segunda-feira, 18 de junho de 2012

Os casais ou os planos que fazemos sem a certeza de que a vida poderá nos brindar com eles

  Foto minha mesmo

Me toca delicadamente ver casais de idosos caminhando pelas ruas de braços dados. Desses idosos de cabecinha branca e com leves curvas nos ombros, curvas para baixo, numa (quase) corcunda, sabe? Pois é. Me toca. E repeti muitas vezes a amigos, quando ainda estava em Belém, que me imagino assim com meu companheiro, Felipe. Mas um dia desses, voltando da escola, com nossa pequena cidadã, Helena, de coletivo, já aqui em Buenos Aires, vi uma senhorinha (mania doida de colocar no diminutivo certas palavras-sentido) que lembrou minha avó paterna, a vovó Adélia: pequena (porque baixinha), redondinha (porque acima do peso), olhar e sorriso doces (não sei o por que). A senhora segurava num daqueles bastões, para garantir a firmeza que, às vezes, nem as pernas mais jovens conseguem ter dentro de um ônibus. E me fixei nas mãos dela. Nos dedos dela. Um deles carregava duas alianças, no dedo do casamento. E me meti a pensar na viuvez e no simbolismo daquela imagem. Me meti a pensar que, nem sempre, a vida nos sai como planejamos. E como será a vida que não planejamos? Pra quê tantos planos então? Minha avó também carregou duas alianças no dedo do casamento. Quando se foi, se foi “como um passarinho”, como disse minha mãe, que acompanhou suas horas de agonia. Que foram, sim, de agonia, e que não combinam nada com uma ida feito passarinho. Aquela senhora me tocou. E ainda não passou.

7 comentários:

Marise Rocha Morbach disse...

Querida, que bonito isso. Eu penso na velhice há tanto tempo que nem sei...é uma das coisas mais bonitas de Buenos Aires. Os velhos nas ruas, as senhoras elegantes nas padarias, os velhos vivendo a cidade.Quanto aos planos: como não tê-los? E se for entre duas pessoas: mais delicioso ainda!

Erika Morhy disse...

Pois sim, Marise, eu também, mesmo leonina, sempre tive essa prática metódica de planejar. Planejo, com um pé lá, outro cá. E gosto dessa capacidade de poder me ajustar a novas possibilidades. Mas algumas surpresas nem sempre são assim tão fáceis de digerir... ?Que sé yo? Besitos

Silvina disse...

Planeje ser pega de surpresa!

Scylla Lage Neto disse...

Erika, adorei o post.
Eu também adoraria envelhecer ao lado da minha patroa.
Ou melhor, adorarei!
Abs.

Felipe Pamplona disse...

“....Movimentos dos Barcos, movimentos....”

Certamente três meses em Buenos Aires provaram que o melhor planejamento é o de hoje , o do agora , como a “ordem do dia” de um longa metragem da vida real. Como um roteiro de documentário, sabe – se o que quer mas o resultado na tela pode ser outro completamente diferente do esperado e do planejado por anos. Porém pode agradar tanto aos diretores quanto ao público. Movimentos da vida coma na Arte.
Mas como marajoara acredito muito nos movimentos dos barcos ( música de Jardes Macalé interpretada por Maria Bethânia) mesmo com o horizonte ainda turvo aportaremos em algum lugar, seja em Soure ,seja na patagônia, no rio da plata ou no ver- o peso. Quanto a tripulação alguns podem cair pelo caminho, isso é verdade.

http://www.youtube.com/watch?v=xsiFoK40pIE

Erika Morhy disse...

Na mosca, Silvina! Acho que o caminho é esse mesmo.
Scylla, meu caro, eu também adorarei ver o Felipe de cabelos brancos. O problema é que os cabelos já estão rareando demasiadamente... será que vai sobrar algum? [rs]
Abraço a todos e obrigada pelos comentários, por compartilharem das minhas elocubrações :p

Erika Morhy disse...

Olhem, olhem! "Meu digníssimo espouso" passou por aqui e comentou! [coqueta] Desfrutemos, meu bem.