domingo, 6 de setembro de 2015

O cangaço da imagem - prosa entre Labareda, Corisco e escritores de verdade

Labareda, do bando de Corisco

Dizer da travessia: “Troca-se morte certa por um mar de esperança”. 
O menino bebeu a lógica do mar, 
e regurgitou areia; 
a golfada inundou pulmões, 
minhas retinas ... O coturno do general. 

correiodpbrasil.com.br
A imagem é salgada: não é sírio; não é refugiado. 
É um menino que já não arfa. 
tal um querubim sem asas 
sobraram-lhes indigência e a cova de meio metro. 

Ruge a imagem mais que estampido de canhões. 
Nunca vai findar a tinta que pinta a tristeza; 
vontade de gritar dentro de mim, feito Munch; 
O mundo sem se ir, sem se ficar. 
Sem se caber em si.
(com Irna, Clarice, Luiz e Ana)


Corisco, irmão de cangaço de Labareda:

Teu texto sangra a dor do mundo, Labareda. 
Essa criança desacontecida 
me deu vontade de voltar pras árvores. 
Tarde demais. 
Penso, logo existo em desrazões



Dudu Neves:
Varando mares sagrados
Degredados e rebentos
Sofrimentos refugiados

 hypeness com br
Navegando em tormentos



O êxodo da guerra

Não encerra essa dor

O clamor ainda berra

Entre a paz e opressor



Atitudes do passado

Renovando vaidades

Apartheides bem farpados

Camuflados de bondade

Essa mão que se estende
Não entende que um dia
Pedia tão inclemente
Outra urgente alforria
jovempam.com.br

E aquela mãe chora grisalha
Sem o filho em seu braço
Retratado numa praia
Um bebe morre afogado

Na memória da história
Tudo é glória e sacrifício
Armistício não haverá
Ao pai que sepulta o próprio filho.





Wilson Gorj:

O mar devolveu à terra o corpo de uma criança. 
Nenhum tubarão nem peixes tocaram neste pequenino refugiado. 
Ao que parece, o menino chegou à praia intacto. 
Como se o mar dissesse à humanidade: 
'Não me envolvam nisso. Esse horror é exclusivamente responsabilidade de vocês'

José Camargo:

Aquele abraço que não se desfazia e a falta de palavras foram uma espécie de catarse, como se estivéssemos perplexos à margem do Mediterrâneo, sem mais o que fazer do que pedir desculpa pela naturalidade com que aceitamos, sem gritar, as mortes absurdas que todos os dias deixam mães inconsoláveis, e seguimos a nossa vida como se fosse razoável toda tragédia que não nos atinge diretamente.
Mãe que perde um filho perde o mesmo filho todos os dias.

Clarice Lispector:
Sou atraída aqui pelo que assusta

Jorge Luis Borges:
Los ecribo ahora asi. 
Cumplida la agonia
quiero morrir del todo

Fernando Pessoa (Bernardo Soares):
Que coisa é essa que nos nos mede sem medida 
e nos mata sem ser?

Mario Quintana:
Numa esquina do labirinto às vezes avista-se a lua
"Não! Como é possível uma lua subterrânea?"





domingo, 30 de agosto de 2015

Sobre coisas coronarianas

                                      Coração de gente — o escuro, escuros
Guimaraes Rosa, em: Grande Sertão: veredas

Já quase duas da tarde, num calor equinocial, eu dirigia pela Generalíssimo quando o telefone tremeu. Reluzia o nome do amigo maranhense, de São Luiz.
-Alô, Urubu!
-Fale, Urubu!
Encostei o carro à sombra de uma mangueira. Passamos a nos assim depois de termos lido “Selva Concreta”, crônica policial de Edyr Augusto, premiado escritor que vive por essas beiradas. O cognome é de um personagem engraçado; repórter investigativo de crimes da periferia de Belém. Gostamos do livro e adotamos o nome pelo apreço ao mestre do voo. O chamamento amistoso tonificou-se após viagem para Barcelona, porventura da visita ao Serviço do prof. Rami-Porta.
- Rapá, eu estou emocionado.
-Como assim, Urubu?
Elias é de Pindaré, Maranhão. Vez por outra vem bater em Belém para prosear sobre amenidades de nossa ciência preferida. Guardamos, entre poucos gurus e gênios, um que mora no outro lado do país, pras bandas dos pampas. Consideramos José Camargo não só pela sabedoria, mas pelo seu altruísmo e tudo que represente generosidade a um ser humano notável e apaixonado pelo traço do bisturi e da caneta, quando faz vez de escritor. Costuma a nos chamar pelo nome - coisa de vizinho de porta, apesar de morar tão distante.
Estamos acostumados a convocar esse gaúcho de quase dois metros de altitude para destrinchar os mais complexos casos de nossa especialidade: desde a mais simples técnica operatória a mais complexa etapa de um transplante de pulmão; sempre responde aos pedidos como se estivesse bebendo água de coco às margens plácidas do Guaíba.
-Rapá, eu liguei para o doutor Camargo para discutir um caso complexo. De primeira ele não me atendeu, que já achei estranho. Posteriormente ele me retornou, mas desta vez eu não pude atender, pois estava jogando bola com amigos de minha Pindaré querida. Cheguei tarde, vi o chamado, mas não quis retornar para não ser inconveniente. No outro dia, cedo disquei e discutimos o caso de forma equânime, como sempre.
- Sim, mas o que te fez emocionar, Urubu?   
-É que o homem estava entrando numa sala de cirurgia.
- Sim, mas qual é a emoção nisso? É a vida dele!
-Mas é que dessa vez ele ia ser operado, ou melhor, cravaram um stent nas coronárias dele. Só que antes de adentrar, ainda no corredor e com aquela roupa que deixa os traseiros ao vento, tirou minha dúvida. Assim... como se fosse assistir a um treino do Grêmio. Pode isso? Fiquei acuado. Ele poderia nem atender a esse pindaíba de Pindaré. Que nada! Ele queria era continuar ajudando. Acho até que seria capaz de operar alguém antes de ser anestesiado, só para relaxar o coração e soltar a musculatura da perna. E, assim que acabasse, para testar os stents, seria capaz de realizar um transplante pulmonar duplo.
- impressionados com mais essa prosa, por fim, desligamos. Acionei a ignição e segui. No caminho tinha a igreja de Nazaré, onde finda o círio. Fiz umas orações com figa - coisa de quem tem fé - e roguei pro gigante se aquietar. Era só o que eu sabia fazer; depois segui pro trabalho. Não tive outra vontade senão a de ligar e dizer que estamos aguardando suas eclusas coronarianas mais abertas para a nossa medicina cada vez mais escassa de catedráticos.
Três dias depois, ele recuperado, passei o telegrama achando que agora ele teria de se aquietar de vez. Respondeu à sua maneira:
-Se com a DA [coronária] estreitada eu me sentia o máximo, qual o sentido de repouso com a coronária lindamente dilatada?
            ... Amém, homem de fé.

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Um retrato apenas

Apenas três fotos eram coloridas, de um total de mais de cem imagens expostas naquela sala 21, do Centro Cultural Borges, em Buenos Aires. Com jeito de amadoras como as minhas, essas três fotos retratavam ele mesmo, o autor das demais: Alberto Díaz Guitiérrez, assumido Korda por vontade própria. Ali estava um senhor sem notas de glamour, roupas gastas, chapéu negro, barba grisalha. Cantava na companhia de um igual, responsável pelo bandoneon, e dançava tango com uma moça. Não havia público. Era uma rua portenha qualquer. Uma rua gasta, com casas gastas. O cubano nascido em 14 de setembro de 1928 faleceu em Paris, dia 25 de maio de 2001, e dele eu só sabia ter sido responsável pelo retrato mais reproduzido de um altivo Che Guevara. Um retrato apenas era minha referência, mas era o bastante para que eu me interessasse em conhecer mais sobre ele e sua obra.

Comecei o baile pelo salão me detendo na série Pasión Con La Moda. Belas as fotos das mulheres. Todas desconhecidas pra mim. O único click onde se via sorrisos era o de duas garotas em São Paulo. Nilda Rios de pronto me fez lembrar alguém, possivelmente Marilyn Monroe. Julia En Bicicleta quase me fez ter certeza de que era Evita, em seus tempos de jovem revolucionária, cabelos marcados por um lenço e as pernas cobertas por um saia monocromática. Marujita Cabrera? Nossa, poderia jurar que era a Liz Taylor, em seus tempos de Cleópatra. Não tenho idéia se esse deja vu era propósito do autor.

Pasión por La Revolución é o tema que mais abarca fotografias na exposição “Korda. Pasión e Imagen”. Ora multidões, ora retratos, e uma crucial, a que o autor aponta como a razão de passar a se dedicar exclusivamente a registrar a revolução que pretendia acabar com as desigualdades. A criança de pé não esboçava sorriso, o rosto estava sujo e o olhava com uma expressão que me incomodou, doeu. O vestido também era sujo, sujo e curto. Nos braços a sua bebê, um pedaço de madeira. Foi aquilo que o tomou. E temos um retrato apenas como divisor de águas para aquele homem.

Fidel Castro acolheu Korda e deu a ele oportunidade de registros magistrais ao seu lado. De campesinos, de viagens e de reuniões com milicianos, com autoridades do mundo inteiro, com intelectuais e escritores afins à revolução. Neruda, Sarte, Gabo, Mao, Simone de Beauvoir, Nikita Kruchev, Raul Castro e, obviamente, Che, que ganhou uma série na exposição: El Che Guevara, pasión pura.

Segui por Ritos Afro-Cubanos, Premios Nobel e Pasión por los Fondos Marinos.  Abrasivos.

As três únicas fotos coloridas eram seguidas por uma carta de Diana, filha de Korda. Ela declara seu amor pelo pai e pergunta à Violeta Parra para quem ela escreveu a música Gracias a la Vida, “porque um cubano a levou muito a sério”.

De onde saiu o apelido Korda? Do sobrenome dos irmãos Alexander e Zoltan Korda, que tinham seus filmes exibidos em Cuba nos anos 50. Além do mais, é bastante parecido a Kodak, que foi a marca por excelência de produtos fotográficos por muitos anos. Alberto conhecia o suficiente de marketing e publicidade para assim justificar seu nome artístico.

E tudo a partir de uma foto, de um retrato apenas. Gracias a la vida.

29/08/2015 - Uma correção: logo que publiquei este texto, tinha usado o nome acordeon para identificar o instrumento que tocava o senhor acompanhando o canto de Korda; mas um leitor argentino me alertou que no tango nunca se usa acordeón - que tem as teclas de piano como um dos seus diferenciais do bandoneón, este sim utilizado no tango e que tem uma espécie de botões no lugar das teclas. Muito legal tentar expressar em forma textual minhas percepções e poder interagir com leitores generosos. Sigo na aprendizagem.

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

O pulo do gato e os passos do bicho-preguiça

Quem tem a vida bordada pela cirurgia 
não sabe viver sem as costuras do desafio

Diante de mim há um vasto rio - o maior do mundo - que me envia um de seus longos braços e nele implanto minhas mãos e dedos de escrevinhador insólito. Daqui, d'onde tamborilo o teclado, ponto eqüidistante entre o Alasca e a Patagônia, sob o cerol do Equador, miro no oeste onde o sol se esvai. Há uma linha imaginária que passa sobre minha cabeça, que não só separa o planeta em dois hemisférios, mas também meus hemisférios cerebrais em dois planos: direito e esquerdo.
À direita, no prumo do Alasca, estão na mesma fila de internação F.L.S, 67 anos, que chegara ao hospital com seu motorista, e N.H.M, 63, descera do ônibus, encaminhada por um médico da vila de Eastmain, banhada pela baia de Hudson, a léguas e léguas de Quebec. Em comum, o vício do tabaco e uma mancha no pulmão. Ambas terão parte de suas vísceras retiradas a “laser”. Foram internadas na mesma enfermaria e vestiram o mesmo roupão, apesar de condições sócio-econômicas distintas.
Também consentiram que suas operações fossem transmitidas ao vivo, com fins acadêmicos, para um auditório com 40 cirurgiões latinos que, longe de seus grotões revivem novo ciclo de suas vidas profissionais - oxalá, o maior deles. As operações foram sob a batuta de Paula Ugalde (hoje no Canadá, a convite, mas ainda conserva o sotaque nordestino) e Thomas D’Amico (Duke University, Pittsburgh, EUA). São cirurgiões consagrados, mas isso não basta para eles; carregam a necessidade de fatiar o saber e o repto de ensinar ao ar livre, ao vivo, pois quem tem a vida bordada pela cirurgia não sabe viver sem as costuras dos desafios.
Ambos têm a técnica apuradíssima, revelando movimentos seguros e pontuais ao dissecar cada estrutura anatômica, a bem lembrar o movimento do Folivoro de dois dedos. Ao término de cada operação os dois rediscutiam cada caso, ponto a ponto, frente a frente. Tal modelo gerou aprendizado imensurável, fazendo com que cada apresentação deixasse todos com fôlego apurado e certezas de que voltariam para seus remansos com perspectivas afiadas.
A Laval abriu as portas para mostrar rotina, verdades científicas e o que há de novo em técnicas operatórias, incluindo os “pulos do gato”. Foi uma semana intensa no Institut Universitaire de Cardiologie et de Pneumologie, da Universidade de Laval, Quebec, Canadá.
Na verdade essa já é uma idéia antiga do Prof. Jeans Deslauriers, ex-chefe, que sempre teve um olhar apaixonado pela América latina, particular ao Brasil, onde cativou amigos e um punhado de pescarias pelo Araguaia. Ele já vestiu o pijama, mas em seu discurso de abertura do evento ficou claro que a semente plantada estava embebida no vinho do altruísmo, para que Ugalde e D’Amico servissem com alguns canapés e a possibilidade de goles extras.
Jean Deslauriers
A idéia mostrou a grande força da Universidade de Laval; a Laval mostrou a grande força da ideia.
Por fim, na visita pós-operatória as duas pacientes, além de simpáticas e franqueadas a conversas, sentiam-se imensamente satisfeita não só pelo resultado, mas pela capacidade de terem ajudado cirurgiões do outro lado do Caribe. E a surpresa foi que não se conseguimos distinguir a classe social de cada paciente, pois o sistema canadense é cego à distinção social.

domingo, 16 de agosto de 2015

Get back to Quebec

...Get back to where you once belonged.
Beatles, na canção: Get back
    
Quando recebi o convite para ir a Quebec tratei logo de por a família e o passaporte no bolso. Apesar da depressão econômica do país, todos os esforços foram necessários não só para visitar a universidade Laval (1663) a convite da anfitriã Paula Ugalde e o americano Thomas D'Amico, mas também sentir a textura da cidade. Deixei as economias na casa de câmbio e as portas do avião em automático e fui...
A cidade tem atração que já começa na embriologia, quando franceses da Normandia expulsaram, à pólvora, britânicos e americanos. Logo depois edificaram uma muralha de proteção que se tornou um dos pontos turísticos mais contemplados, e separa a cidade velha (Ville Québec) da moderna.
Quebec fica longo período sob neve e isso a conserva e a distancia das intempéries da natureza. Quando bate o verão tudo aflora, inclusive flores em portas, janelas, ruas e praças. Quebec é realmente um modelo impossível de ser pirateado por essas bandas ao sul do Equador e nos tortura mais ainda quando revemos o exercício de cidadania. Saí de lá pisoteado pela nobreza e o respeito à natureza - apesar de algumas fábricas remanescentes no meio da cidade, acinzentando aquele céu de parco azul.
Numa banca de revista o tablóide estampava 17 mortes por motocicleta naquele ano. Dá para contar num ábaco. O sistema binário, por lá, é utilizado para contabilizar avanço financeiro e as medalhas olímpicas do último Pan. O taxista que apanhei na Grand Alée Est sentido Ville Québec, um refugiado do Congo, confessou-me que houve apenas um assassinato em 2015. O congolês, com seu inglês francófano - e o meu misturado com tucupi - aferiu-me: cidade onde existem flores nas janelas, violência toma outro rumo. Faz sentido para aquela Quebec de 1608.
Deve ser verdade, pois no sábado livre, na Ville, havia apenas um policial e nenhuma viatura. Foi na rue Du Petit-Champlain, a mesma que certa noite saímos para flanar e tomar vinho.
Naquela noite escolhi um lugar típico, o Restos Plaisis. Havia uma mesa ao fundo com dizeres rascantes na língua local: C’est bon la vie”, certamente escrito por Baco. Ali sentamos, degustamos um bom vinho e apreciamos cada pestanejo da rua.
Bem à nossa frente, sozinho, um rapaz lia. Ele se contorcia, levantava, vez por outra dava uma golada na cerveja, mudava de cadeira sem sair da mesa e coçava cabeça e ombros. Deixava-se ao vendaval da leitura. Consegui identificar a autora: Alice Munro, ganhadora do Nobel de 2013. No caminho para inverter água, duas outras jovens, também desacompanhadas, liam plangente, sob luz de velas, ao lado de uma taça de vinho. Pareceu-me ser ali, refúgio de leitores, uma espécie de liceu onde jamais estariam desacompanhados, pois o livro não deixa o homem beber só.
No dia seguinte varamos no D’Orsay. Escolhemos ficar num alpendre aconchegante, cuja janela dava pra rua, que dava numa praça, onde jovens - inúmeros jovens, amontoados em pequena arquibancada - apreciavam a arte circense à luz da lua - seriam desertores do Circu du Soleil?
Na parede, em vez de obras de Monet, aquele outro D’Orsay tinha estantes repletas de livros usados, prontos para serem folheados.
Encasquetado, comecei a andar pelo local a procura de alguém zapeando num fone. Nada, nada.

          Volto, mas apelo à lâmpada do Aladim: Quero essa Quebec pros meus sonos tropicais. 

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Cataplof! Sobre verdades que tombam

Às vezes me sinto como se me tirassem o tapete voador de um puxão só e sigo a todo vapor pro impacto. E cataplof! Lá se foi a verdade na qual eu acreditava estar confortavelmente debruçada a deslizar, num céu de brigadeiro. Digo isso por duas situações muito específicas e recentes. Sim, leitores, esse tombo eu levo desde que me entendo por gente. E não faz mal, não. Pelo contrário.

Um primeiro tombo que me esbandalhou as idéias ultimamente foi ler o trabalho de uma pesquisadora argentina em que defende o modelo da reconciliação utilizado na Àfrica do Sul para alcançar as verdades ocultas do terrorismo de Estado. Pra mim, até então, nem passava pela minha cabeça a possibilidade de garantir o perdão a quem fez parte de atos tão cruéis contra a humanidade. Pensando bem, acho que seria uma espécie de delação premiada: “você fala e a justiça vai aliviar tua pena”. Talvez, para familiares que buscam pelo menos os restos mortais de seus entes queridos esse método esteja valendo. Se é que entendi, para a autora, Cláudia Hilb, o fato é que os incriminados estavam mais dispostos a colaborar, já que tinham a garantia da pena aliviada. Ao mesmo tempo, ela acredita que o modelo de “juicio y castigo” aplicado na Argentina é menos frutífero quanto a estas verdades; os acusados não estão dispostos a pagar uma pena ao reconhecer seus delitos. E assim muitos deles levam para o túmulo informações preciosas.

A autora reconhece que sua proposição assombra (ufa!), mas aposta numa reflexão cuidadosa para que se escolha o modelo. Neste caso, pra mim faz sentido o que ela bem descreve. De um lado, ganha-se em verdade e talvez se perca em justiça, enquanto de outro, pode-se estar ganhando em justiça, mas certamente se perdem verdades. [Vamos definir o foco]

Tenho lido mais textos de Hilb, que busca apoio nos conhecimentos produzidos por Hannah Arendt. Está bem acompanhada, a meu ver. Por isso, não a descartei diante do tombo de minhas certezas tão frágeis. Continuo a digeri-la.

E, sem deixar de lado leituras de artigos ou textos jornalísticos, começo a perceber que há pessoas vinculadas ou não a grupos de matriz africana que são contra a adesão de gente branca a práticas tradicionalmente negras, como usar turbante, para dar um exemplo simples. Eu mesma, em Belém, participei de uma oficina promovida pela bela e cativante Emi Sá justo sobre o uso do turbante. E levei minha filha. Compramos alguns tecidos e, aqui e acolá, turbantamos, porque achamos lindo, respeitamos a cultura negra e acho ótimo que possamos desmistificar o que antes poderia parecer nada mais que algo exótico e distante de nós.

Pronto! Quando li alguns textos que de antemão nos aparta entre negros e brancos e além do mais afirma que é praticamente um acinte a adesão de brancos à cultura negra...estremeci. Lá fui eu de novo. Ladeira abaixo. Mas eu pensei que isso também era uma forma de valorizar práticas até então associadas apenas a negros! Eu sempre achei lindo ver, em outras cidades brasileiras, as mulheres negras praticamente cultuarem seus cabelos crespos, com diversas tranças, com turbantes, com detalhes que me soam como orgulho de ter o cabelo que se tem... Em geral, nessas cidades, nas clássicas Salvador e São Luiz, por exemplo, coincidentemente (cof!), são elas mesmas, as mulheres negras, que vendem seu trabalho a qualquer pessoa que quer modelar seus cabelos. Existe também um movimento, inclusive não-comercial, de estímulo a que cada um assuma os traços negros com que nasceu. Tenho várias amigas, colegas, conheço pessoas assim.

Em um dos textos que li, o autor precisou se retratar e editar o texto, o que o fez e declarou de forma muito honesta, que, não, essa conclusão não é consenso entre organizações. Pelo menos isso. Já amortece meu tombo. Se usarmos esta concepção defendida pelo autor, então branco não pode ser capoeirista, nem ser membro do Candomblé. O que será que ele pensa sobre a Umbanda, que já nasceu no Rio de Janeiro, e sobre a Mina-Nagô, típica dos estados do Pará e Maranhão?

É verdade que as sociedades têm uma dívida histórica com as populações negras. Esse é um dos motivos pelos quais gostaria de apurar meu conhecimento sobre o tema. Alguém se atreve a contribuir?

domingo, 12 de julho de 2015

O abraço-açu na alma do Barretão

Pouca saúde e muita saúva,
Os males do Brasil são!
Mario de Andrade em:“Macunaima"

Expedito tinha obstrução respiratória e pressa. Aos quarenta e poucos anos era procedente de São Miguel do Guamá, na Belém-Brasília, logo depois da forquilha com a Pará-Maranhão. Durante três horas de viagem agonizante, com a sirene da ambulância afônica, suportou a respiração estridente e a vida no ponteiro do relógio, até chegar ao Barretão.
Logo foi submetido à endoscopia: obstrução abaixo do pomo. Era tumoral e o ar passava por uma fresta pouco mais larga que o buraco da agulha de crochê. Passou direto para sala de cirurgia; o anestesiologista sofreu para garantir a oxigenação até iniciar a operação. Então o pescoço foi abordado e extirpada a moléstia com parte da traqueia. O paciente foi para o CTI e a peça operatória para exame. Câncer, segundo o laudo, cujas beiradas não havia doença. Curado e ponto final.
No outro dia, desperto, com fôlego renovado e, mais que isso, emocionado com a segunda chance de nascer, Expedito gostaria de dar um forte abraço na equipe, ou melhor, um abraço-açu (Açu é radical de origem tupi com função adjetiva; significa grande e surge em palavras compostas, como Igarapé-açu).
Disseram-lhe para transferir o abraço ao Barretão, que passa por momento difícil. Este é apelido carinhoso que estudantes e residentes cunharam no hospital Barros Barreto, posse da UFPA. É um gigante que nasceu nos idos de 1950/60, inicialmente como sanatório de tuberculosos, depois o governo o transformou em hospital geral, porém ao longo dos últimos anos vem sofrendo bombardeio administrativo e escasseando tudo, até luz. Lá se trabalha na penumbra do progresso, apesar de muros e portões de academia.
Expedito, tão logo que caminhou foi bater na diretoria, mas deu com a mesa vazia. O diretor estava lá fora, à sombra de um Ipê, ao lado de dezenas de pessoas que se mostravam amigos do hospital, organizando um abraço de ressurreição. Expedito se enfronhou entre os demais e, de pijama e uma gargantilha de curativo, abraçou o Barretão como promessa de ter obtido aquela glória. Naquele momento o antigo sanatório sofria um simbólico abraço-açu de todos, porque sabiam que o hospital estava preste a atravessar a rua. O abraço-amigo puxou-o do sepultamento condoído. O gigante vai se reerguer, todos inflamavam numa só voz.
Naquele mesmo momento estava dando na difusora que o INCA, um dos maiores centro de câncer do Brasil, no Rio de Janeiro, estava na mesma penúria. Percebe-se que, diante do descaso com hospitais públicos, o Barretão é mais um que tomba no silêncio funesto da saúde pública pantominada.
Por sua vez, no coração do CTI, um residente tentava realizar um procedimento cirúrgico, à beira do leito, sem dar conta do acontecimento simbólico repleto de holofotes e mídia, que ocorria lá fora. No final perguntaram a ele porque não esteve no abraço - sob pena de ser punido. Respondeu: "nessa hora eu ‘tava procurando foco cirúrgico pra realizar uma drenagem torácica na UTI". 
Resposta tão silenciosa quanto o pisar de um Brontossaurus. Interromperam a punição e tiveram pejo de saber se ele havia operado à luz de vela. 
Se Expedito abraçou por fora e aquele residente abraçou por dentro, pois certamente foram os abraços dos mais afetuosos que o Barretão albergou. Ele vai se reeguer, ele tem alma...

domingo, 5 de julho de 2015

Os herdeiros da poronga

               (Para Gabriel Garcia Márquez e Machado de Assis, que se fingem de morto)

Minha família vivia numa cidadezinha no interior do Acre, anos 70, e tinha eu dez de idade quando ouvi falar de Geraldiano e Ivaniano, filhos de imigrantes nordestinos soldados da borracha. Eles tinham uma zanga e travaram um duelo que ficou registrado nos anais da cidade.
Os dois foram criados juntos, mesmo tope, mas na adolescência se arranharam pela formosura de Lígia. Chegaram a ensaiar uns pegas, mas a turma do deixa-disso sempre estava de plantão. Eram atarracados e de gênio atravessado quando se esbarravam num copo de cachaça. O próprio delegado tratava de mantê-los distantes e as famílias cuidavam de fazer com que não se encontrassem.
A rusga entre os dois acompanhou-os com as rugas do tempo até os cinqüenta anos. Aristides, o prefeito devoto de São Francisco, rogou clemência para selar a paz, já que era amigo de ambos. Ademais, o munícipe andava combalido, em cadeira de rodas, vomitando sangue, desenganado da medicina da capital por Barriga d’água. Tinha os dias contados, pois na época o transplante de fígado carecia do conhecimento de hoje. Toda a cidade se ressentia do apelo e seria a última de suas obras humanitárias. Como um fazia aniversario dia 21 e outro dia 23 de julho, trataram de marcar o selo da paz numa data equidistante, ou seja, 22, sábado.
A festa no salão paroquial iniciou sob a bênção do padre Alberto, mas findaria sob o tridente do satanás. Os dois, logo na chegada, até esboçaram aperto de mão, mas acerto mesmo foi com o senhor dos infernos, pós-talagadas da “mardita”. Foi quando se esbarraram no banheiro. O ambiente ficou cinza. O estopim ocorreu e cada um puxou um canivete da cintura, como dois cangaceiros, e afiaram a lamina na ponta da língua. Pularam pro terreiro de festas só eles: olho no olho, dente rangendo e goela rugindo. Depois o duelo ficou explícito, ao ar livre, até separarem de vez. Tarde demais: saíram capengando com cortes profundos no tórax, abdome e braço.  
Cada família hospitalizou o seu em suas casas, pois rejeitaram ir ao único posto de saúde, com medo das algemas do delegado Elesbão. Ambos padeceram de longa agonia, trancafiados em seus quartos. Foi quando Geraldiano recobrou da embriaguez e, diante da dor outro e cada vez mais perdendo ar, expôs certo grau de preocupação com Ivaniano. Que por sua vez ficou impressionado ao saber que o algoz orava pela sua alma à medida que sua barriga crescia junto com o arrependimento. Cada um começou a suplicar para que o outro não morresse, e as famílias ainda mantiveram as orações até o último pingo de fé. A cidade viveu o suspense com todo tipo de esforço para esticar a alma daqueles dois, que continuavam acamados - agora febris e sem dispor ao menos de um curandeiro kaxinauwá.
Após 48 horas de agonia, os sinos da igreja dobraram. Luto e suspense: o prefeito acabara de entregar o corpo ao Espírito Santo.
Deixa estar que os dois ouviram as badaladas e cada um em sua rede achou que os sinos soavam pelo outro. Geraldiano morreu de melancolia no dia seguinte, chorando pela partida de Ivaniano. Que morreu duas horas adiante chorando as águas do Purus por Geraldiano.
Na lápide de cada um ficou a inscrição: “Neste povoado de cidadãos pacíficos, cuja fé cegou, a violência teve um momento de manifestação condolente entre si, mas não menos daninha.”

Labareda, do bando de Corisco

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Noites infames

Imagem que circula na rede sobre a programação


Uma noite infame. Esta é. No Brasil e em Buenos Aires também.

O que parecia apenas o dia seguinte de uma vitória parcial sobre um insulto à inteligência da nação canarinha, com a reprovação da mudança da maioridade penal de 18 para 16 anos, eis que o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB), dá o bote e põe novamente em votação o PEC 171. Duas infâmias, o projeto em si e o bote.

Mas vivendo na Argentina, impossível estar ao largo de um tema que poderia ser pertinente no âmbito acadêmico, mas tórrido nos corredores da Universidade de Buenos Aires (UBA). É ali que a Faculdade de Ciências Sociais (#Fsoc) está, nesta noite deste dia 1º de julho, garantindo uma programação baseada em “outras formas sexualizadas de viver no espaço universitário”. Nas redes sociais circulam imagens da agenda posporno, como denominam, e elas não me dizem tanto quanto me impressionam: qual o sentido de garotas seminuas (estou sendo generosa) praticarem sexo ao vivo e a cores? Uma espécie de cenas de sado explícito, se me faço entender.

Numa mesa, microfone é metido na vagina alheia. Noutro canto, um exercício de sexo a três, incluindo homens. E eu ainda não consegui entender o x da questão. Capaz que a coordenação do show possa explicar melhor, ou o diretor da faculdade, ou o reitor da UBA, porque exposta está a opinião de quem viu o que passou ou dos que souberam do que passou esta noite a três quadras de casa.

Até onde alcanço conscientemente a mim mesma, não condeno o sexo. Bem longe disso. Nem pretendo me manifestar com falsos moralismos. O que é preciso estar claro é a função de uma universidade, o que está pactuado socialmente. E creio que uma programação deste naipe não se enquadra, no mínimo. É isso que me impressiona.

O rompimento de limites, seja à Constituição, seja às práticas acadêmicas, também cumpre papeis importantes em muitos casos. Mas que não são bem estes que estamos presenciando em dias recentes.

Está aí o caso do jogador Java que dedou literalmente Cavani, na Copa América deste ano, agregando a isso a provocação de que o adversário deveria estar nervoso porque seu pai iria apodrecer na cadeia, referindo-se ao acidente automobilístico que tomou a vida de um ciclista. Isso cabe?

Tanto a votação da maioridade penal e quanto a programação posporno já ocupam os TT´s e a reflexão sobre os temas são muito válidas, para além das piadas que circulam inevitavelmente.

Queremos mudar os sistemas? Queremos novos conceitos e práticas de convivência? Jóia, vamos lá. Mas que os mudemos primeiro, antes de estuprar o modelo vigente.

sábado, 27 de junho de 2015

A Pietá de Bailique

Bailique fica nos cafundós do mundo: acima da linha do equador, na curva do rio Amazonas com o Atlântico. Lá mora Jesus, 14 anos, filho único de um casal em perfeita harmonia. Em lua de quarto-crescente ele saiu escondido da mãe para caçar com a espingarda do pai, que saíra para pescar. Jesus não sabia que na escuridão da mata o ponteiro da hora não se mexe. Ainda ignora prestígio de homem e sedução de caçadores vis.
A mãe despertou cedo, viu a floresta ganhar seus matizes da aurora sem as cores de Jesus na sua rede. Ao dar por falta do menino achou de ir procurar abrindo picada pela mata fechada. Avistou o filho ensanguentado na cabeça, com respiração ofegante e desacordado-quase-morto, próximo a um córrego onde Catitus lambiam o sangue diluído na água. Disparo acidental, pensou. Aos berros, clamou pela vizinhança. Acudiram-na, colocaram no barco a motor e partiram no prumo de Macapá.
A viagem durou 12 horas. A mãe por todo tempo apoiou o filho no colo, feito a Pietá de Michelangelo, e se desesperançou ao ver que a paisagem se desbotava a cada hora carcomida pelo barulho do motor. A extrema-unção lhe parecia chegar antes daquele cais.
Era boca da noite quando aportaram e foram direto ao centro cirúrgico para abrirem-lhe o crânio e expurgar coágulos e estilhaços. A operação varou a noite.
Após três longos meses em CTI, Jesus desperta milagrosamente, porém com sequela respiratória. Aí que entramos na história.
Chegamos com dois palmos de paciência, pois Jesus tornou-se agressivo e a mãe-Pietá via-se deprimida diante daquela respiração estridente e aquele estranho cano de plástico no pescoço, por onde respirava. Disse-nos que até suicídio ele tentou, pois certa noite foi encontrado dependurado na janela do hospital. No outro dia mãe-Pietá estava chorosa, querendo abandonar tudo e pegar o rumo de casa, pois saiu sem se despedir do marido e já achava aquilo tudo um milagre dos céus.
Confessou-me que um douto disse que só restaria usar prótese importada ou manter a traqueostomia, pois o caso era perdido. Pedimos que ela revisse com carinho e tomasse a melhor decisão para enfrentarmos o desafio de corrigir, a bisturi, o estreitamento da traqueia, caso contrário, nunca mais Jesus poderia mergulhar no rio, dado o risco de entrar água pelo cano do pescoço e afogar os pulmões. Diante do exposto, a mãe ficou reflexiva...
Depois da confiança depositada em suaves prestações, acabamos realizando a operação e, apesar de algumas pequenas reintervenções endoscópicas - algumas delas com fortes emoções - Jesus ficou bem e teve alta no 15º mês. Isso mesmo: um ano e três meses. Ele passou dois aniversários no hospital.
Antes do regresso a mãe tirou fotos de um celular emprestado. Eu e ele fazíamos pose para comemorar: Era sina de Jesus e Pietá e a minha frágil sensação de servirmos para alguma coisa.
Depois de dois anos eles retornaram ao ambulatório. Quando o reencontrei, confesso, não reconheci. Jesus estava bem mais taludo. Segundo a mãe, por conta do açaí: “fruta santa, fruta mártir”, nos dizeres do poeta João Gomes. Deram-me um abraço com dose extra-forte de emoção e músculo. Jesus voltou a caçar, pescar, tomar banho de rio e até trepar no açaizeiro com peconha. Numa pescaria foi mordido por arraia, perdeu-se no caminho de volta e quase mata a mãe de susto.
Pietá disse-me ainda que, durante aquele suplício, o marido se enrabichou com uma “pequena” da outra banda da ilha e pôs fim à família, pois ninguém naqueles confins de mundo acreditava na ressurreição daquele menino Jesus.

terça-feira, 23 de junho de 2015

Um coração "assim" de grande


Um coração "assim" de grande

Existe muito a questionar sobre o modelo de ensino que adotamos e que parece falido. A propaganda argentina não só me deixou emocionada, como me levou a pensar em tantas repercussões que podem ter na vida cotidiana essas escolhas que estruturam a sociedade.

Como se chega a casos como o da jornalista Joice Hasselmann que, de acordo com o sindicato paranaense, plagiou mais de 60 matérias? Cumpriu suas obrigações escolares e acadêmicas. Atuou em grandes meios de comunicação do Brasil. Chegou lá! Chegou onde? A uma prática repulsiva de, no mínimo, desrespeito aos colegas de profissão, pra não citar a infração ao código de ética e ao crime contra direito autoral.

Duvido muito que o caso dela seja uma exceção. Menos ainda que trajetórias de má fé sejam raras. Mas obviamente não acredito que a única responsável por estas condutas reprováveis entre nós seja a escola, ou qualquer outra instituição formal de ensino.

Existem iniciativas neste âmbito que são louváveis. Aí está o Peru na busca de incluir o idioma quéchua nos níveis primário e secundário em todos os colégios, sejam públicos ou privados.

Creio, no entanto, que o melhor mesmo é o exemplo de comunidades que não se valem desse modelo de ensino formal a que estamos acostumados, e que nos apressa, e que nos tolhe as virtudes, e que nos subordina ao mercado de trabalho, e...

Quando me mudei para Argentina, justo para dar continuidade à minha formação acadêmica e talvez ganhar um espaço melhor no mercado de trabalho e de construção de conhecimentos, vim com minha filha. À época, ela tinha seis anos e não sabia nenhuma palavra em espanhol. Pensei sinceramente em mantê-la fora do sistema educacional comum. Cheguei a dar os primeiros passos nessa direção. Estou segura de que ela não sairia perdendo em nada. Poderia aprender muito na convivência com outras pessoas do seu cotidiano, habitar diferentes espaços, escolher o que fazer, na hora que lhe fosse aprazível. Até poderia depois ir à escola.

A voz da encantadora Elis Regina ecoa muitas vezes em mim e penso que só quero uma casa no campo, onde possa tocar muitos roques rurais. Viver simplesmente.

domingo, 21 de junho de 2015

A encíclica médica

American Hearts II, Alfred Gorckel

No hospital onde exerço a docência, todo ano os novos residentes são convocados para pagar, com seu primeiro mísero salário, almoço para os mais antigos. É uma espécie de trote. No final, cada um fala sobre o futuro. Nemésio, um veterano de 32 anos, queria mesmo era falar do passado.
Com um sotaque carregado no nheengatu e beirando metro e meio de altura, contou que, ao receber o canudo voltou para Cametá para praticar seu sacerdócio e escrever sua encíclica profissional. Conseguiu emprego no único hospital da cidade, com parcos recursos. Ficou prosa por ser nativo.
O primeiro mês foi, sem dúvida, o mais doloroso. Ainda sentia no rosto a purpurina da festa de formatura ao mesmo tempo o pão insosso do futuro incerto. Até o dia de receber o primeiro salário, e sentir-se valorizado, ainda se via estudante caminhando descalço sobre um paiol de pólvora.
Contou-nos que em certo plantão recebeu uma criança procedente de uma comunidade ribeirinha, com tiros de cartucheira desferido acidentalmente no peito e barriga. A radiografia torácica era normal, mas a do abdome foi detectado um projétil bem no centro. A criança de apenas ano e meio foi encaminhada para o teatro de operações com sinais vitais normais.
Antes de começar, com muita dificuldade, Nemésio conseguiu pegar a veia profunda que passa abaixo da clavícula esquerda, do mesmo lado atingido. Após a quinta tentativa conseguiu progredir o cateter, porém, pela urgência e perda de tempo ocorrida, correu para se preparar e auxiliar na operação do abdome. O inventário mostrou pequeno ferimento no intestino delgado, o qual foi prontamente reparado. Previsão de bom prognóstico.
No final da operação o anestesista alerta que, mesmo tomando toda aquela medicação, soro e sangue, o quadro estava piorando sem razão aparente.
O garoto foi para a enfermaria cansado e de fôlego encurtado. Três horas depois desenvolveu parada cardíaca, morrendo no meio da madrugada.         
Nemésio deu a notícia aos jovens pais, ainda adolescentes. Detalhou os passos evolutivos e recebeu um abraço condolente e emocionante, sem poder detalhar a causa mortis
O resultado da necropsia saiu no meio da manhã: pulmão colabado e o peito cheio de líquido, levando a entender que o cateter estava fora da veia e todo aquele conteúdo, que deveria melhorá-lo, acabou colaborando para aquele desfecho.
Nemésio chegou a sua casa, trancafiou-se no banheiro e começou a rezar. Suas lágrimas se misturavam com a água do chuveiro. De boa fé, como são todos os jovens médicos, não demorou muito tempo para entender que aquele anjo lhe serviu para reluzir o fogo da inquietação.
Nemésio resolvera deixar aquele interior após seis anos de trabalho árduo, carregando aquela história farpante e dois dedos de frustração. Depois do episódio resolveu juntar dinheiro, arrumar as malas e rumar para Belém acenando pela foz do Tocantins. Já havia se casado e constituído família. Deixou a esposa com dois filhos - um de colo – e seguiu atrás de reaver seu passado, com a certeza de voltar e reescrever sua encíclica.

Indagado sobre o seu maior aprendizado, ele entoou: eu trocaria esse prato de comida e todos os que vierem nesse período de residência pela vida daquele Querubim, porque não há tortura pior do que assistir a uma morte evitável; por isso estou aqui.

Labareda, do bando de Corisco.

domingo, 14 de junho de 2015

Morre o poeta da esquina

Do corpo desse meu irmão que já se vai
Revejo nessa hora tudo o que ocorreu
Memória não morrerá
Fernado Brant, em Sentinela (parceria com Milton Nascimento)

Já não sonho, hoje faço, com meu braço, meu viver. A mensagem do Mario Rocha e João Pinheiro, velhos amigos, e Sizenando Starling, cirurgião e amigo belorizontino, alertavam-me que Fernando Brant, um dos fundadores do Clube da Esquina, acabara de falecer após submeter-se ao segundo transplante de fígado.
Eles sabem de minha admiração por Brant, por isso me alvejaram. Então corri para minha estante na busca de Casa aberta (2011), adquirido na feira pan-amazonica do livro. Abri numa página qualquer: “Um punhal nos rasga o fundo no peito quando um amigo desse quilate é obrigado a nos deixar”. Percebe-se que a condoída frase descreve a partida do amigo Veveco, da musica “Veveco, Panelas e Canelas”, parceria com Milton Nascimento, entoada na voz de Beto Guedes. Tavinho das Panelas e Chico da Canelas eram outros dois amigos homenageados. Brant guardava os amigos dentro do peito e nas entrelinhas de suas obras. E nós o guardamos nas lembranças dos tempos das batidas de violão pelas esquinas da Belém dos anos oitenta.
Neste 12 de junho, Veveco, vestido de branco, recepcionou Brant no andar de cima. Ele agora se senta ao lado de Vinicius, Tom Jobim e tantos outros compositores de nossa esplendorosa MPB. Só que Brant carrega com sua trupe a insígnia do Clube da Esquina, movimento musical surgido nos arredores de Belo Horizonte, paralelamente à Bossa Nova, no contraponto da Jovem Guarda e Tropicalismo. O som dos “mineirin” se fundia com as inovações da Bossa Nova e continha elementos do jazz, rock – principalmente os Beatles– e pitadas da música folclórica dos negros mineiros.
Aconteceu que as letras enternecedoras do Clube da Esquina falavam de amizades, infância de rua, juventude e as ladeiras das alterosas. Brant foi o principal letrista desta esquina repleta Wagneres, Miltons, Lôs, Betos, Toninhos e Flávios, que se rendiam à sua poesia.
“Casa Aberta”, o livro que me chamou atenção logo na capa, é fruto das crônicas do jornal Estado de Minas e mostra a face literária de Brant, como relendo Sêneca diante de um copo de cerveja, no Leblon. Depois não despista quando fala de suas inspirações: Cecilia, Bandeira, Cabral, Lorca e Pessoa. Mas é em Drummond que ele se farta. Tavinho Moura foi outro parceiro em Fogueira do Divino, musical que fala de nossa história e de nossas belezas: a vida é um rio de sangue, óvulos e sêmen que vai dar no mar que pode ser um povo, uma nação, uma cultura. Finaliza: Montani semper liberi, ou seja, Minas: os montanheses serão sempre livres, referindo-se ao Brasil das montanhas, onde fervia o ouro no século XVIII e a escassez de liberdade. O livro é para se ler comendo pão de queijo.
Mas a música é o expoente maior de Brant. Fez letras com as cores de seu país, sem deixar de ser universal, como em Travessia e Coração de estudante. Presenteava-as a Milton como se fosse um singelo aperto de mão numa manhã de domingo pelas ruas de Santa Teresa, onde nasceu o Clube da Esquina.

Brant fez a travessia na certeza que amigo é coisa para se guardar debaixo de sete chaves, nos moldes da capa de Casa aberta. No seu túmulo estaria epigrafado: toma conta da amizade.

domingo, 7 de junho de 2015

Cesta do enfraseamento: a insignificância do perdão

                  A humanidade começa nos que te rodeiam e não exatamente em ti.
Valter Hugo Mãe, escritor angolano, em: “A desumanização

Já se era Lisboa, descida do castelo de são Jorge, no fluxo dos vagões que bucolizam a velha capital lusa, por onde transeuntes se misturam com turistas e se esbarram pelas calçadas estreitas. Na descida já se tinha uma ideia do que se enfrentaria: um calor de tostar o toutiço. para isso, nada melhor que um gole da Sagres para equilibrar o pH de um flaneur.
No caminho a noticia do jornaleiro: "mãe é presa por deixar dois filhos em cativeiro por oito anos."
Então paramos eu e Charles Dickens no primeiro quiosque, ao pé da ladeira, sob a sombra de uma árvore frondosa. Pagamos um euro por cada copo e sentamos. A cerveja descia suave, a relembrar o alentejano da noite anterior harmonizado com bacalhau lá pelas curvas da Marquês de Pombal.
Estávamos degustando e já ensaiando maquinalmente o segundo pedido quando subitamente sofremos um duro golpe: alguém bate na mesa, tomba e a cerveja é nocauteada antes do gole final. Fora um miúdo de cerca de 10 anos de idade que involuntariamente deu a cotovelada na mesa e gerou o pequeno acidente. Nada demais pelo ato em si, mas a mãe aturdida e sem umbigo disse ao miúdo, no sonoro português de Portugal, que conversaria em casa sobre aquele estorvo. Ela ameaçava-o vorazmente apontando dedo no rosto. Deu-nos a impressão que o exército de Salazar fuzilaria aquele garoto. Ela não percebia que ao pé do castelo o terreno é íngreme e o piso irregular. Qualquer movimento seria capaz de causar incidente.
De imediato a garçonete, uma rapariga loura, de pele clara, rosto e nariz afilados, sugerindo traços do leste, juntou os copos e dispôs-se a nos repor, com juros altos, os decilitros que regaram o solo. Retornou com o copo cheio. Claro que aceitamos, ora-pois, além da gratuidade, afinal de conta, já estávamos partindo para o segundo tempo e a sede ainda não havia preenchido o imenso esforço de conhecer a história dos mouros e o castelo de são Jorge, sob aquele calor que mais lembrava o dos trópicos. Sentamos e cumprimos a segunda etapa sem direito à prorrogação. Charles me chamou a atenção que a rapariga se sensibilizou mais com a perda líquida do que pela reação vaporosa daquela mãe.
Depois descemos no rumo do Baixo-Chiado com a certeza de que vira um relâmpago saindo daquela mãe. No caminho voltamos a repensar sobre a atitude da mãe, punitiva com o filho e menos incapaz ainda de nos pedir desculpas. Pensamos que fizesse parte do comportamento do lugar, pois acabavam de se noticiar que certa mulher havia enclausurado seus filhos. A foto do jornal escancarava a mãe na viatura da polícia, enjaulada.
Seria a vida uma luta de todos contra todos? Parecia-nos, pelo menos por aquela conjunção de momentos mouros. Mas como se desenrola essa luta numa sociedade mais ou menos civilizada, com a vertente europeia? As pessoas não podem atirar uma bala de fuzil contra outras, mas aquele momento me pareceu provável, mesmo tendo uma criança na linha de frente. Lançou-se, ali, sobre o outro, o opróbrio da culpabilidade. Vencerá aquele que conseguir tornar o outro culpado? Perderá quem confessar o erro?
Seguimos pela rua mergulhados em pensamentos inconsoláveis, tentando entender o que nos pareceu incompreensível; ou confirmando que cada ser humano é o decalque do segundo o qual fora concebido por sua mãe. Caminhando na direção da razão (ou para Santiago de Compostela), ainda cruzamos com a garçonete, como se estivesse sozinha no mundo, sem olhar para esquerda ou direita, nem para o cérebro ou o coração, preocupada apenas com os decilitros derramados.
Dickens me confessou que foi a partir dali que criou Oliver Twist. Para mim, a partir dali, meu pensamento ficou perdido numa rota imprevisível rodeado pela insignificância do meu perdão.