Sempre digo que o Brasil ainda carrega seqüelas da longa noite da ditadura. Passados quase 30 anos da redemocratização, a imprensa saiu da mordaça política-ideológica de direita para a mordaça político-econômica ou, talvez o inverso seja mais correto, econômico-política. Tudo é muito dissimulado. A mídia nunca sai do armário, embora vejamos todas as evidências de interesses estampadas nas capas e conteúdos das Vejas, Folhas e outros pasquins do gênero. Em alguns países, apesar das crises ideológicas depois da Queda do Muro e do "fim da História" (aqui na concepção de Hegel), ainda existem claros posicionamentos. A França, talvez seja o melhor exemplo. E isso se liga ao comportamento; Se você vê alguém carregando o jornal Le Figaro, sabe que se trata de alguém conservador, enfim, de direita. O oposto é o leitor do Libération. O jornal de esquerda, por certo, perdeu plumas depois dos anos Mitterand e da descrença nos socialistas. Mas o Libé, como é chamado, se mantém na trincheira, apesar desse lusco-fusco ideológico do século XXI.
O jornal não tem medo de dar a cara à tapa. Anteontem, por exemplo, saiu com mais uma pérola de capa (abaixo):
Gerard Depardieu, o mais famoso e bem pago ator francês é chamado Le Manneken Fisc. Trata-se de um trocadilho intrincado, que tem como fundo o fato de o ator, há pouco tempo, ter se domiciliado no pacato lugarejo belga de Néchin, perto da fronteira com a França. Tudo para escapar do novo imposto sobre fortunas, adotado pelo governo socialista de François Hollande. A capa do Libé refere-se ao Manneke Pis, a famosa estátua-chafariz de um garoto fazendo xixi, um dos símbolos de Bruxelas, a capital belga; segundo, ao fato de que o ator, no verão do ano passado, num dos aeroportos de Paris, foi "convidado" a se retirar de um avião, prestes a decolar para Dublin, porque resolveu urinar no corredor da aeronave.
Depardieu, com uma renda anual de 2 milhões de euros, junta-se aos 2 mil e 800 milionários franceses que viraram exilados fiscais na bucólica Néchin, escapando da taxação de 75% sobre rendimentos acima de 1 milhão de euros/ano..O primeiro-ministro francês, Jean-Marc Ayrault, classificou a mudança do ator de um atittude patética. E já se fala no Parlamento francês sobre a possibilidade de perda de nacionalidade de Depardieu - aliás Chevalier Depardieu, condecorado com a Légion d'honneur (1996) e com a Ordre national du Mérite (1985), duas das maiores distinções da terra dos croissants.
Riche con
O Libé já havia gritado este ano com a movimentação dos milionários rumo à Bélgica. Em setembro, o "agraciado" foi Bernard Arnaud, o presidente do grupo LHMV (Louis Vuitton Moët Hennessy), a maior empresa de artigos de luxo do mundo - detentora de marcas das champagnes Moët Chandon e Veuve Clicquot, e de grifes, como Dior, Givenchy e Karl Lagerfeld, só para citar algumas.
Arnaud, detentor de 41 bilhões de dólares (a quarta maior fortuna do mundo, segundo a revista Forbes), não somente se domiciliou na Bélgica, como entrou com o pedido de nacionalidade belga. O
Libé não perdoou: estampou o mega-empresário na capa com um insulto:
Casse-toi, riche con! (Te cala, rico fodido). A frase é uma alusão a umas das diatribes do então presidente francês Nicolas Sarkozy, registrada em vídeo e amplamente divulgada. Em 2008, numa feira agrícola, no interior da França, um agricultor se recusou a apertar a mão do presidente dizendo: "
Ah non, touche-moi pas ! Tu me salis !" "(ah, não, não me toca! Tu me sujas!"), Sarkozy, perdeu a pose e retrucou "
Casse-toi, alors, pauvre con!" ("te cala, então, pobre fodido!").
No
affaire Libé versus Arnaud, o mega-milionário processa o jornal, num caso que pode chegar a até 150 mil euros de indenização.
Ao reagir ao processo, o
Libé não perdeu o tom político-irônico com mais uma capa:
"Bernard, se tu voltas, a gente anula tudo". Mais uma referência a Sarkozy: um SMS que o então presidente enviou à ex-mulher, Cécile, um pouco antes de casar com a modelo-cantora Carla Bruni.
No Brasil,bem, no Brasil, as capas-choque não fazem parte da chata e quase monocórdica paisagem mediática.Coisas do jeitinho e da cordialidade verde-amarela.