Estados Unidos estão, de certo modo, em seu estágio tardio, decadente. E em nossa era de ascendência tecnológica, nossos inúmeros aparelhos milagrosos servem, inevitavelmente, como ilusões de imortalidade.
A única resposta a isso é declarar guerra às imagens degradantes ou sem sentido. Talvez algum gênio, um Steve Jobs da oposição, invente um novo tipo de grafite digital. Até lá, neste país ao menos, precisamos proclamar um feriado nacional em que as pessoas terão de usar uma venda sobre os olhos por 24 horas. Elas acabarão vendo mais em um dia do que viram em anos.
------------------------

sábado, 8 de dezembro de 2012

Amor de sábado



A música é de 1964, cantada originalmente por Gloria Jones, namorada de Marc Bolan, da banda de glam rock T. Rex, mas só atingiu o sucesso em 1981, com a dupla inglesa Soft Cell.
E quem poderia interpretá-la melhor (ou pior?) do que Brian Hugh Warner, vulgo Marilyn Manson?!
Afinal, sábado é dia de amor.
Nem que seja Tainted Love (amor estragado)!!!...

Soror saudade

Florbela d'Alma da Conceição Espanca nasceu e morreu num 8 de dezembro, como hoje. A poeta portuguesa  entrou em cena em 1894 e se retirou em 1930. Muitos a consideram modernista, apesar dela ter se mantido longe de Fernando Pessoa & companhia. Como diz a crítica literária Natália Correia: "Sacerdotisa do Eterno Feminino, Florbela auto-marginalizou-se dessas vanguardas que parecem desmentir as antiguidades poéticas. ( prefácio do «Diário do Último Ano»).
No Brasil, foi o compositor e cantor Fagner que, no final dos anos 70, nos revelou Florbela ao musicar Fanatismo, um dos sonetos de amor mais radicais da história da Literatura mundial.
Este ano, o cineasta português Vicente Alves do Ó lançou Florbela, o filme-biografia, com produção apurada, que foi um dos sucessos de bilheteria na Terrinha. Comprei o DVD numa promoção do jornal O Público, mas ainda não vi.  Talvez o faça hoje, dia de Florbela. Aqui, vocês tem o trailer.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Maria Alice Penna

-----------------------------

Como está perto do Natal, aproveito para indicar as bolsas da arquiteta Maria Alice Penna.
Para quem ainda está escrevendo a sua listinha de presentes é uma ótima pedida: são lindas!
A Coleção Verão 2013 já está à venda!






Vendas exclusivas de Natal
--------------------------------------

Dia 15 de  dezembro  das 17:00 as 21:00hs 

Informações: 3225-3307 / 8892-3307 / 8112-8177

Sobre o silêncio e a eloquência!

------------------------


Opinião: O caso Megale e a eloquência do silêncio.

A reação do deputado estadual José Megale (PSDB) à divulgação de informações sobre o seu suposto envolvimento nas fraudes da Assembleia Legislativa do Estado do Pará (Alepa) só deixa três alternativas: ou ele é muito burro, ou é muito arrogante, ou, ainda,  as duas coisas.

Megale pareceu surpreso com essa divulgação justamente no momento em que tentava alçar voo à Presidência da Alepa, sacudida pelo maior escândalo de sua história, em decorrência de fraudes que podem ter lesado o erário em mais de R$ 200 milhões.

Ora, qualquer pessoa minimamente prudente, e que fosse suspeita de envolvimento nesse escândalo, teria pensado duas vezes antes de se candidatar à Presidência da Alepa.

No entanto, Megale foi em frente, sem nem mesmo pestanejar.

Ao que parece, por confiar no torniquete imposto à imprensa paraense pelo governador Simão Jatene, através do derrame de milhões e milhões em verbas de propaganda.

Quer dizer: o silêncio cúmplice da imprensa proporcionaria ao ilustre deputado o necessário “salvo-conduto” para que alcançasse tal posto, sem ter de explicar ao distinto público como foi possível que alcançasse tal posto, apesar das graves acusações que enfrenta.

É ou não é a cara da arrogância tucana no estado do Pará?

Ao que parece, a Vossa Excelência, assim como outros de seus colegas tucanos, não consegue entender que os tempos mudaram.

Nem mesmo todo o dinheiro do mundo derramado na imprensa tradicional consegue mais impedir o fluxo da informação. 

Blogs e redes sociais estão entre os fenômenos mais importantes para a Democracia, em todos os tempos.

Daí a impossibilidade de chegar a bom termo a “missão” a que se propuseram Megale e os tucanos paraenses: varrer essas denúncias para debaixo do tapete.

Ao renunciar, na manhã de ontem, à candidatura à Presidência da Alepa, o ilustre deputado afirmou que o fazia em nome da decência, e não do “jogo político rasteiro”.

E, assim, errou novamente.

Não há nada de “rasteiro” na divulgação dessas informações.

Pelo contrário: o acesso a elas é um direito inalienável dos cidadãos.

Elas não têm a ver com as preferências pessoais de Megale, com a família dele, com nada, rigorosamente nada, que diga respeito à vida privada do ilustre deputado.

Dizem respeito é à utilização, supostamente criminosa, de recursos públicos.

Por isso, colocam de pronto um imperativo moral, do maior interesse para a coletividade.

Pouco importa se Megale é inocente ou culpado, pois isso só quem vai dizer é a Justiça – se o caso chegar à Justiça.

Mas quem carrega no costado  acusações como essas, não pode ser candidato à Presidência de um Poder.

E, especialmente, do mesmíssimo Poder no qual tais crimes teriam sido cometidos.

Esse imperativo moral também coloca questões complicadíssimas ao nobre deputado e aos tucanos paraenses.

Quando estavam na oposição, os tucanos berravam até mesmo contra um copo de uísque que a ex-governadora Ana Júlia Carepa tomava em um bar, fora do horário de expediente, como se isso fizesse dela - ou de qualquer mulher - uma vagabunda.

No entanto, parecem ter achado “perfeitamente natural” a candidatura de Megale à Presidência da Alepa.

Assim como parecem ter considerado “perfeitamente natural” a nomeação de um delegado acusado de tortura, para o comando da polícia metropolitana; e a nomeação de Antonio Cláudio Fernandes Farias para o comando da área de Análise Criminal da Segup, apesar de ele responder a processo por peculato - no qual, aliás, acabou condenado, no mês passado,  a cinco anos de reclusão.

No mínimo, essa contradição tucana demonstra uma séria incapacidade de separar o público do privado.

Daí, o “jogo rasteiro” – aí, sim – em se tratando dos adversários.

E daí, também, a grave tendência a minimizar os fatos realmente importantes, ou seja, que dizem respeito à coletividade, em se tratando daqueles que lhes são subservientes.

Outra questão complicada é a aparente inércia do cidadão e homem público José Megale, diante da demora do Ministério Público Estadual em analisar as acusações que pesam contra ele.

Megale diz que esteve no MP e colocou “à disposição” o seu sigilo bancário, quando as denúncias pipocaram pela vez na imprensa, em maio deste ano.

De lá pra cá, no entanto, essas informações simplesmente evaporaram do noticiário.

E o distinto público desconhece se o ilustre deputado tentou, ao menos, apressar o passo de cágado do MP.

Vejam bem: não se está a falar do seu Zé da Silva, lá do Tucunduba, sem acesso ao Procurador Geral de Justiça (PGJ), Antonio Barleta.

Deputado, líder do Governo na Alepa, Megale até poderia ter marcado uma reunião com o PGJ, para perguntar: “E aí, Barleta, esse negócio anda ou não anda?”.

Cidadão que afirma ter sido injustamente acusado, poderia ter chamado a imprensa, para denunciar: “me acusaram de uma coisa que eu não fiz e quero a chance de provar que sou inocente. Mas a denúncia tá parada lá no MP!”.

Poderia ter encaminhado ofícios e mais ofícios ao MP. Poderia ter tuitado ou postado alguma coisa no Facebook, cobrando agilidade nas investigações.

No entanto, assim como a imprensa, Megale preferiu o silêncio.

Nada mais compreensível: algumas das acusações que enfrenta são, de fato, difíceis de explicar.

É possível, sim, que Megale não soubesse que os cheques que assinava beneficiavam empresas da família de Daura Hage.

E que tenha homologado, sem saber, licitações fraudulentas.

Afinal, ele era apenas vice-presidente da Alepa e poderia muito bem não ter o “domínio do fato”.

No entanto, o mesmo não se pode dizer em relação às irregularidades que envolvem a empresa MAC Martins.

Megale sabia – e admite isso – que a empresa pertencia a um funcionário de seu gabinete.

E mesmo assim, segundo as investigações do promotor de Justiça Arnaldo Azevedo, que encaminhou o caso ao PGJ, foi o próprio Megale a solicitar os serviços prestados à Alepa pela MAC Martins.

Sempre com dispensa de licitação.

E sempre com valores próximos de R$ 8 mil, o que pode indicar fracionamento de despesa, para escapar ao processo licitatório.

(Leia aqui: http://pererecadavizinha.blogspot.com.br/2012/11/um-misterio-misterioso-que-fim-levou.html 
Aqui: http://pererecadavizinha.blogspot.com.br/2012/11/megale-nega-envolvimento-nas-fraudes-da.html 
E aqui: http://pererecadavizinha.blogspot.com.br/2012/12/procurador-secreto-do-caso-megale-nega.html).


Megale afirma que não sabia que era proibido, ilegal, contratar serviços, para a Alepa, de uma empresa pertencente a um funcionário de seu gabinete parlamentar– portanto, funcionário da mesmíssima Alepa.

E aí o osso fica duro de roer; o açaí, dificílimo de amassar.

Ora, novamente não estamos a falar do Zé da Silva, lá do Tucunduba, mas, de um LE-GIS-LA-DOR.

Como, então, o nobre deputado poderia não saber que isso era irregular?

Será que o cidadão, o deputado, o LE-GIS-LA-DOR José Megale não leu nem mesmo a Constituição, ao menos no que tange à MORALIDADE e à IMPESSOALIDADE da administração pública?

Qual, afinal, o tamanho da “elasticidade moral” do cidadão, da liderança política José Megale, que nem sequer estranhou uma transação assim?

Ontem, ao renunciar à candidatura à Presidência da Alepa, Megale criticou a divulgação das denúncias contra ele.

Praguejou, especialmente, contra o jornal Diário do Pará, que publicou reportagem, no domingo, sobre o mistério que cercava as investigações do Caso Megale, pelo MP (tema de reportagem exclusiva da Perereca, quatro dias antes).

O deputado teria dito, na Alepa, que não permitirá que um “grupo empresarial” venha a “pautar” as eleições para o comando da Casa.

E que não considera “ético” que um jornal “advogue” em favor de um partido em tal eleição.

Porque isso, a seu ver, “contaminaria” o processo eleitoral, “ferindo” a autonomia da Alepa.

No entanto, na noite de ontem, o governador Simão Jatene, o chefe do Poder Executivo, comandou pessoalmente a reunião de deputados que escolheu o novo candidato da base aliada à Presidência da Alepa, em substituição a Megale (será Márcio Miranda, do DEM) e definiu estratégias para interferir até mesmo na data da eleição.

Não, caro leitor, não foi um preposto de Jatene quem comandou a reunião, o que já seria grave: foi o próprio governador.

E hoje os jornais noticiam, como se fosse “perfeitamente natural”, essa interferência descarada, desavergonhada, inconstitucional, antiética do chefe do Poder Executivo nas eleições para o comando da Assembleia Legislativa do Estado do Pará.

Ou seja: o que antes se fazia na sombra e na escuridão, por irregular e imoral, Jatene faz às escâncaras, também sob o silêncio cúmplice da imprensa e de todas as instituições.

E, certamente, nem Megale nem os tucanos dirão coisíssima alguma sobre essa contaminação do processo eleitoral, que pisoteia a autonomia do Legislativo paraense.

Mas, pensando bem, nem precisa que digam coisa alguma.

Em certas ocasiões, os silêncios são pra lá de eloquentes.


----------------------
Ana Célia Pinheiro

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Adeus às curvas

 "O que me atrai é a curva
livre e sensual. A curva
que no encontro sinuoso
dos nossos rios, nas nuvens
do céu, no corpo da mulher
preferida. De curva é feito 
todo o universo. O universo
curvo de Einstein."


(1907-2012)

Tem Morador: Escola de Fotógrafos Populares



Muito me apetece a ideia de uma universidade que se coloca na rua, em que professores e alunos sejam estimulados a produzir conhecimento em uma estreita relação prática com seu próprio mundo e sua comunidade. Não que seja menor um conhecimento produzido no âmbito estritamente teórico. É identificação [minha] mesmo. Acabo acreditando que o conhecimento puramente teórico seja um luxo em nossas circunstâncias. As transformações sociais são tão urgentes que merecem mais zelo por parte “da nata da sociedade”. Uma prova disso é a atual situação de Buenos Aires, estado e município, que vivem a pleno estado de tensão com o destino do lixo produzido pela população e, depois de muito bate-boca entre os gestores públicos, colocou mais uma vez à mesa governador e prefeito para discutirem um plano de adequação às leis que já vencem há anos. Lixo?! Um problema que, em tese, já deveria ter sido solucionado, não? Pois é. Não é só em Belém que ainda vivemos esse velho drama...

Bem, tudo isso é pra dizer que este projeto qualificado pela urbanista Rakel Rolnik me parece bem interessante. O vídeo traz ainda uma linda interpretação de Opinião, que, certamente, garante uma força generosa às imagens.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Carne humana é muito bacana *


Do muito que eu li em 2012, arrisco a escolher como O Livro do Ano Kannibalisme en mensenoffers - Feiten en verhalen uit Mexico, Brazilië en Centraal-Afrika , traduzindo: "Canibalismo e sacrifícios humanos - feitos e narrativas no México, Brasil e África Central", (2012, Editora Van Helewyck, 431p),  do professor Daniel Vangroenweghe.
Trata-se de um longo estudo sobre antropofagia e o costume de sacrificar pessoas em diversas civilizações, um assunto que o professor acredita ainda ser grande tabu, mas que ainda desperta uma curiosidade que beira a fascinação. "São práticas que aconteceram em todas as partes do mundo e em todos os tempos até o século XX", segundo o autor. Sim, mesmo na Europa - que também tem registros de antropofagia ainda na Pré-História, assim como na grande fome de 1315-1317, e mais à Leste, no cerco de Leningrado pelos alemães na Segunda Guerra, e um pouco antes, na fome de 1932-1933, entre  alguns dos cerca  de 6 mil degredados por Stalin. É o chamado canibalismo de sobrevivência, também ocorrido na China sob Mao;  na América do Sul entre os nossos hermanos urugaios, jogadores de rugby, sobreviventes da queda de um avião  nos Andes, em outubro de 1972; e, ainda nos anos 70, entre os vietnamitas que fugiam da guerra em barcos.
Mas, o principal da obra é mesmo a antropofagia no Brasil, na América Central e na África entre os séculos XVI e XIX.
O capítulo sobre os Tupi é um primor. Vangroenweghe analisa e compara as três principais fontes de informação: os livros dos franceses André Thevet e Jean Léry, e  o livro do mercenário alemão Hans Staden - este último autor do mais completo relato sobre a antropofagia entre os índios brasileiros. Staden literalmente escapou da panela e publicou em 1557 o livro que teve mais de 70 edições, em mais de sete idiomas. O título é longo:"História Verdadeira e Descrição de uma Terra de Selvagens, Nus e Cruéis Comedores de Seres Humanos, Situada no Novo Mundo da América, Desconhecida antes e depois de Jesus Cristo nas Terras de Hessen até os Dois Últimos Anos, Visto que Hans Staden, de Homberg, em Hessen, a Conheceu por Experiência Própria e agora a Traz a Público com essa Impressão", também conhecido pelo nome "Duas Viagens ao Brasil".
Para o professor Vangroenweghe, o livro de Staden se tornou um best-seller graças às 52 ilustrações, em gravura (uma delas serve de capa do livro ao autor flamengo, na imagem acima). As gravuras são quase uma HQ e revelam detalhes que escaparam do texto. Claro que isso se deve ao fato que o alemão viveu entre os tupis até escapar do caldeirão. Os outros autores, contam basicamente relatos que ouviram de terceiros. Dica para quem ainda não viu: vale a pena ver o filme Hans Staden (trailer aqui) feito em 1999, pelo diretor Luiz Alberto Pereira.
O segundo capítulo é também uma jóia. Trata da prática antopofágica  após os  sacrifícios humanos  entre os Mexica, os Aztecas e outros povos da América Central na época da invasão espanhola (começo do século XVI). Para o professor, a grande difrença entre eles e os nossos índios sul-americanos está no canibalismo como ritual religioso. Para os Tupi, antropofagia era vingança e estratégia de guerra,  para os Meso-Americanos, era algo que se fazia para aplacar a fúria dos deuses, e que seguia uma ordem hierárquica: apenas sacerdotes comiam o coração dos sacrificados e os nobres comiam a carne do corpo.
Já na África Central ( Gabão, Congo Brazzaville, República Centro-Africana, Sudão, Uganda e República Democrática do Congo), até o século XIX, o canibalismo embora tenha tido algum sentido religioso, também era um ato de guerra e até mesmo gastronômico. A expressão Niam Niam (talvez origem do nosso nham, nham) foi usada para designar os canibais do norte-africano por geógrafos árabes, como al-Masudi (956-957 DC). Mais ao centro do continente africano, um viajante europeu no século XIX ouviu de um nativo a seguinte explicação-indagação ao condenar o hábito de degustar carne humana: "Por que nós não comeríamos nenhuma pessoa? Um ser humano é mais nobre que um animal. Nós comemos apenas alguns inimigos, ou nossos escravos e alguns estrangeiros. O que há de mau nisso?".
O livro é monumental pela reunião de uma extensa bibliografia - são 15 páginas de referências bibliográficas-, mas também pelo estilo acessível, bem humorado, e (detesto a palavra, mas vai lá), didático: são mais de 70 páginas de notas explicativas. Simples que até um neo-falante de neerlandês, como eu, consegue ler.
Daniel Van Groenweghe é doutor em Ciências Sociais e Antropologia Cultural. Agora é professor visitante na Universidade de Gent. Ele publicou o famoso livro De Rood Rubber (editado em 1985 e revisto em 2010), sobre a cruel exploração de borracha e marfim no Congo, propriedade particular do segundo rei dos belgas, Leopoldo II, no final do século XIX começo do XX, este também não editado em português, mas se pode encontrar em francês.
Fico torcendo para que publiquem o Livro do Ano  em português, ou outro idioma mais acessível que esse nosso neerlandês.
_______________________________________________________
* verso da canção Uga Uga de Arrigo Barnabé, que você pode ler a letra e ouvir aqui.

domingo, 2 de dezembro de 2012

Senhor de mim



Poetas e escritores saracoteavam numa fila que já dobrava quase duas esquinas. Aproveitavam o momento de espera para preencherem a ficha. Eu avistava à frente alguns conhecidos amigos: Antonio Maria, ao lado de Manuel de Barros, vivia a rir; Joãozinho conversava com Thiago de Melo; Abel gesticulava com Drummond; Sodré versejava com Dalcídio Jurandir; Dudu proseava com Rimbaud; Cilão arguia com Thomas Dylan. Permaneci sozinho no rabo da fila a espera de ser notado. Não me viram. Aí não me contive e me acheguei a Gonçalo Tavares, logo a minha frente, ainda sozinho. Puxei conversa e percebi que o angolano apenas desconfiava me conhecer. Por educação sacou um livro de sua coletânea “Os Bairros” e me emprestou. Título: “O senhor Brecht” - desandei a ler. Pedi-lhe mais um e ele me vendeu "O Senhor Henri". Mais: "O Senhor Juarroz". Depois “O Senhor Kraus”. A fila andava lenta - veio “O Senhor Calvino”. A fila andava rápida - segui com “O Senhor Walser”. Na marcha lenta - “O Senhor Breton”. Na rápida - “O Senhor Swedenborg”. Li também “O Senhor Eliot”. A conta deu alta. Parei no “O Senhor Valéry”.

Embriagado pelo bordado das letras e pelo pensamento frouxo dos escritos resolvi abandonar a fila e esticar minha euforia até a birosca da esquina com dois dedos de absinto prescrito por Paul Valéry. Senti o chão tremer. Temi. Retomei a cobrinha.

Ao chegar minha vez, esgotou-se o dinheiro para quitar a inscrição. Perdi de vista os amigos; balancei o bolso e nem mais um tostão caiu. Desisti. Não era meu dia. Voltei para casa cambaleando pela calçada sem abandonar a coleção que carregava no alforje. Já não era “O Senhor de mim”.

Gonçalo me ensinou a gostar de esperar. Volto para a fila na outra encarnação. Sigo carregando livros.

sábado, 1 de dezembro de 2012

Joe Carioca



Conta a lenda que o personagem Joe Carioca foi criado por Walt Disney, a pedido do governo americano, com o intuito de coibir o crescimento de "sementes comunistas" por aqui.
E assim, entre belíssimas aquarelas e intrigas internacionais do pós-guerra , nasceu o nosso Zé Carioca!