“O Curupira protege os animais e a floresta.
Ele tem os pés tortos para afastar os caçadores.”
MG Calibre, em Brazzônia, 2005.
MG Calibre preparou o roteiro de seu disco “Brazzonia” como se
estivesse sentado sobre uma saca de farinha no interior de uma baiúca na
ilha de Maiandeua. Ouvia Miles Davis ao
pé do ouvido esquerdo e Verequete ao direito - ainda assistia à Almodovar com um dos olhos. Com o bago do outro olho apreciava, pela parte de fora, um pescador entretido com
o mar e pela parte de dentro um caboclo apanhando caranguejo no mangue. Por
sua vez escrevo este texto no tempo presente, ouvindo MG Calibre do tempo
pretérito (2005). Um deleite de Jazz moderno sob influência do ritmo tecno-maresia
de seu carimbó, funk e hip-hop à beira do mangue ou melhor, uma mamadeira de leite-jazz amamentada pelas mamas da mama amazônia.
Eu, aqui, tomando café de um real. Ele, lá, tomava 1 litro
de açaí do grosso, empapado numa quarta de farinha, das bagudas, tirando gosto
com quatro tiras de charque. Mistura que lembra Arapiranga, Curuperé, Cravo,
Santana, Castanheiro, Jutaí, Itapuranga como uma coisa só: a mesma água de
igarapé que impulsiona a regionalização sonora de sua veia nativa paroara made in Bujaru.
“Meio quilo de açúcar e uma quarta de café” sussurrou a
menina. Ele retrucou: - Eu já disse que é 1 litro de açaí e uma quarta de
farinha baguda para tirar gosto com charque. Pago depois, quando vender meu CD em
frequência modulada. Eu, no tempo presente, comprei, ouvi, li e agora repico no
tarol: que loucura maravilhosa. Que acústica a Amazônia é capaz de nos
amamentar, Sumaaaaano!
Para ouvir Brazzonia tenho que ficar nu da pele que envolve
meus pré-conceitos musicais. Tenho que me vestir de nada e jogar fora todas as
pedras que atirei contra o que não entendia como música. MG Calibre sai do
Caribe amazônico e adentra no vão que insistimos em desdizer sobre o Jazz
contemporâneo brazuca de Brazzonia. O vão fica entre o calado de Belém e o Mar estupefato
do Marajó, que vejo do lado de cá do Amapá sobrevoando Mexiana e Caviana, ou como
se pororocasse a vida numa prancha de Surfe rauaiana no sentido Bujaru.
Se não fosse algo do mar, algo da terra, ou algo do ar, eu
diria ser algo de mim querendo entender a força com que a música é capaz de nos
afrontar. Porquanto diria que o Jazz que percorre Brazzonia tem a distância que
se equivale do Caribe ao Marajó tendo eu viajando com um Catraieiro, pois a sua
mensagem não é de afronto, e sim de paz, como se fora um pedido de NÃO à
violência. E por aí “se vamo” caminhando entre a poesia e a pedra, descamando essa
literatura brazzônica, fazendo sentido à arte .
Conheça Brazzônia. Você verá que, se existe algum
preconceito com música, ela se esvairá no final de cada arranjo.
5 comentários:
Calibre é sensacional!
Abs
Que delicia de texto Roger. Não conheço, mas vou conhecer; valeu!
Você vai sentir um abalo sísmico nos seus conceitos musicais. Não ouça com salto Luis XV que é capaz de torcer o tornozelo.
Proença, acertaste na Mosca.
Super post, Roger.
Adorei!
Postar um comentário