quinta-feira, 17 de março de 2011

Tsunami de mau humor


Charge de João Montanaro (Folha de São Paulo)

Às vezes tenho dificuldades para entender a reação das pessoas diante das tragédias, como o recente terremoto e o tsunami no Japão.

A grande maioria corre para o YouTube para ver, rever e divulgar os vídeos. A televisão repete as imagens até a exaustão e a mídia escrita vende muito mais: todos querem ver e comentar o assunto, não conseguindo evitar um certo prazer ao fazê-lo.

E isso acaba sendo rotulado como normal e como politicamente correto, se repetindo tragédia após tragédia.

No sábado, 12/3, o jornal Folha de São Paulo publicou uma charge retratando o tsunami e desencadeou a ira de centenas de leitores. Como pode alguém fazer um desenho sobre a tragédia, perguntou a opinião pública.

O autor, João Montanaro, de 14 anos, baseou-se em clássica xilogravura de Katsushika, retratando o tsunami de forma inocente, bem longe de fazer uma piada a respeito da onda gigante e de suas conseqüências, ou de desrespeitar as vítimas e suas famílias.

Na minha opinião pessoal, a imagem algo poética criada por Montanaro nos faz pensar e refletir sobre os acontecimentos e a recepção negativa exagerada dos leitores reflete apenas a hipocrisia, a chatice e o mau humor coletivo: um verdadeiro tsunami de mau senso e paranoia.

6 comentários:

Silvina disse...

Scylla,
Penso que 'olhar' o tsunami através de um desenho singelo, que nada tem de jocoso nem desreipeitoso, apenas deveria nos fazer ver a tragédia forma menos 'pesada' e com isso nos fazer ter instantes de pensamento brando direcionado a esse fato. Esse pensamento abrandado, atingindo milhares de pessoas, como o farfalar das borboletas, deveria irradiar uma 'onda' de positividade alcançada por essas mentes sem preconceitos e lançada no ar como uma vibração boa, para balancear tantas negativas. De fato, o mundo hoje é 'full of' hipocrisia. Diria ate que o mundo é dos hipócritas. Por isso, um certo JC disse um dia: 'Meu reino não é deste mundo'.
Adorei teu post. Tks 4 this pleasure!

Scylla Lage Neto disse...

Silvina, obrigado pelo comentário.
Talvez se a charge tivesse sido publicada posteriormente, semanas após o desastre, as críticas sequer tivessem existido.
Talvez.

Homem do Norte disse...

Scylla,
Interessantíssimo e seu comentário. Tão interessante quanto a própria charge-poema, pertencente a um jovem de apenas 14 anos. A arte criada por Montanaro é um doce para as agruras deste efeito devastador, conforme comentou Silvina, de forma majestosa, eu diria. Tudo me fez rever um pensamento de Ferreira Gullar, que muito Gosto: "A poesia existe porque a vida não basta". Eu diria, com a miha poesia marginal, que a hipocrisia existe porque o homem não conhece a poesia, o lado mais abonado da vida.

Scylla Lage Neto disse...

Roger, falta poesia no dia-a-dia.
Assim como faltam as borboletas da Silvina...

Homem do Norte disse...

Scylla, meu caro! Sobre esta mesma abordagem ideológica vou fazer o seguinte comentário: o "Diário do Pará" tem dedicado sua crônicas policiais com títulos que têm me chamado atenção. O de hoje, domingo, por exemplo é da sua área: "Tiro na cabeça elimina 'capacidade' do 40 horas" do fotojornalista JR AVILAR. É claro que não consigo ler a matériA, mas o jornalista consegue amenizar esse Tsunami chamado violência, dando uma pitada de açúcar na sangrenta página policial. Sabemos que a nossa capacidade está na cabeça, o local onde o tiro ceifou mais uma vida por acertos de contas do cotidiano da marginalidade. Entendo que Montanaro e Avelar comungam da mesma hóstia e, com um estilo tipo João do Rio dos dias atuais, conseguem se ajoelhar diante da desgraça para rezar um pai-nosso, uma ave-Maria e três credos, em vez de noticiar a desgraça de forma nua e crua. A discussão está aberta sob a égide da Silvina acerca do farfalar das borboletas.

Scylla Lage Neto disse...

Roger, perfeitas e apropriadas as suas palavras: João do Rio dos dias atuais!
Felizmente, parece que existem ainda muitos mundão adentro.
Abraços.