segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Clarín: agora só falta você

A queda de braço não está fácil. Com o grupo Clarín, em especial. Todos os demais grupos de comunicação da Argentina apresentaram seus planos de adequação à nova Ley de Medios. Menos o Clarín. O prazo para a entrega venceu dia 7 de dezembro. Mas o Clarín apostava na Justiça! A Justiça, no entanto, não lhe foi muito favorável, garantindo que a lei é, sim, constitucional, dando um banho de água fria no grupo, que detém cerca de 240 licenças de TV a cabo, dez emissoras de rádio e quatro de televisão.

“A Ley de Medios, a partir de agora, obriga o governo a taxar os bens do grupo e licitar as licenças excedentes. Essas licitações e outros mecanismos da lei que permitem o acesso a recursos da comunicação por mais e menores grupos, fortalece a imprensa comunitária, a diversidade de meios alternativos e a produção regional, são instrumentos decisivos para democratizar a mídia argentina” - conforme repercute no Brasil.

A trajetória do grupo Clarín nos dá pistas para tanto sofrimento na perda de poder de seus cartolas.

Eu gostaria mesmo que o Brasil encarasse esse desafio e que as organizações representativas dos operários da informação levantassem essa bandeira. Aposto que seria um passo importante para a democracia brasileira.

sábado, 15 de dezembro de 2012

Memórias da ditadura


Em 1973, nem propaganda de absorvente escapava da fúria dos censores do governo militar.
Quase quarenta anos depois, a pergunta continua no ar: o que pode haver de "afronta à moral e aos bons costumes" no comercial acima, estrelado pela então jovem e promissora atriz Marília Pera?

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

O Libé e os ricos

Sempre digo que o Brasil ainda carrega seqüelas da longa noite da ditadura. Passados quase 30 anos da redemocratização, a imprensa saiu da mordaça política-ideológica de direita  para a mordaça político-econômica ou, talvez o inverso seja mais correto, econômico-política. Tudo é muito dissimulado. A mídia nunca sai do armário, embora vejamos todas as evidências de interesses estampadas nas capas e conteúdos das Vejas, Folhas e outros pasquins do gênero. Em alguns países, apesar das crises ideológicas depois da Queda do Muro e do "fim da História" (aqui na concepção de Hegel), ainda existem claros posicionamentos. A França, talvez seja o melhor exemplo. E isso se liga ao comportamento; Se você vê alguém carregando o jornal Le Figaro, sabe que se trata de alguém conservador, enfim, de direita. O oposto é o leitor do Libération. O jornal de esquerda, por certo, perdeu plumas depois dos anos Mitterand e da descrença nos socialistas. Mas o Libé, como é chamado, se mantém na trincheira, apesar desse lusco-fusco ideológico do século XXI.
O jornal não tem medo de dar a cara à tapa. Anteontem, por exemplo, saiu com mais uma pérola de capa (abaixo):

Gerard Depardieu, o mais famoso e bem pago ator francês é chamado Le Manneken Fisc. Trata-se de um trocadilho intrincado, que tem como fundo o fato de o ator, há pouco tempo, ter se domiciliado no pacato lugarejo belga de Néchin, perto da fronteira com a França. Tudo para escapar do novo imposto sobre fortunas, adotado pelo governo socialista de François Hollande. A capa do Libé refere-se ao Manneke Pis, a famosa estátua-chafariz de um garoto fazendo xixi, um dos símbolos de Bruxelas, a capital belga; segundo, ao fato de que o ator, no verão do ano passado, num dos aeroportos de Paris, foi "convidado" a se retirar de um avião, prestes a decolar para Dublin, porque resolveu urinar no corredor da aeronave. 
Depardieu, com uma renda anual de 2 milhões de euros, junta-se aos 2 mil e 800 milionários franceses que viraram exilados fiscais na bucólica Néchin, escapando da taxação de 75% sobre rendimentos acima de 1 milhão de euros/ano..O primeiro-ministro francês, Jean-Marc Ayrault, classificou a mudança do ator de um atittude patética. E já se fala no Parlamento francês sobre a possibilidade de perda de nacionalidade de Depardieu - aliás Chevalier Depardieu, condecorado com a Légion d'honneur (1996) e com a Ordre national du Mérite (1985), duas das maiores distinções da terra dos croissants.
Riche con
O Libé já havia gritado este ano com a movimentação dos milionários rumo à Bélgica. Em setembro, o "agraciado" foi Bernard Arnaud, o presidente do grupo LHMV (Louis Vuitton Moët Hennessy), a maior empresa de artigos de luxo do mundo - detentora de marcas das champagnes Moët Chandon e Veuve Clicquot, e de grifes, como Dior, Givenchy e Karl Lagerfeld, só para citar algumas.

Arnaud, detentor de 41 bilhões de dólares (a quarta maior fortuna do mundo, segundo a revista Forbes), não somente se domiciliou na Bélgica, como entrou com o pedido de nacionalidade belga. O Libé não perdoou: estampou o mega-empresário na capa com um insulto: Casse-toi, riche con!  (Te cala, rico fodido). A frase é uma alusão a umas das diatribes do então presidente francês Nicolas Sarkozy, registrada em vídeo e amplamente divulgada. Em 2008, numa feira agrícola, no interior da França, um agricultor se recusou a apertar a mão do presidente dizendo: "Ah non, touche-moi pas ! Tu me salis !" "(ah, não, não me toca! Tu me sujas!"), Sarkozy, perdeu a pose e retrucou  "Casse-toi, alors, pauvre con!" ("te cala, então, pobre fodido!").
No affaire  Libé versus Arnaud, o mega-milionário processa o jornal, num caso que pode chegar a até 150 mil euros de indenização.
Ao reagir ao processo, o Libé não perdeu o tom político-irônico com mais uma capa:
"Bernard, se tu voltas, a gente anula tudo".  Mais uma referência a Sarkozy: um SMS que o então presidente enviou à ex-mulher, Cécile, um  pouco antes de casar com a modelo-cantora Carla Bruni.
No Brasil,bem, no Brasil,  as capas-choque não fazem parte da chata e quase monocórdica paisagem mediática.Coisas do jeitinho e da cordialidade verde-amarela.

Bom dia!

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Joan Miró

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Mais dinheiro: Mais Cultura!

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Boa questão!

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Perda do Mandato

Tenho mantido distância desses debates ridículos que glorificam aqueles que votam pela condenação e punições exemplares para os envolvidos no "caso mensalão" e demonizam os que votam pela absolvição. Repudio a classificação estúpida entre "patriotas" e "vendidos". Tento encarar a questão de modo mais objetivo. Contudo, um ponto sempre foi singular para mim: a controvérsia, que a meu ver não deveria existir, acerca da perda dos mandatos de parlamentares condenados.
Na semana passada, mais um dissenso entre relator e revisor da ação penal envolveu justamente esse tema. Ontem, foi o dia de os demais ministros debatê-lo.
O art. 92, I, do Código Penal  é expresso ao determinar que constitui efeito da condenação "a perda de cargo, função pública ou mandato eletivo: a) quando aplicada pena privativa de liberdade por tempo igual ou superior a um ano, nos crimes praticados com abuso de poder ou violação de dever para com a administração pública; b) quando for aplicada pena privativa de liberdade por tempo superior a quatro anos nos demais casos". Os réus do processo em apreço se enquadram nos dois casos.
A tese conveniente é de que o Poder Judiciário não pode determinar a perda dos mandatos porque isso violaria uma prerrogativa do Legislativo, entrando em cena o princípio da independência entre os poderes. Esquecem os defensores dela, entretanto, que ao agir dessa forma, os ministros não estariam fazendo outra coisa senão aplicar a lei e, por conseguinte, respeitar a vontade do legislador, que opera (ou deveria operar) de modo impessoal e atemporal.
Para mim, não há outra interpretação possível: uma vez transitada em julgado a decisão condenatória, a perda do mandato é uma simples consequência desse fato. Remetê-la à deliberação da Câmara dos Deputados é um absurdo por qualquer ângulo que se olhe. Conferir ao parlamento o poder de deliberar sobre o tema implica em facultar-lhes a manutenção dos mandatos. Afinal, porque se ele fosse obrigado a meramente convalidar a deliberação judicial, estaríamos diante de um processo inútil, porque já conhecido o seu resultado, havendo pura procrastinação. Nesse meio tempo, enquanto pende a decisão da Câmara, os condenados não apenas estariam recebendo seus generosos subsídios, pagos pelo contribuinte, quanto votariam nas matérias de maior interesse do país. E eu não quero um político corrupto e condenado em definitivo ajudando a decidir nada sobre a vida do país.
Por outro lado, se entendermos que o Legislativo pode rejeitar a decisão do STF e manter os mandatos, aí sim teríamos a violação ao princípio da independência dos poderes, porque se estaria negando validade a um veredito regularmente obtido.
O problema reside no fato de que o art. 55, § 3º, da Constituição determina que, nos casos de condenação criminal transitada em julgado, "a perda do mandato será decidida pela Câmara dos Deputados ou pelo Senado Federal, por voto secreto e maioria absoluta, mediante provocação da respectiva Mesa ou de partido político representado no Congresso Nacional, assegurada ampla defesa".
Ou seja, se fôssemos analisar a literalidade da lei, realmente a decisão seria do parlamento. Mas além de que precisamos analisar as normas de modo sistemático e não isolado, temos que ponderar as razões antes apresentadas e, particularmente, lembrar o corporativismo cínico que levou à elaboração de uma norma tão maliciosa. Devemos lembrar, inclusive, que deputados federais e senadores eleitos para o exercício de mandatos comuns foram alçados à condição de Assembleia Nacional Constituinte e trabalharam não como cidadãos organizando um país, mas como políticos de carreira de olho no próprio umbigo.
Acima de tudo, deve-se pensar que, se o mandato não for perdido imediatamente, indivíduos condenados por crimes contra a Administração Pública, dentre outros, continuarão em um dos mais altos postos da Administração Pública, mesmo na "iminência" de cumprir uma pena longa, em meio fechado. É absolutamente contraditório e uma violência contra todos os valores de uma ordem democrática.
É isso que dá mandar o cachorro tomar conta da linguiça.
Falta um voto para que a questão seja resolvida pelo STF. O voto será do decano da corte, Min. Celso de Mello, que segundo consta já teria sinalizado pela perda imediata dos mandatos. Espero que pelo menos desta vez eu esteja filiado à tese que prevaleça.

Yúdice Andrade

Como Niemeyer chegou ao entroncamento

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Conto de memória, alguns detalhes podem fugir, mas o cerne da questão não.
Governo Jader Barbalho(1983-1987),  tempos de reconstrução da democracia - a eleição de Tancredo será em 1984. Fatos antes desprezados durante a ditadura, eram então valorizados, como as revoltas nativistas.
Aproximava-se a comemoração dos 150 anos da tomada de Belém pelos Cabanos e Jader Barbalho, advertido por Carlos Roque, resolve dar significado relevante à data.
Até então, em Belém, só existiam marcos comemorativos à derrota dos Cabanos. A rua 13 de maio  ganhou este nome não em comemoração a lei Áurea, mas ao dia em que as forças legalistas retomaram Belém, em 1836. Há, ainda,  um monumento em frente ao colégio Santo Antônio, dedicado ao facínora Francisco José de Sousa Soares de Andrea, o Barão de Caçapava, que bombardeou impiedosamente  Belém.



O ponto culminante das comemorações viria com a  inauguração de  um monumento que revertesse a visão sobre os Cabanos - de bandoleiros, "classes ínfimas", saqueadores-,  para heróis da formação da nacionalidade brasileira.
Foi constituída uma comissão designada por decreto do governador. Pelo que me lembro, era presidida pelo Carlos Roque. E era integrada pela ala "esquerda do governo": Benedicto Monteiro, procurador Geral do Estado; Itair Silva, Secretário de Justiça; José Akel Fares, presidente do Instituto de Arquitetos do Brasil, IAB-Pa; e eu, Flávio Sidrim Nassar,  que havia sido "convidado/indicado" para representar o Departamento de Arquitetura da UFPA. Sinceramente não me lembro se tinha mais alguém. O Manuel Acácio, secretário de Obras?
A ideia era fazer um concurso; e começam as reuniões para discutir como viabilizá-lo. A única voz discordante era a minha;  vinhamos de uma experiência traumática: o concurso do projeto do CENTUR. Mas ninguém admitia nem ousar falar  em outra modalidade de homenagem, os tempos eram democráticos, e o concurso daria oportunidade a todos. Eu, cavaleiro solitário, insistia. Nos bastidores o Akel concordava comigo, mas  na condição de presidente do IAB,  tinha que manter  uma posição corporativa.
Já estavam redigindo o regimento do concurso, e cada vez mais ficava provada a complexidade e a dificuldade deste processo que, como o do CENTUR, não garantia a qualidade do projeto.
Um dia, na hora do cafezinho,  eu acompanhado do Akel,  chamei o Roque para uma janela do palácio Lauro Sodré, onde se reunia a comissão, e falei:
Esse negócio não vai dar certo, tu queres ver uma solução que resolva tudo isso e que ninguém vai ter coragem de reclamar? Sugere ao Jáder de convidar o Niemeyer pra fazer o projeto, pelo tema duvido que ele recuse.
Roque fez cara de paisagem congelada da Sibéria e insistiu:
O Homem quer concurso, vamos fazer o concurso.
A reunião prosseguiu meio sem rumo. Uns 20 dias depois, o jornal mostrou as fotos de Jader e Roque no escritório do ON no Rio.

Não me importa como o Roque passou a ideia ao governador, só sei que a bola quicou na frente dele e .... gooollll
Isso foi o que  pareceu aos sobreviventes da comissão: eu e o Akel.
O outro, é o  Senador Jader Barbalho. Quem sabe, um dia, ele  conte mais detalhes desta história.
O fato é que Belém ganhou um privilégio, poucas cidades no mundo foram tocadas pelas graças deste deus.
A comissão só foi convocada novamente para a inauguração.
Nosso nome constou em placa de bronze.
Para desespero de muitos, coube a Jader Barbalho fazer a mais digna homenagem aos Cabanos,  já realizada no Pará, ao popularizar a palavra Cabanagem. Antes, aquele não-lugar da estropiada paisagem urbana de Belém, ninguém sabia por que, se chamava Entroncamento.


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Flávio Nassar

Navegar é preciso...

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Irã lança 'Youtube persa'


O Irã anunciou nesta segunda-feira o lançamento de um novo site de compartilhamento de vídeos para fazer frente ao americano YouTube, proibido no país.
Batizado de Mehr, que significa "afeto" em farsi, a página é controlada pelo conglomerado estatal IRIB.
O Irã já possui um site com finalidade semelhante bastante popular localmente chamado Aparat, que também é mantido pela mesma empresa junto da rede de TV iraniana Cloob.
O YouTube, operado pelo Google, está bloqueado no país desde 2009, mas muitos iranianos ainda conseguem acessá-lo.
Para isso, eles usam as chamadas VPNs (Virtual Private Networks, em inglês), que são proibidas no país, mas permitem aos internautas navegar sem restrições.
Os vídeos online são muito populares no Irã, mas as baixas velocidades de conexão à Internet limitam o acesso a seu conteúdo, disse o repórter do serviço persa da BBC Adel Shaygan.
"Com essa velocidade, é praticamente impossível assistir a vídeos aqui. Nesse sentido, baixá-los acaba sendo uma alternativa mais eficiente", explicou.
Ainda que não haja estatísticas disponíveis sobre o volume de acessos do Mehr, o Aparat já é o 13º site mais popular do país, segundo o provedor de Internet Alexa.
O Aparat é sediado no Irã e submete-se às leis locais para gerir seu conteúdo, mas possui patrocinadores internacionais, como a sul-coreana LG.
O YouTube foi oficialmente censurado no país após os protestos e as alegações de fraude eleitoral após a reeleição do agora presidente Mahmoud Ahmadinejad, em 2009.
O Google não comentou o lançamento do Mehr. 
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Bom dia!

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Henfil

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Amor

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É curioso o tempo e a mistura dos tempos com o amor. Cada vez mais ele parece desorganizar o mundo dos ávidos pelas certezas amorosas. Mas, e o mundo dos ávidos pelas mudanças amorosas? Há um céu posto em algum lugar. Há um inferno ardendo em um outro. Há o amor eterno. Há o amor  passageiro. Há o amor casual. Há o amor sério. Há o amor masculino. Há o amor feminino.Há o amor homossexual. Há o amor bissexual. Há o amor assexual.  Há o amor que não pode viver sozinho. Há o amor  que detesta os outros. Há de tudo. E há o tempo. Aquele  que serve para dizer se o amor é verdadeiro ou falso. Aquele das bodas de ouro, de prata, de diamante. Há o amor da fé. Há o amor pela ciência. Há o pela droga. Mas há quanto tempo? É  amor? Mas há quanto tempo? Curioso! Um pedra: quanto tempo? Um amor? Quanto tempo? Mas já separaram? O tempo do amor: e o da pedra? Qual mais amorável? Quanto tempo, o amor verdadeiro? Quanto tempo acaba o amor? E se Eu morrer, como fica o amor? E se o amor matar, onde fica o amor? E se for jovem, o amor? E se for velho, o amor? E se for belo? E se for feio? E se não for nada daquilo, o  amor? E se for torto? E se for enviesado? E se for louco? Qual o tempo do amor? Quanto tempo, o amor?


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Achados e perdidos


“Somos aquilo que lembramos.”

“Somos aquilo que lembramos e aquilo que esquecemos.”
(releitura feita por Ivan Izquierdo)


Pouco entendemos sobre o real mecanismo pelo qual adquirimos e armazenamos as informações, e muito menos sobre como realmente as perdemos.
Se esquecer é essencialmente  tão importante quanto lembrar como parece (e é!), me pergunto se a indústria farmacêutica não investirá num futuro breve em remédios para apagar memórias, talvez com a mesma sofreguidão quer o faz para desenvolver substâncias que as preservem.
A seletividade do quanto e do que poderá ser deletado talvez dê início ao processo de desconstrução verdadeira da essência do ser humano: a humanidade.
Mas, quem se importará, se lucrativo for?!
Quem viver, verá. 
Quem viver, verá, mas talvez não lembrará.

domingo, 9 de dezembro de 2012

A “espetacularização” da violência







“Gostaria de passar um dia 
sem precisar abrir meu computador 
e ser inundado por imagens trágicas e banais.”
Lee Singel, Jornalista 


Numa certa manhã de domingo, relendo os escritos semanais de Elias Pinto, chamou-me atenção o tema da violência (em: “Matadouro a céu aberto”). As metonímias e as metáforas engendradas nos textos desse escritor paraense transfiguram-se em imagens tal como se estivéssemos diante da tela de cinema a roer as unhas, ou a ler um livro de Susan Sontag. Por se tratar de minha lide, ou mais ainda, do enredo de minhas confissões científicas no itinerário de médico e professor, a violência escorrida dos jornais – bestializada, diga-se – deixa escorrer um aspecto particular da dor. Faz lembrar a cabeça de João Batista colocada numa bandeja de inox, tal como em “Salomé”. Daí a necessidade do comentário pulverizado de sentimentalismo e escassez de riso.
 Refiro-me aos Cadernos de Polícia, em que o trágico se veste de banal. Só não me derrota pelo fato de conviver com a sangreira diária no trabalho de cirurgião de emergência. Mas às vezes, confesso: a naturalidade com que os jornalistas se atiram à retratação deste mal belisca o lado esquerdo da minha alma. Só descubro que não sou insano por que a serotonina (aquele hormônio do prazer), em mim, é imediatamente substituída pela adrenalina (o do espanto). Percebo que ainda não tenho a anodinia digna dos fotojornalistas (e olha que sou cirurgião!).
O sangue das notícias lembra-me Sontag em seu “Diante da dor dos outros”, cuja capa traz um Goya evocando a exterminação e êxtase. Faz uma citação, assaz surreal, mas não tão distante do real imagético expresso nos jornais de hoje, quando fitamos, ainda bocejando dentro de pijamas, as fotografias dos encartes policiais: “Nas expectativas modernas e no sentimento ético moderno”, grifa Sontag, “cabe uma posição central à convicção de que a guerra é uma aberração, ainda que inevitável. De que a paz é a norma, ainda que inatingível. Não foi assim, é claro, que a guerra foi vista ao longo da história. A guerra foi norma, e a paz, exceção”.
Portanto, a assertiva se molda cada vez mais no meu cotidiano de emergencista traduzida pela carnificina do trânsito e dos tiroteios de Belém. No outro lado das trincheiras desta guerra civil, uma visão opaca está no meu olho esquerdo de cidadão, mas bastante translúcida no olho direto de cirurgião: fazemos guerra e espetacularizamos a estupidez humana, pois criamos deleites com filminhos em celulares, torcemos pelos piores desfechos das telenovelas, fincamos cruzes em beiras de estradas e amontoamos caixões nos cortejos fúnebres. É também assim que nos deparamos com o fotojornalismo de todo dia: cadáveres empilhados e lágrimas inundando calçadas de cemitérios no feriado de finados. Para a somatória resta o comentário pontiagudo de Sontag, de Elias e da vida dos “cirurgiões de trincheira”, que atravessam noites pinçando sangramentos.
Percebemos que os números da desgraça só não são maiores que as tiragens dos jornais, que passaram a vender sangue das vítimas a preços camaradas só para aumentar o lucro empresarial. Pior!!! Se juntarmos o mês dá quase mil mortes entre os três hospitais de referência da cidade, sem falar nos hospitais privados. Isso é número para tirar qualquer jornal do buraco, pois é um espetáculo que se vende fácil.
A coluna do Elias além de apropriadíssima, revela uma nova faceta “ecopulverizada” das bicicletas que, assim como as motos, estão abarrotando ainda mais nossos pronto-socorros, como já não bastassem socos e pontapés; balas e facas.