domingo, 23 de setembro de 2012

Uma velha grotesca




A medicina, como eu disse, começa pelo ato de contar histórias.
Pacientes contam histórias para descrever doenças;
médicos contam histórias para compreendê-las.
Siddartha Mukherjee, médico e escritor, em: “O imperador de todos os males (2011).”

Passei um lustro no Acre, entre os rios Juruá e Purus. Em batidas de remo dista dias-luz da esquina do Solimões. Tinha entre oito e 12 anos, sem direito a televisão. Era cidade pacata, ideal para se viver a infância de rua, de praça e de juntar manga do chão. A luz findava dez, depois era pira-esconde ou 31 alerta. 
Certa manhã, ao ver uma pequena fila na vizinhança, arrisquei adentrar para bisbilhotar. Bem se sabe: criança fura fila. Num dos cubículos da tosca casa de madeira havia uma baladeira atada com uma velha grotesca. Deitada com as pernas para fora, pés rés ao chão, ela estava arrumada num vestido fino, azul claro, floral; tinha a pele morena e o rosto engelhado pelo tempo, que bem lembra aquela pintura do renascentista Quinten Metsys ("Uma velha grotesca"). Ela urrava de dor. Envolta, umas cinco pessoas em revezamento para fazer o humano carrossel - era o que cabia naquele cômodo. Todos a acalentavam com olhos piedosos e gestos de caridade.
Eu tentava entender o cenário, mas a dor visceral uníssona zombava da minha ignorância. Franzino, permaneci em pé, descalço, encostando o ombro na porta do quarto totalmente aberto. Assistia àquela imagem e ouvia impotente aquele pesar: nada sabem fazer, nada podem fazer. Rostos mergulhados no vazio absoluto; silêncio enclausurado na fé. E eu, acabrunhado, querendo conhecer a verdade com os pés descalços da meninice.
Deu-se então um cochicho: “fumava porronca e agora não tem força para sair da rede. Já cuspiu sangue, tem fôlego curto, pele fria e úmida e toda dor do mundo. Não deve durar muito”.
Em minha puída lembrança a casa não tinha mais que cem metros da nossa e, quando minha mãe soube que eu estava lá, por fofocaria da irmã, mandou um “passa-pra-dentro”, além de esculachos. Dizia ser doença de pegar.
Não durou mesmo. O cortejo se deu na mesma rede, como o nativo faz: içada num pau estirado de ombro a ombro de uns poucos, entre os que restaram daquela sessão de oração à finitude. Rumaram pro cemitério, que ficava além da pista de pouso, num trecho de areia margeado por capim e mato seco. Entoavam ladainhas. Enterraram-na sem atestado de óbito, pois não havia doutor na cidade. Acompanhei o cortejo na mutuca, sem minha mãe saber.
Esta cena, que invadiu minha infância feito procissão de velas, perfila até hoje num canto morno da minha memória. Vez por outra, sem quê nem pra quê, a velha, feito vela, se acende no meio da minha jornada soturna com o Câncer. Digladio com esse fantasma sem máscara e DNA.
Talvez a "causa mortis" fosse Cancro, talvez Tísica. Sucede que este quadro ficou pintado na minha janela durante longos anos e só agora varro o pó do esquecimento.
Diz-se que se abandona a infância quando se vê a fome ou a morte. Aquele interior me estampou a morte... Foi a pré-coisa dentro de mim.

10 comentários:

Scylla Lage Neto disse...

Roger, o texto me evocou Gabriel Garcia Marques com muita clareza, mostrando que não há fronteiras entre mentes e muito menos entre os países da Amazônia.
Adorei!

Geraldo Roger Normando Jr disse...

Putz... Logo com o Gabo?

Silvina disse...

Pai d'égua esse teto. Como diria o "caboco" : lîndo, lîndo, lîndo!

Geraldo Roger Normando Jr disse...

Silvina, muito obrigado (acho até que você quis dizer teXto, não?), mas há uma digressão geográfica: em verdade os Purus e Juruá desembocam no Solimões, que passa a se chamar Amazonas somente a partir de Manaus. Coisa de memória puída, mesmo.

Geraldo Roger Normando Jr disse...

Esqueci de avisar: o TETO já foi corrigido.

Silvina disse...

Hehehe. Era pra sair teXto mesmo. Esse iPad me prega umas peças... Mas, como teTo é algo que está sempre acima de (alguma coisa), esse texto pode muito bem ser um teto! Né, mano? Ou melhor, NorMano!

Pedro Vallinoto Neto disse...

Caro Amigo Roger

Pegando o gancho do Siddartha,
Gosto mais de ouvir ESTÓRIAS,
Contá-las é para poucos, CAUSOS,
São estórias curtas, sopram poucas palavras,
Porém, muitas vezes dizem quase tudo,
Contas neste texto, HISTÓRIA,
Retratas com tal clareza teu acre começo,
Travaste batalhas, mente juvenil, criaste, FÁBULA,
Por fim, ESTÓRIA, CAUSOS, HISTÓRIA, FÁBULA...
Fico com o velho João, contador de ESTÓRIAS,
ou mais recentemente com o Mia, que conta as abensonhadas,
Teu texto aludiu esta tríplice coroa: João (Guimarães Rosa), Mia (Couto)
E, como intimamente chamaste: Gabo (Garcia Marques).

Parabéns,
Texto incontestavelmente belo.
Grande abraço
Pedro Vallinoto Neto

Geraldo Roger Normando Jr disse...

Pedro,
tríplice coroa? Acho que vocês (Tu e o Scylla) estão indo além da conta...

Abel Sidney disse...

O caso é que, depois de ler estes escritos do amigo de infância (e dublê de jogador de futebol amador e médico, entre outras tantas coisas), me sinto instigado a me enfiar literatura adentro, pelas amazônias que sei existir em mim e à minha volta.

...e de pensar no tanto a contar, me sobrevém o receio de não dar conta!

mas covarde não sou, enxerido sim.

vou sair, pois, por aqui, pelo meu próprio quintal, de vastas léguas, a abrir minhas picadas.

Geraldo Roger Normando Jr disse...

Abel,
Seu quintal poético é um latifúndio que nenhum Sem-Terra ousa invadir. Tem a vastidão das palavras e dos pensamentos. Está cercado por rimas embandeiradas que te aproxima da infância fartamente amazônica. Puxe a sua cadeira de balanço e deixe os bons ventos do flanar te visitarem, sem tirar o olho do quintal, vasto quintal.
Obrigado pela visita.