domingo, 12 de julho de 2015

O abraço-açu na alma do Barretão

Pouca saúde e muita saúva,
Os males do Brasil são!
Mario de Andrade em:“Macunaima"

Expedito tinha obstrução respiratória e pressa. Aos quarenta e poucos anos era procedente de São Miguel do Guamá, na Belém-Brasília, logo depois da forquilha com a Pará-Maranhão. Durante três horas de viagem agonizante, com a sirene da ambulância afônica, suportou a respiração estridente e a vida no ponteiro do relógio, até chegar ao Barretão.
Logo foi submetido à endoscopia: obstrução abaixo do pomo. Era tumoral e o ar passava por uma fresta pouco mais larga que o buraco da agulha de crochê. Passou direto para sala de cirurgia; o anestesiologista sofreu para garantir a oxigenação até iniciar a operação. Então o pescoço foi abordado e extirpada a moléstia com parte da traqueia. O paciente foi para o CTI e a peça operatória para exame. Câncer, segundo o laudo, cujas beiradas não havia doença. Curado e ponto final.
No outro dia, desperto, com fôlego renovado e, mais que isso, emocionado com a segunda chance de nascer, Expedito gostaria de dar um forte abraço na equipe, ou melhor, um abraço-açu (Açu é radical de origem tupi com função adjetiva; significa grande e surge em palavras compostas, como Igarapé-açu).
Disseram-lhe para transferir o abraço ao Barretão, que passa por momento difícil. Este é apelido carinhoso que estudantes e residentes cunharam no hospital Barros Barreto, posse da UFPA. É um gigante que nasceu nos idos de 1950/60, inicialmente como sanatório de tuberculosos, depois o governo o transformou em hospital geral, porém ao longo dos últimos anos vem sofrendo bombardeio administrativo e escasseando tudo, até luz. Lá se trabalha na penumbra do progresso, apesar de muros e portões de academia.
Expedito, tão logo que caminhou foi bater na diretoria, mas deu com a mesa vazia. O diretor estava lá fora, à sombra de um Ipê, ao lado de dezenas de pessoas que se mostravam amigos do hospital, organizando um abraço de ressurreição. Expedito se enfronhou entre os demais e, de pijama e uma gargantilha de curativo, abraçou o Barretão como promessa de ter obtido aquela glória. Naquele momento o antigo sanatório sofria um simbólico abraço-açu de todos, porque sabiam que o hospital estava preste a atravessar a rua. O abraço-amigo puxou-o do sepultamento condoído. O gigante vai se reerguer, todos inflamavam numa só voz.
Naquele mesmo momento estava dando na difusora que o INCA, um dos maiores centro de câncer do Brasil, no Rio de Janeiro, estava na mesma penúria. Percebe-se que, diante do descaso com hospitais públicos, o Barretão é mais um que tomba no silêncio funesto da saúde pública pantominada.
Por sua vez, no coração do CTI, um residente tentava realizar um procedimento cirúrgico, à beira do leito, sem dar conta do acontecimento simbólico repleto de holofotes e mídia, que ocorria lá fora. No final perguntaram a ele porque não esteve no abraço - sob pena de ser punido. Respondeu: "nessa hora eu ‘tava procurando foco cirúrgico pra realizar uma drenagem torácica na UTI". 
Resposta tão silenciosa quanto o pisar de um Brontossaurus. Interromperam a punição e tiveram pejo de saber se ele havia operado à luz de vela. 
Se Expedito abraçou por fora e aquele residente abraçou por dentro, pois certamente foram os abraços dos mais afetuosos que o Barretão albergou. Ele vai se reeguer, ele tem alma...

domingo, 5 de julho de 2015

Os herdeiros da poronga

               (Para Gabriel Garcia Márquez e Machado de Assis, que se fingem de morto)

Minha família vivia numa cidadezinha no interior do Acre, anos 70, e tinha eu dez de idade quando ouvi falar de Geraldiano e Ivaniano, filhos de imigrantes nordestinos soldados da borracha. Eles tinham uma zanga e travaram um duelo que ficou registrado nos anais da cidade.
Os dois foram criados juntos, mesmo tope, mas na adolescência se arranharam pela formosura de Lígia. Chegaram a ensaiar uns pegas, mas a turma do deixa-disso sempre estava de plantão. Eram atarracados e de gênio atravessado quando se esbarravam num copo de cachaça. O próprio delegado tratava de mantê-los distantes e as famílias cuidavam de fazer com que não se encontrassem.
A rusga entre os dois acompanhou-os com as rugas do tempo até os cinqüenta anos. Aristides, o prefeito devoto de São Francisco, rogou clemência para selar a paz, já que era amigo de ambos. Ademais, o munícipe andava combalido, em cadeira de rodas, vomitando sangue, desenganado da medicina da capital por Barriga d’água. Tinha os dias contados, pois na época o transplante de fígado carecia do conhecimento de hoje. Toda a cidade se ressentia do apelo e seria a última de suas obras humanitárias. Como um fazia aniversario dia 21 e outro dia 23 de julho, trataram de marcar o selo da paz numa data equidistante, ou seja, 22, sábado.
A festa no salão paroquial iniciou sob a bênção do padre Alberto, mas findaria sob o tridente do satanás. Os dois, logo na chegada, até esboçaram aperto de mão, mas acerto mesmo foi com o senhor dos infernos, pós-talagadas da “mardita”. Foi quando se esbarraram no banheiro. O ambiente ficou cinza. O estopim ocorreu e cada um puxou um canivete da cintura, como dois cangaceiros, e afiaram a lamina na ponta da língua. Pularam pro terreiro de festas só eles: olho no olho, dente rangendo e goela rugindo. Depois o duelo ficou explícito, ao ar livre, até separarem de vez. Tarde demais: saíram capengando com cortes profundos no tórax, abdome e braço.  
Cada família hospitalizou o seu em suas casas, pois rejeitaram ir ao único posto de saúde, com medo das algemas do delegado Elesbão. Ambos padeceram de longa agonia, trancafiados em seus quartos. Foi quando Geraldiano recobrou da embriaguez e, diante da dor outro e cada vez mais perdendo ar, expôs certo grau de preocupação com Ivaniano. Que por sua vez ficou impressionado ao saber que o algoz orava pela sua alma à medida que sua barriga crescia junto com o arrependimento. Cada um começou a suplicar para que o outro não morresse, e as famílias ainda mantiveram as orações até o último pingo de fé. A cidade viveu o suspense com todo tipo de esforço para esticar a alma daqueles dois, que continuavam acamados - agora febris e sem dispor ao menos de um curandeiro kaxinauwá.
Após 48 horas de agonia, os sinos da igreja dobraram. Luto e suspense: o prefeito acabara de entregar o corpo ao Espírito Santo.
Deixa estar que os dois ouviram as badaladas e cada um em sua rede achou que os sinos soavam pelo outro. Geraldiano morreu de melancolia no dia seguinte, chorando pela partida de Ivaniano. Que morreu duas horas adiante chorando as águas do Purus por Geraldiano.
Na lápide de cada um ficou a inscrição: “Neste povoado de cidadãos pacíficos, cuja fé cegou, a violência teve um momento de manifestação condolente entre si, mas não menos daninha.”

Labareda, do bando de Corisco

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Noites infames

Imagem que circula na rede sobre a programação


Uma noite infame. Esta é. No Brasil e em Buenos Aires também.

O que parecia apenas o dia seguinte de uma vitória parcial sobre um insulto à inteligência da nação canarinha, com a reprovação da mudança da maioridade penal de 18 para 16 anos, eis que o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB), dá o bote e põe novamente em votação o PEC 171. Duas infâmias, o projeto em si e o bote.

Mas vivendo na Argentina, impossível estar ao largo de um tema que poderia ser pertinente no âmbito acadêmico, mas tórrido nos corredores da Universidade de Buenos Aires (UBA). É ali que a Faculdade de Ciências Sociais (#Fsoc) está, nesta noite deste dia 1º de julho, garantindo uma programação baseada em “outras formas sexualizadas de viver no espaço universitário”. Nas redes sociais circulam imagens da agenda posporno, como denominam, e elas não me dizem tanto quanto me impressionam: qual o sentido de garotas seminuas (estou sendo generosa) praticarem sexo ao vivo e a cores? Uma espécie de cenas de sado explícito, se me faço entender.

Numa mesa, microfone é metido na vagina alheia. Noutro canto, um exercício de sexo a três, incluindo homens. E eu ainda não consegui entender o x da questão. Capaz que a coordenação do show possa explicar melhor, ou o diretor da faculdade, ou o reitor da UBA, porque exposta está a opinião de quem viu o que passou ou dos que souberam do que passou esta noite a três quadras de casa.

Até onde alcanço conscientemente a mim mesma, não condeno o sexo. Bem longe disso. Nem pretendo me manifestar com falsos moralismos. O que é preciso estar claro é a função de uma universidade, o que está pactuado socialmente. E creio que uma programação deste naipe não se enquadra, no mínimo. É isso que me impressiona.

O rompimento de limites, seja à Constituição, seja às práticas acadêmicas, também cumpre papeis importantes em muitos casos. Mas que não são bem estes que estamos presenciando em dias recentes.

Está aí o caso do jogador Java que dedou literalmente Cavani, na Copa América deste ano, agregando a isso a provocação de que o adversário deveria estar nervoso porque seu pai iria apodrecer na cadeia, referindo-se ao acidente automobilístico que tomou a vida de um ciclista. Isso cabe?

Tanto a votação da maioridade penal e quanto a programação posporno já ocupam os TT´s e a reflexão sobre os temas são muito válidas, para além das piadas que circulam inevitavelmente.

Queremos mudar os sistemas? Queremos novos conceitos e práticas de convivência? Jóia, vamos lá. Mas que os mudemos primeiro, antes de estuprar o modelo vigente.

sábado, 27 de junho de 2015

A Pietá de Bailique

Bailique fica nos cafundós do mundo: acima da linha do equador, na curva do rio Amazonas com o Atlântico. Lá mora Jesus, 14 anos, filho único de um casal em perfeita harmonia. Em lua de quarto-crescente ele saiu escondido da mãe para caçar com a espingarda do pai, que saíra para pescar. Jesus não sabia que na escuridão da mata o ponteiro da hora não se mexe. Ainda ignora prestígio de homem e sedução de caçadores vis.
A mãe despertou cedo, viu a floresta ganhar seus matizes da aurora sem as cores de Jesus na sua rede. Ao dar por falta do menino achou de ir procurar abrindo picada pela mata fechada. Avistou o filho ensanguentado na cabeça, com respiração ofegante e desacordado-quase-morto, próximo a um córrego onde Catitus lambiam o sangue diluído na água. Disparo acidental, pensou. Aos berros, clamou pela vizinhança. Acudiram-na, colocaram no barco a motor e partiram no prumo de Macapá.
A viagem durou 12 horas. A mãe por todo tempo apoiou o filho no colo, feito a Pietá de Michelangelo, e se desesperançou ao ver que a paisagem se desbotava a cada hora carcomida pelo barulho do motor. A extrema-unção lhe parecia chegar antes daquele cais.
Era boca da noite quando aportaram e foram direto ao centro cirúrgico para abrirem-lhe o crânio e expurgar coágulos e estilhaços. A operação varou a noite.
Após três longos meses em CTI, Jesus desperta milagrosamente, porém com sequela respiratória. Aí que entramos na história.
Chegamos com dois palmos de paciência, pois Jesus tornou-se agressivo e a mãe-Pietá via-se deprimida diante daquela respiração estridente e aquele estranho cano de plástico no pescoço, por onde respirava. Disse-nos que até suicídio ele tentou, pois certa noite foi encontrado dependurado na janela do hospital. No outro dia mãe-Pietá estava chorosa, querendo abandonar tudo e pegar o rumo de casa, pois saiu sem se despedir do marido e já achava aquilo tudo um milagre dos céus.
Confessou-me que um douto disse que só restaria usar prótese importada ou manter a traqueostomia, pois o caso era perdido. Pedimos que ela revisse com carinho e tomasse a melhor decisão para enfrentarmos o desafio de corrigir, a bisturi, o estreitamento da traqueia, caso contrário, nunca mais Jesus poderia mergulhar no rio, dado o risco de entrar água pelo cano do pescoço e afogar os pulmões. Diante do exposto, a mãe ficou reflexiva...
Depois da confiança depositada em suaves prestações, acabamos realizando a operação e, apesar de algumas pequenas reintervenções endoscópicas - algumas delas com fortes emoções - Jesus ficou bem e teve alta no 15º mês. Isso mesmo: um ano e três meses. Ele passou dois aniversários no hospital.
Antes do regresso a mãe tirou fotos de um celular emprestado. Eu e ele fazíamos pose para comemorar: Era sina de Jesus e Pietá e a minha frágil sensação de servirmos para alguma coisa.
Depois de dois anos eles retornaram ao ambulatório. Quando o reencontrei, confesso, não reconheci. Jesus estava bem mais taludo. Segundo a mãe, por conta do açaí: “fruta santa, fruta mártir”, nos dizeres do poeta João Gomes. Deram-me um abraço com dose extra-forte de emoção e músculo. Jesus voltou a caçar, pescar, tomar banho de rio e até trepar no açaizeiro com peconha. Numa pescaria foi mordido por arraia, perdeu-se no caminho de volta e quase mata a mãe de susto.
Pietá disse-me ainda que, durante aquele suplício, o marido se enrabichou com uma “pequena” da outra banda da ilha e pôs fim à família, pois ninguém naqueles confins de mundo acreditava na ressurreição daquele menino Jesus.

terça-feira, 23 de junho de 2015

Um coração "assim" de grande


Um coração "assim" de grande

Existe muito a questionar sobre o modelo de ensino que adotamos e que parece falido. A propaganda argentina não só me deixou emocionada, como me levou a pensar em tantas repercussões que podem ter na vida cotidiana essas escolhas que estruturam a sociedade.

Como se chega a casos como o da jornalista Joice Hasselmann que, de acordo com o sindicato paranaense, plagiou mais de 60 matérias? Cumpriu suas obrigações escolares e acadêmicas. Atuou em grandes meios de comunicação do Brasil. Chegou lá! Chegou onde? A uma prática repulsiva de, no mínimo, desrespeito aos colegas de profissão, pra não citar a infração ao código de ética e ao crime contra direito autoral.

Duvido muito que o caso dela seja uma exceção. Menos ainda que trajetórias de má fé sejam raras. Mas obviamente não acredito que a única responsável por estas condutas reprováveis entre nós seja a escola, ou qualquer outra instituição formal de ensino.

Existem iniciativas neste âmbito que são louváveis. Aí está o Peru na busca de incluir o idioma quéchua nos níveis primário e secundário em todos os colégios, sejam públicos ou privados.

Creio, no entanto, que o melhor mesmo é o exemplo de comunidades que não se valem desse modelo de ensino formal a que estamos acostumados, e que nos apressa, e que nos tolhe as virtudes, e que nos subordina ao mercado de trabalho, e...

Quando me mudei para Argentina, justo para dar continuidade à minha formação acadêmica e talvez ganhar um espaço melhor no mercado de trabalho e de construção de conhecimentos, vim com minha filha. À época, ela tinha seis anos e não sabia nenhuma palavra em espanhol. Pensei sinceramente em mantê-la fora do sistema educacional comum. Cheguei a dar os primeiros passos nessa direção. Estou segura de que ela não sairia perdendo em nada. Poderia aprender muito na convivência com outras pessoas do seu cotidiano, habitar diferentes espaços, escolher o que fazer, na hora que lhe fosse aprazível. Até poderia depois ir à escola.

A voz da encantadora Elis Regina ecoa muitas vezes em mim e penso que só quero uma casa no campo, onde possa tocar muitos roques rurais. Viver simplesmente.

domingo, 21 de junho de 2015

A encíclica médica

American Hearts II, Alfred Gorckel

No hospital onde exerço a docência, todo ano os novos residentes são convocados para pagar, com seu primeiro mísero salário, almoço para os mais antigos. É uma espécie de trote. No final, cada um fala sobre o futuro. Nemésio, um veterano de 32 anos, queria mesmo era falar do passado.
Com um sotaque carregado no nheengatu e beirando metro e meio de altura, contou que, ao receber o canudo voltou para Cametá para praticar seu sacerdócio e escrever sua encíclica profissional. Conseguiu emprego no único hospital da cidade, com parcos recursos. Ficou prosa por ser nativo.
O primeiro mês foi, sem dúvida, o mais doloroso. Ainda sentia no rosto a purpurina da festa de formatura ao mesmo tempo o pão insosso do futuro incerto. Até o dia de receber o primeiro salário, e sentir-se valorizado, ainda se via estudante caminhando descalço sobre um paiol de pólvora.
Contou-nos que em certo plantão recebeu uma criança procedente de uma comunidade ribeirinha, com tiros de cartucheira desferido acidentalmente no peito e barriga. A radiografia torácica era normal, mas a do abdome foi detectado um projétil bem no centro. A criança de apenas ano e meio foi encaminhada para o teatro de operações com sinais vitais normais.
Antes de começar, com muita dificuldade, Nemésio conseguiu pegar a veia profunda que passa abaixo da clavícula esquerda, do mesmo lado atingido. Após a quinta tentativa conseguiu progredir o cateter, porém, pela urgência e perda de tempo ocorrida, correu para se preparar e auxiliar na operação do abdome. O inventário mostrou pequeno ferimento no intestino delgado, o qual foi prontamente reparado. Previsão de bom prognóstico.
No final da operação o anestesista alerta que, mesmo tomando toda aquela medicação, soro e sangue, o quadro estava piorando sem razão aparente.
O garoto foi para a enfermaria cansado e de fôlego encurtado. Três horas depois desenvolveu parada cardíaca, morrendo no meio da madrugada.         
Nemésio deu a notícia aos jovens pais, ainda adolescentes. Detalhou os passos evolutivos e recebeu um abraço condolente e emocionante, sem poder detalhar a causa mortis
O resultado da necropsia saiu no meio da manhã: pulmão colabado e o peito cheio de líquido, levando a entender que o cateter estava fora da veia e todo aquele conteúdo, que deveria melhorá-lo, acabou colaborando para aquele desfecho.
Nemésio chegou a sua casa, trancafiou-se no banheiro e começou a rezar. Suas lágrimas se misturavam com a água do chuveiro. De boa fé, como são todos os jovens médicos, não demorou muito tempo para entender que aquele anjo lhe serviu para reluzir o fogo da inquietação.
Nemésio resolvera deixar aquele interior após seis anos de trabalho árduo, carregando aquela história farpante e dois dedos de frustração. Depois do episódio resolveu juntar dinheiro, arrumar as malas e rumar para Belém acenando pela foz do Tocantins. Já havia se casado e constituído família. Deixou a esposa com dois filhos - um de colo – e seguiu atrás de reaver seu passado, com a certeza de voltar e reescrever sua encíclica.

Indagado sobre o seu maior aprendizado, ele entoou: eu trocaria esse prato de comida e todos os que vierem nesse período de residência pela vida daquele Querubim, porque não há tortura pior do que assistir a uma morte evitável; por isso estou aqui.

Labareda, do bando de Corisco.

domingo, 14 de junho de 2015

Morre o poeta da esquina

Do corpo desse meu irmão que já se vai
Revejo nessa hora tudo o que ocorreu
Memória não morrerá
Fernado Brant, em Sentinela (parceria com Milton Nascimento)

Já não sonho, hoje faço, com meu braço, meu viver. A mensagem do Mario Rocha e João Pinheiro, velhos amigos, e Sizenando Starling, cirurgião e amigo belorizontino, alertavam-me que Fernando Brant, um dos fundadores do Clube da Esquina, acabara de falecer após submeter-se ao segundo transplante de fígado.
Eles sabem de minha admiração por Brant, por isso me alvejaram. Então corri para minha estante na busca de Casa aberta (2011), adquirido na feira pan-amazonica do livro. Abri numa página qualquer: “Um punhal nos rasga o fundo no peito quando um amigo desse quilate é obrigado a nos deixar”. Percebe-se que a condoída frase descreve a partida do amigo Veveco, da musica “Veveco, Panelas e Canelas”, parceria com Milton Nascimento, entoada na voz de Beto Guedes. Tavinho das Panelas e Chico da Canelas eram outros dois amigos homenageados. Brant guardava os amigos dentro do peito e nas entrelinhas de suas obras. E nós o guardamos nas lembranças dos tempos das batidas de violão pelas esquinas da Belém dos anos oitenta.
Neste 12 de junho, Veveco, vestido de branco, recepcionou Brant no andar de cima. Ele agora se senta ao lado de Vinicius, Tom Jobim e tantos outros compositores de nossa esplendorosa MPB. Só que Brant carrega com sua trupe a insígnia do Clube da Esquina, movimento musical surgido nos arredores de Belo Horizonte, paralelamente à Bossa Nova, no contraponto da Jovem Guarda e Tropicalismo. O som dos “mineirin” se fundia com as inovações da Bossa Nova e continha elementos do jazz, rock – principalmente os Beatles– e pitadas da música folclórica dos negros mineiros.
Aconteceu que as letras enternecedoras do Clube da Esquina falavam de amizades, infância de rua, juventude e as ladeiras das alterosas. Brant foi o principal letrista desta esquina repleta Wagneres, Miltons, Lôs, Betos, Toninhos e Flávios, que se rendiam à sua poesia.
“Casa Aberta”, o livro que me chamou atenção logo na capa, é fruto das crônicas do jornal Estado de Minas e mostra a face literária de Brant, como relendo Sêneca diante de um copo de cerveja, no Leblon. Depois não despista quando fala de suas inspirações: Cecilia, Bandeira, Cabral, Lorca e Pessoa. Mas é em Drummond que ele se farta. Tavinho Moura foi outro parceiro em Fogueira do Divino, musical que fala de nossa história e de nossas belezas: a vida é um rio de sangue, óvulos e sêmen que vai dar no mar que pode ser um povo, uma nação, uma cultura. Finaliza: Montani semper liberi, ou seja, Minas: os montanheses serão sempre livres, referindo-se ao Brasil das montanhas, onde fervia o ouro no século XVIII e a escassez de liberdade. O livro é para se ler comendo pão de queijo.
Mas a música é o expoente maior de Brant. Fez letras com as cores de seu país, sem deixar de ser universal, como em Travessia e Coração de estudante. Presenteava-as a Milton como se fosse um singelo aperto de mão numa manhã de domingo pelas ruas de Santa Teresa, onde nasceu o Clube da Esquina.

Brant fez a travessia na certeza que amigo é coisa para se guardar debaixo de sete chaves, nos moldes da capa de Casa aberta. No seu túmulo estaria epigrafado: toma conta da amizade.

domingo, 7 de junho de 2015

Cesta do enfraseamento: a insignificância do perdão

                  A humanidade começa nos que te rodeiam e não exatamente em ti.
Valter Hugo Mãe, escritor angolano, em: “A desumanização

Já se era Lisboa, descida do castelo de são Jorge, no fluxo dos vagões que bucolizam a velha capital lusa, por onde transeuntes se misturam com turistas e se esbarram pelas calçadas estreitas. Na descida já se tinha uma ideia do que se enfrentaria: um calor de tostar o toutiço. para isso, nada melhor que um gole da Sagres para equilibrar o pH de um flaneur.
No caminho a noticia do jornaleiro: "mãe é presa por deixar dois filhos em cativeiro por oito anos."
Então paramos eu e Charles Dickens no primeiro quiosque, ao pé da ladeira, sob a sombra de uma árvore frondosa. Pagamos um euro por cada copo e sentamos. A cerveja descia suave, a relembrar o alentejano da noite anterior harmonizado com bacalhau lá pelas curvas da Marquês de Pombal.
Estávamos degustando e já ensaiando maquinalmente o segundo pedido quando subitamente sofremos um duro golpe: alguém bate na mesa, tomba e a cerveja é nocauteada antes do gole final. Fora um miúdo de cerca de 10 anos de idade que involuntariamente deu a cotovelada na mesa e gerou o pequeno acidente. Nada demais pelo ato em si, mas a mãe aturdida e sem umbigo disse ao miúdo, no sonoro português de Portugal, que conversaria em casa sobre aquele estorvo. Ela ameaçava-o vorazmente apontando dedo no rosto. Deu-nos a impressão que o exército de Salazar fuzilaria aquele garoto. Ela não percebia que ao pé do castelo o terreno é íngreme e o piso irregular. Qualquer movimento seria capaz de causar incidente.
De imediato a garçonete, uma rapariga loura, de pele clara, rosto e nariz afilados, sugerindo traços do leste, juntou os copos e dispôs-se a nos repor, com juros altos, os decilitros que regaram o solo. Retornou com o copo cheio. Claro que aceitamos, ora-pois, além da gratuidade, afinal de conta, já estávamos partindo para o segundo tempo e a sede ainda não havia preenchido o imenso esforço de conhecer a história dos mouros e o castelo de são Jorge, sob aquele calor que mais lembrava o dos trópicos. Sentamos e cumprimos a segunda etapa sem direito à prorrogação. Charles me chamou a atenção que a rapariga se sensibilizou mais com a perda líquida do que pela reação vaporosa daquela mãe.
Depois descemos no rumo do Baixo-Chiado com a certeza de que vira um relâmpago saindo daquela mãe. No caminho voltamos a repensar sobre a atitude da mãe, punitiva com o filho e menos incapaz ainda de nos pedir desculpas. Pensamos que fizesse parte do comportamento do lugar, pois acabavam de se noticiar que certa mulher havia enclausurado seus filhos. A foto do jornal escancarava a mãe na viatura da polícia, enjaulada.
Seria a vida uma luta de todos contra todos? Parecia-nos, pelo menos por aquela conjunção de momentos mouros. Mas como se desenrola essa luta numa sociedade mais ou menos civilizada, com a vertente europeia? As pessoas não podem atirar uma bala de fuzil contra outras, mas aquele momento me pareceu provável, mesmo tendo uma criança na linha de frente. Lançou-se, ali, sobre o outro, o opróbrio da culpabilidade. Vencerá aquele que conseguir tornar o outro culpado? Perderá quem confessar o erro?
Seguimos pela rua mergulhados em pensamentos inconsoláveis, tentando entender o que nos pareceu incompreensível; ou confirmando que cada ser humano é o decalque do segundo o qual fora concebido por sua mãe. Caminhando na direção da razão (ou para Santiago de Compostela), ainda cruzamos com a garçonete, como se estivesse sozinha no mundo, sem olhar para esquerda ou direita, nem para o cérebro ou o coração, preocupada apenas com os decilitros derramados.
Dickens me confessou que foi a partir dali que criou Oliver Twist. Para mim, a partir dali, meu pensamento ficou perdido numa rota imprevisível rodeado pela insignificância do meu perdão.

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Falta uma luz no Tribunal de Justiça


Manifestante levanta cartaz do Tribunal ao Obelisco. Foto: Erika Morhy

Nada impediu. Nem o ato da presidente Cristina Kirchner, nem o jogo River x Cruzeiro. O escracho contra juízes que aliviaram condenação a um violador de criança de seis anos por considerá-la gay se manteve firme desde as portas do Tribunal de Justiça, em Buenos Aires, até o turístico Obelisco.

Os argumentos tórridos de Horácio Piombo promoveram uma avalanche de críticas de diferentes setores da sociedade e por todos os meios de comunicação se viam ataques e contra-ataques. Pois sim, como se ainda houvesse argumento para uma decisão deste calibre.

O grupo era pequeno às 19h e se ampliou um pouco mais até às 20h, quando deslanchamos a marcha, ainda que no grupo de facebook criado para organizar a ação tivesse quase duas mil pessoas confirmando presença.


Concentração na frente do suntuoso prédio do Tribunal de Justiça. Foto: Erika Morhy

Pelo que cheguei a entender sobre escracho, ele ganhou forma e força com o fim da ditadura argentina e se exigia o julgamento de militares e civis cúmplices do sistema. A ideia, encampada principalmente por jovens, era reunir os que estavam dispostos a fazer barulho numa caminhada até a casa dos ditadores e dar visibilidade à cara dos impunes. Pregavam cartazes com o rosto do alvo e distribuíam volantes na vizinhança e praças. Ou seja, não era necessário muita gente no escracho, porque a proposta era dar visibilidade aos envolvidos na ditadura, que ainda andavam incólumes mesmo depois do início da democracia.

A marcha foi um pouco de escracho e deverá ganhar mais força com as próximas agendas. Digo "um pouco", porque os juízes não moram na capital, então não houve este elemento constrangedor; o grupo tinha apenas suas vozes para entoar gritos de guerra, sem instrumentos comumente usados nas manifestações de rua. Mas as repercussões já têm resultado em baixas aos juízes Piombo e Benjamín Sal Llargues. Os dois são professores de Direito em faculdades argentinas, mas, depois do imbróglio, ambas já anunciaram o fim da contratação tanto de Piombo quanto de Llargues . Os dois também passarão por juízo político a pedido de duas organizações LGBT e já provocaram a manifestação de órgão das Nações Unidas, que pede a criação de um programa de capacitação contínuo para operadores do sistema judicial.


Os cartazes do ato foram, por fim, pregados no tradicional ponto turístico, o Obelisco. Foto: Erika Morhy

Particularmente, fiquei chocada e indignada com os argumentos usados pelos juízes, que revitimiza a criança, e mais ainda com o fato de saber que são professores de Direito, são duas criaturas que formam opinião e que podem estar consolidando entre os alunos formulações atrozes, capazes de alimentar um ciclo de violência.

O caso, lamentavelmente, reforça a necessidade de medidas drásticas, porque é apenas um dos vários delitos descritos na ficha corrida de ambos.



Falta, falta uma luz ao Tribunal.

quarta-feira, 13 de maio de 2015

De Leste a Oeste e o ócio criativo na tela

Los Lunes al Sol e Las Mujeres de Verdad Tienen Curvas são duas películas que, a principio, não têm nada a ver uma com a outra, mas eu me aventuro a buscar suas semelhanças e sugerir ao leitores do blog que as assistam.

O primeiro é uma produção espanhola de 2002. E dentre os elementos reflexivos e sensíveis contidos no roteiro, está a realidade de um sistema capitalista falido, que sangra os trabalhadores urbanos e aumenta a fila do desemprego. Emerge a decepção do homem que precisa sobreviver da renda da esposa e que alimenta seus dias à base de álcool e da companhia do pequeno círculo de amigos que amargam situação semelhante e a coloca na barra do mesmo bar. O mais idoso não segura o tranco. E não se sabe o que o destino reserva aos demais. Ainda sem os holofotes hollywoodianos, Javier Bardem é uma espécie de protagonista do filme e manda bem seu recado.

“Las mujeres” passa bem perto, além de também ser de 2002. É norte-americano, que se desenrola desde um núcleo familiar mexicano que vive em Los Angeles. As poucas costureiras de uma mesma fábrica produzem vestidos a preços de banana e são vendidos a quem os repassará a peso de ouro - conhecemos bem isso na Amazônia, por exemplo. Questionar essa regra é inaceitável para as senhoras tradicionais, que depois aprendem com a mais jovem - ansiosa por seguir seus estudos - que deveriam dar mais valor ao seu trabalho e aos seus próprios corpos, bem maiores que os números dos vestidos que produzem. Drama e comédia de uma só vez, posso dizer que acho a jovem Ana uma garota valente, ainda que eu não tenha as curvas como as dela. E, não, não canso de repetir que meu talho delgado não é opção! Essa danada da genética...

O debate sobre as formas dos corpos, em especial os corpos femininos, continua vigente. Assim como a lógica da acumulação desmedida do capital, o machismo e como lidar com tudo isso.

Aliás, acrescento que a Argentina divulga a hastag #NiUnaMenos para convocar marcha contra feminicídios que disparam no país. O ato está marcado para o dia 03 de junho.

Recomendados os dois filmes.

domingo, 10 de maio de 2015

Vem dançar comigo

Porque hoje é sábado!
Set exclusivo para os meus amigos (as) e fãs da melhor música dançante do mundo. 
– Vocês merecem o meu melhor!!!
Direto da base de lançamentos de Brasília para você dançar, malhar… enfim, aproveitar a vida. 
– Bom final de semana.

terça-feira, 21 de abril de 2015

Façam suas apostas!

Marcha inicia de costas para o monumento a Roca. Foto Erika Morhy

Em uma histórica concentração de centenas de pessoas capitaneadas pela 1ª Marcha de Mulheres Indígenas pelo Bem Viver, na Cidade Autônoma de Buenos Aires, ficou para trás o monumento em homenagem ao polêmico Julio Argentino Roca. Quem vê as notas de cem pesos que ainda circulam na Argentina talvez não tenha ideia dos motivos de povos originários rechaçarem tanto quem foi duas vezes presidente do país, ministro, senador e, sobretudo, o militar responsável por batalhas sangrentas em territórios patagônicos onde habitavam indígenas.

O calor era de outono e por isso talvez não tenha pesado tanto sobre os ombros de quem fez o percurso até o Congresso Nacional no início da tarde desta terça-feira (21). A dirigente mapuche Moira Millán lembra que, desde a segunda metade do século XIX, quando Roca comandou invasões a territórios indígenas e mulheres e crianças que sobreviveram foram distribuídas entre famílias como restos de guerra, populações inteiras continuam a ser massacradas. Ainda que não seja a ferro e fogo, a pressão e a pilhagem contra as nações permanece pela exploração econômica fulminante dos recursos naturais, base da cultura dos povos originários. Moira reitera que atualmente estão de pé 36 nações indígenas, de norte a sul do país.

Várias crianças fizeram parte da manifestação indígena. Foto: Erika Morhy

A tensão entre divergentes permanece, ainda que com outras estratégicas e táticas. As primeiras incursões de Roca à Patagônia eram compostas de militares, para o domínio pela força bruta; de sacerdotes, para o domínio ideológico; e cientistas, para a garantia da qualidade da terra. Desta vez, são indígenas que chegam aos domínios do capital. Chegam de mãos dadas a referentes de causas dos direitos humanos, como Nora de Cortiñas, presidente da organização Mães da Praça de Maio – Linha Fundadora.

Moira Millán anima a marcha ao lado de Nora de Cortiñas. Foto: Erika Morhy

As mulheres indígenas chegam e chegam semanas antes de disputas internas de alguns partidos e num ano onde reinam as negociatas em prol das eleições. Desafiam que cada um mostre a que interesses servem e se têm agora a coragem da aprovar o projeto de lei que elas propõem, a fim de criar o Conselho das Mulheres Indígenas.

Congresso Nacional recebe indígenas e suas bandeiras multicoloridas. Foto: Erika Morhy


Tudo tão semelhante ao Brasil...
Façam suas apostas!

sábado, 18 de abril de 2015

Entre Guamá e o mosteiro de Santa Luzia, um transplante no meio do caminho

Falamos para nos vermos,
para nos ouvirmos, 
para sermos instante e infinito
Abel Sidney, poeta

Estávamos escorados na sombra do mundo, sob a aba de um Jatobá, quando ouvimos o chamado do tio: abandonar aquela vida interiorana e ganhar a imensidão da capital. Justificou que a infância tinha findado e já era tempo de estudo na cidade grande. Não poderíamos ficar mais ali a ver barquinhos, sabendo desse tio que morava em Belém e que estaria disposto a nos albergar por uns tempos, até tomarmos o próprio rumo e passarmos a ver navios.

Pegamos ônibus de Ji-Paraná até Porto Velho, varando a floresta. Lá amanhecemos, fomos para um hotel de trânsito do Basa, descansamos, almoçamos e depois pegamos um DC-3 até Manaus e pousar em Val-de-Cans, ao anoitecer. Tudo numa cipoada só.

No aeroporto tratamos logo de selar amizade com Juarez, hoje anestesiologista, moço que carregava simplicidade e compaixão de doer o dedo mindinho de Cristo. A partir dali nos apresentou para uma patota do Jardim Ipiranga e tudo virou festa, principalmente quando o assunto era futebol.

Depois dessa primeira turma de amigos, outra que marcou foi a da faculdade de Medicina, de 1982-87, que só acabou quando viajei de vez para o Rio de Janeiro.

Desta fase lembro, ainda no ônibus, a descida no Guamá. No caminho me esbarrava com a Anete (que abandonou o curso), Marília, Julinha e tantos outros que a memória definhou e me passou sarrafo. Junto íamos regando amizades como se regássemos crisântemos. Depois dos dois primeiros anos começamos a frequentar o “mosteiro” de Santa Luzia e a Santa Casa, e a relação ficou mais prazerosa até o sexto ano.

Na biblioteca, em torno da cantina ou nas salas do Matadouro buscávamos a pedra filosofal escondida nos segredos hipocráticos, entre as paredes da faculdade. Max, Zé Pedro, João Carlos, Raynaud, Sergio Lima e Humberto foram meus maiores parceiros de livro, mas sempre que podíamos, entre uma aula e outra, programávamos os feriados - desde que o toc-toc das provas não reverberasse na porta da segunda-feira.

Também colecionamos diversas histórias, como por exemplo, o convívio com o jubilado Fernando Arara, que chegava com aquele violão empenado e uma gaita enferrujada cantando Blowing in the Wind, no mesmo tom e harmonia de Bob Dylan. Ainda tinha o Felipe e o Peruquinha, figuras que destoavam no liceu, mas que carregavam paz no fundo de suas retinas.

Mas o que nos fortificou mesmo foi o final, depois daquela noite no teatro da Paz, quando entoamos “Rosa de Hiroshima” e nos despedimos do Prof. Camilo Viana. Depois vieram reencontros, lembranças das greves, abertura política e “diretas já” com Fafá de Belém, Tancredo Neves e todos cantando “Coração de Estudante” pelas soleiras da Generalíssimo.

Hoje somos cinquentões e 1987 ficou na estrada do sentimento amarrado na cordoalha tendinosa daqueles tempos idos. Alguns ficaram pelo caminho e abandonaram o curso, como o Zeca Pimentel e a Anete, outros foram forçados precocemente a ir pro segundo andar, como a Claudia Abe, Haroldo e o Altair.

Afora as avarias do tempo, estamos muito bem vivos e sempre nos encontrando nos embalos das redes sociais. Neste fim de semana, por exemplo, a Fátima resolveu comemorar seus cinquenta tons de vida e convidou a turma. A presença foi massiva. Alguns vieram de longe, como o Mário Rubens e Socorro “Help” Amoras (SP) e Sued (MG). O outro bando foi daqui mesmo. A Fátima, que dia desses recebeu uma medula óssea por transplante, merecia comemorar com essa turma que, durante o tratamento, fez figa e orava na basílica de Nazaré, para que, com muita fé, ela voltasse a viver e nos encontrar... E voltou... e nos reencontrou.

Vez por outra vou ao velho casarão de Santa Luzia e sempre me vem uma passagem machadiana: “Lá não via ninguém, mas é certo que a sala [de aula] estava cheia de espíritos, repimpados em cadeiras abstratas”.
Labareda, do bando de Corisco

Há um lugar de onde não se volta

Sua forma de ser obedece sua origem humilde. Esta palavra, meditei muito para dizer. Inclusive eu a tinha escrito. Tirei. Voltei a escrevê-la. Tirei de novo. Por fim, deixei – Raúl Castro, presidente de Cuba, referindo-se à Barack Obama, dos EUA. Depois dessas palavras, Castro teve um acesso de tosse.

Enquanto indígenas lembram a parlamentares que seus direitos estão sendo violados. Enquanto militantes partidários reclamam a falta de uma justiça equilibrada. Enquanto trabalhadores exigem um tratamento decente por parte de seus patrões. Não mais nem menos importante que os brasileiros e seus ideais, dirigentes de países da América e Caribe exercitam colocar os pingos nos is, como se pode ver, nos dias 10 e 11 de abril, durante a VII Cúpula das Américas, realizada no Panamá.

Eu sinto muito, na verdade lamento profundamente que não seja possível a qualquer cidadão ter acesso à íntegra de reuniões como essas, onde ficam também muito claros os motivos de cenários do nosso combalido cotidiano. A mídia ainda nos deve essa.

Modestamente, posso dizer então que me sinto privilegiada por, minimamente, ter acompanhado parte dessa agenda, ao vivo, da sala de casa. E depois recuperar, pela internet, momentos da agenda que havia perdido. Revi alguns. Consegui escutar o discurso de pelo menos dez presidentes na plenária. Eram em torno de 20, pelas minhas contas. Triste foi ver algumas das repercussões midiáticas. Seletividade mais asquerosa.

Claro que achei ótimo que o presidente Raúl Castro pudesse levantar a bandeira de Cuba pela primeira vez na cúpula. Uma etapa da história que a nação conquistou depois de muitas décadas de luta frente aos que se supõem donos do mundo. E apesar de reconhecer a relevância da aproximação pacífica com os Estados Unidos, não titubeou em fazer as críticas devidas. E elas foram onipresentes. Saíram de quase todos os lados em uma só direção. E isto me regozijou, sim.

Enquanto Raúl Castro falava, por cerca de 50 minutos, Barack Obama, no cume de sua soberbia, mascava chiclete e folheava uma brochura. “Uma coisa é estabelecer relações diplomáticas e outra, é o bloqueio”. Muitas águas ainda vão rolar nessa pauta que virou a menina dos olhos da imprensa internacional.

Na véspera da plenária, o presidente Nicolás Maduro visitou El Chorrillo, bairro panamenho sacrificado pelos testes bélicos dos EUA, em 1989. O sangue já foi derramado e a única manifestação do mandatário norte-americano à época foi dizer que não sabia que o bairro era invisível aos seus radares... Uma aberração. Desculpem ter que contar isso pra vocês. Eu sei que faz um mal danado pro fígado.

E é justamente a Venezuela que agora está na mira dos EUA. Como disse Raúl Castro, passa pelo mesmo que Cuba passou, ou quase o mesmo. Para Evo Morales, presidente da Bolívia, se os Estados Unidos têm tanto poder, poderiam aceitar liderar um processo de paz no continente, ao invés de promover mais atritos nas relações entre os países. Particularmente, não sei se Obama tem interesse. Chegou a oferecer ajuda a Cuba, quando deveria ressarcir os cubanos, como bem disse Evo. Sinal de que continua vendo à sua volta apenas súditos.

Maduro foi incisivo, como não podia deixar de ser: Nunca bombardeamos, nem assassinamos nenhum povo do mundo, por isso temos orgulho de nossa história! Mais um contra-ataque à Obama, que, de tanto ouvir sobre a vilania provocada por seus antecessores e por ele mesmo, chegou a dizer que não queria saber da história, que lhe importava o futuro. Agora encho a boca pra dizer: levou um baile de todos os seguintes mandatários por esse desapreço que manifestou pela história.

Rafael Correa, do Equador, Tabaré Vázquez, do Uruguai, Dilma Rousseff, do Brasil. Estes também partiram pra cima do Obama, contra o decreto do Executivo aprovado no último dia 9 de março, que considera a Venezuela um país ameaçador para os norte-americanos. Mas devo admitir que bonito mesmo foi o discurso de Cristina Kirchner.

Como os demais presidentes, a da Argentina não se limitou a apoiar Maduro. Começou dizendo que era preciso haver sinceridade naquele encontro, ou seriam necessários milhares de outros e não se chegaria a lugar algum. E neste momento começou a questionar, afinada às pautas elencadas pelo próprio evento, o narcotráfico e sua relação de sobrevivência. Cristina enfatizou que este não era um problema apenas dos países consumidores, porque não são esses exatamente os mesmos países que produzem as drogas. Onde se lava o dinheiro do narcotráfico?, perguntou. Concluiu afirmando que é na América Latina que ficam amontoados os mortos e as armas.

Cristina destacou ainda que, assim como Venezuela não é ameaça alguma para EUA, Argentina tampouco o é para a Inglaterra, esta que faz questão, há décadas, de ter seu quinhão na América Latina, tendo domínio sobre as ilhas Malvinas.

Devo concordar com a peronista: há um lugar de onde não se volta, e este lugar é o ridículo.

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Quem compreende espanhol, pode assistir cada discurso e ver uma série de matérias pela internet. Agências como RT e TeleSur dispõem os vídeos integralmente.

Deixo este link pra tentar facilitar a busca.