quinta-feira, 23 de abril de 2020

Rapte-me, Onça, ao seu "ne me quitte pas"


Na verdade, o codinome Onça tem face borrada pelo tempo pretérito. Destingindo a face, ele passa a ser entidade ficcional que carregamos no bolso tufado da memória. O Onça que falo é uma inspiração que se deixou viajar ao longo de quase 35 anos de lembranças, quando ainda éramos estudante e saíamos para os interiores com a turma da faculdade: ora assistência, ora diversão.
O tempo covidiano, é um convite para relembrar e escrever tais vivências.
Tem também Ajuruteua, município de Bragança, na conhecida região do Caeté, na beirada atlântica da Amazônia. É terra do poeta Corisco e da escritora e poeta Lindanor Celina. Lindanor, apesar de nascida em Castanhal, adotou a Bragança como pátria, mas depois de ganhar prêmio nacional de poesia, estabeleceu-se em Paris e por lá ficou. Já Corisco, agora em quarentena, costuma ser encontrado nos bares da cidade aos sábados, disfarçado de Hemingway ou Bukoviski. Já me confessou que, dada amizade com Lindanor, chegaram a trocar diversas cartas enquanto ela esteve viva.
Mas, voltando ao Onça e Ajuruteua...
Havíamos chegado do Chavascal no final do dia, quase anoitecendo, após longa caminhada acompanhada de boas risadas. Ficamos hospedados na vila de pescadores, numa construção de madeira bem simples, onde agasalhamos nossas mochilas. A casa não tinha compartimentos, apenas escápulas para armar redes e uma estreita bancada onde colocávamos algumas necessidades. A vila não tinha eletricidade e ficamos sob a luz de lamparina, ouvindo o barulho do mar, que vinha da direção da praia da Pancada.
Dentro da casa, Humberto, violeiro, e Rochinha, na percussão, puxaram uma roda de MPB, enquanto acompanhávamos no gogó. Dois se recusaram a participar da violada e se aconchegaram em seus sonos.
De repente chega o Onça...
Onça era homem com os matizes da noite: bem afeiçoado, forte, dentes alvos e sorriso leve. Era harmonia do lugar. Pediu para sentar e acompanhar a tocada. Vivia com a filha da senhora da casa ao lado, de quem havíamos pedido para nos albergar, vez que o dinheiro só dava pra cachaça e umas pratiqueiras pra fazer de avoado. A esposa do Onça, que tínhamos conhecido pela manhã, tinha lábios arroxeados, pletora facial e dedos em baqueta de tambor. Humberto, que armava planos para fazer residência médica em cardiologia, colocou o ouvido no peito da moça e, pelo ruflar do coração, logo fez o diagnóstico: cardiopatia congênita, provável Fallot - de prognóstico reservado pela idade avançada da jovem. Ela vivia no fundo daquela casa de três cômodos, sustentada sobre tocos afundados na areia da praia. Passava o tempo todo acocorada, comendo pratiqueira e aguardando o juízo final, sem deixar de desfrutar a beleza do lugar através da janela.
Ao chegar e logo sentar, o Onça nos deixou inicialmente aflitos. Depois foi se soltando. Pede copo e começa a entornar nossa cachaça. Enquanto apenas bebericávamos, ele botava uns três dedos da pinga e dava-lhe sem fascicular um só músculo da face. A cada talagada esbugalhávamos os olhos, sem disfarçar admiração.
Seguimos nossa toada...
Eis que rolava Caetano, com “Rapte-me, Camaleoa” e nesse momento, quando ocorrem as últimas batidas, em “Adapte-me ao seu ne me quitte pás...”, cujo nível do álcool já atingia a o bulbo cerebral, saímos emendando numa outra música que nada tinha a ver com a original do Caetano. Na sequência My Boy e o Rochinha seguem complementando a letra num ritmo harmonizado com a sutileza do Onça, a degustar a branquinha. A catarse finda e a melodia é cifrada numa harmonia muito simples.
Quando a gente finaliza a canção, com o refrão “Ajuruteua, amei o teu mar”, todo comemoram, saúdam-se e riem. Menos o Onça, que permanece em seu estado “interestelar canoa”, à sombra de nossos olhares curiosos pelo canto do olho.
De repente, aproveitando nossas apneias, o Onça grita: - ROGER É SOM DOIDO. E logo cai pra trás, duro como uma estátua, levando a cabeça ao chão. Em seguida fica se estrebuchando, como se estivesse num octógono após um cruzado de Ali. Espantado com o grito, fomos acudir, achando que o homem tivesse em coma por uma apoplexia cerebral. Nada! Relaxou e dormiu a noite toda naquela posição desajeitada, a lembrar um Rodin.
Foto de Ananda Varma
Amanheceu e procuramos pelo Onça, mas ninguém o viu. Seria uma visagem saída dos contos de J.K Rowling? De repente, vê-se duas redes ensanguentadas e o chão com pequenas poças de sangue, embaixo dos dois que optaram por dormir mais cedo. Tomamos um susto. Os dois, de imediato, passaram a mão no traseiro, para assegurar que não houve tentativa de golpe baixo por parte do felino. Vimos que no dedão do pé de ambos havia lesões puntiformes, indolores, em linha, que lembravam picada de algum animal com presas. Eram morcegos vampiros, disse-nos a vizinha, comum na região do Caeté.
Nas noites seguintes àquela violada, antes de dormir, os dois não deixaram de dar suas bicadas naquela resto de cachaça que, além de santa, foi abençoada pelo Onça com o antídoto anti-hemorrágico.
Já de volta, tiveram que ir ao posto de saúde tomar a vacina antirrábica, dose semanal, durante um mês. Cada picada no abdome era um arrependimento de não ter visto a onça beber aquela água.

domingo, 19 de abril de 2020

Silentio (Por Corisco e Labareda)

O arco que ora construímos neste período de exílio, nas entre-horas das pálpebras semi-abertas, permitiu-nos apreciar, longamente, pela primeira vez, a vida interior. Quisemos ao longo desta quarentena conviver com a literatura universal e científica mais que qualquer outra arte. Ao reconstruir metáforas, diz-se que os momentos foram de puxar cadeira e conversar com poetas sob a sombra das mangueiras que ainda habitam nossas infâncias.
Enquanto discursos falseadores caem e teses levantam em forma de ensaios científicos, em meio ao encovidamento indolente, optei eu por visitar a literatura que havia guardado para o final, quando findassem os trabalhos de artesão da ciência moderna.
Eis que ao começar a ler a última publicação da JAMA, sobre novidades farmacológicas, a campainha toca e desperta este ermitão. Do quintal cruzo a casa pelo corredor para receber o carteiro mascarado: É um poema rascante de meu poeta preferido.
Já nas primeiras estrofes a presença do invisível tornara-se tão presente, que de pronto catapulta-me para outro destino, deixando-me uma presença ameaçadora, silenciosa, fatal: a de um Vírus - que de tanto poder, passo a pôr letra maiúscula.
Sinto-o em cada trisco de vida que me pertence e também nos que se avizinham. Tudo é ameaça: desde o inocente pãozinho que nos aquece e apetece no raiar do dia, ao delivery que chega carregado de fatalidade. Tudo é ameaça: é guerra, é flecha com pólvora destinando meu pulmão a deixar o fôlego a mercê de um fole insuflador de ar.
Minhas vaidades se afastaram e o espelho reflete medo. As ruas imploram pelas buzinas estrepitosas, os xingamentos dos apressados e o mau humor dos motoristas de ônibus que sempre exibiram sua fortaleza de lata em detrimento dos indefesos pedestres. Somos todos frágeis, embora continuemos desiguais, porque o invisível, respeitando a Darwin, sente-se à vontade nos menores atos, e as divindades estão ocupadíssimas no esforço de atender seus crentes, assim como a ciência tem ritmo próprio para esperançar os mortais.
Enquanto isso um condutor amalucado dirige um povo pro abismo. Salve-nos o que restar de razão e lucidez antes que o pandemônio nos sugue para o buraco negro da solidão dos astros.
Estamos confinados, subjugados, engaiolados, enquanto nossos heróis lutam bravamente na guerra da vida contra a morte silenciosa e sem dó.
Mas posso dizer, enfim, ao poeta, que vivi viagens com amigos; sentei ao lado de meus parceiros de escola; caminhei ruas com filhos; deitei à luz do candeeiro com minha amada e abracei os irmãos de sangue antes de me trancafiar.
Porém, depois que o mensageiro deixou esse envelope, cuja marca d’água era um caracol de RNA rodeado de uma coroa de rei, a dita tomou fôlego e pousou na minha narina. Vi-me tal como aquele curió cantador dentro da gaiola de minha infância tenra.
Mas...
“Deixemos de coisa e cuidemos da vida, pois se não chega a morte ou coisa parecida” o silêncio do mundo trafega pela vida em escalas de séculos, explorando as polissemias do verbo to be, ou a viver travessias sem a estrela-guia, rumo ao oeste incógnita, a deixar corpos tombados pelas valas da Lombardia ou em barrancos de águas barrentas que toldam minha visão.
Ao findar a leitura, levantei-me e fui ao muro do quintal, a procurar o eco do sol para silenciar minha tormenta. Dei de cara com “filosofia”, de Salvatore Rosa, exposto na National Gallery de Londres, de memória recente. Nele o fundo cinza representa a tristeza do mundo em relação ao momento. O rosto do jovem, com o olhar fixo diante de toda escuridão, desenha a curva montanhosa da matemática à frente do novo ritmo exponencial. O seu latim exprime a verdade: Avt tace aut loquere meliora silentio. Cai em mim todo silêncio do mundo.
Subitamente vem outra imagem: aquele cartaz da enfermeira, afixada em toda porta de hospital, pedindo silêncio aos enfermos de alma – e de pulmão. Agora, esperançoso, estendemos (eu e o poeta) o pedido aos cientistas de alma e de coração e, se sobrar algum silêncio no coração de todos, vale a poesia de Maria Souza, portuguesa (Universidade do Porto) e Imunologista de 80 anos e poeta. Ela morreu, esta terça-feira, vítima da Covid-19. Escreveu este poema à beira do leito de morte.


Carta de amor numa pandemia vírica


Gaitas-de-fole tocadas na Escócia
Tenores cantam das varandas em Itália
Os mortos não os ouvirão
E os vivos querem chorar os seus mortos em silêncio
Quem pretendem animar?
As crianças?
Mas as crianças também estão a morrer

Na minha circunstância
Posso morrer
Perguntando-me se vos irei ver de novo
Mas antes de morrer
Quero que saibam
O quanto gosto de vós
O quanto me preocupo convosco
O quanto recordo os momentos partilhados e
queridos
Momentos então
Eternidades agora
Poesia
Riso
O sol-pôr
no mar
A pena que a gaivota levou à nossa mesa
Pequeno-almoço
Botões de punho de oiro
A magnólia
O hospital
Meias pijamas e outras coisas acauteladas
Tudo momentos então
Eternidades agora
Porque posso morrer e vós tereis de viver
Na vossa vida a esperança da minha duração

Maria de Sousa
3 de abril de 2020



sexta-feira, 17 de abril de 2020

Uma lágrima por Espinosa (Por Corisco)

      Estava num Rio estranho, numa Copacabana diferente, onde as águas  estavam longe e as pedras do calçamento não se faziam em ondas, como o mar.
      Esse Rio era uma Copacabana em forma de praça, uma linda pracinha num aprazível bairro, quase autônomo, chamado Peixoto, onde crianças brincavam sob o olhar atento de mães e babás, todos protegidos por prédios baixos ao derredor.
       Meus olhos estavam encantados com a paisagem bucólica que eu não imaginava encontrar. Havia uma certa paz e um ar de coisa do interior que fazia minh'alma vagar de um canto ao outro atenta a esse encantamento que me tomava.
       Num esforço retomei a consciência do motivo que me levera até lá. Procurava por Espinosa, o herói policial de Alfredo Garcia-Roza. Onde moraria? Em qual dos prédios? Estaria me olhando semi escondido pela janela, ou à  sombra de alguma árvore que enfeitava o lugar? E assim deixei o tempo me ocupar num ir e vir infinito.
       Desisti de encontrá-lo ali e fui à Galeria Menescal tentar a sorte na Baalbek onde ele poderia estar investigando uma esfirra. 
Perguntei por ele e fui informado que talvez o encontrasse no Pavão Azul.
       Lá me deportaram pra 12a DP, logo em frente. Não estava. O dia já estava se entregando à  noite e nada de Espinosa. 
       A sorte me ajudou e Welber apareceu entre o cansado e o espantado. Ele sugeriu que não buscasse por Espinosa, esse tinha ido ao funeral de seu mentor, Garcia-Roza e iria sumir.
       Pasmado e impactado, sob "O Silêncio da Chuva" e o "Céu de Origamis", vaguei como um "Fantasma" até que um "Vento Sudoeste" soprou como se atravessasse "Uma janela em Copacabana", me devolvendo o prumo e me empurrando rumo ao táxi de Berenice. 
       Assim pude chegar à Trattoria. Entrei.Havia tristeza nos olhos dos atendentes. Pedi um vinho tinto e, sem disfarces, deixei cair uma lágrima por Espinosa.

Corisco

sexta-feira, 10 de abril de 2020

Pelos labirintos da metodologia científica

“Não sabemos como medir a velocidade da ciência, mas o que sabemos é que os cortes nos investimentos científicos equivalem a cortes na nossa capacidade cerebral e beneficiam apenas os políticos que ascendem com a ignorância”.
Mario Bunge, filósofo argentino.

Entre Lausanne (Suíça), Rio e São Paulo, três médicos pesquisadores discutem em rede social o uso da Cloroquina. Como epidemia vara fronteira com passaporte alheio, aqui do meu recanto da floresta amazônica fico a ler os amigos que tanto admiro e a interpretar Mario Bunge, filósofo cientificista da linha de Karl Popper (1902-94).
- “Todo político quer levar os comprimidos da cura”. Segue: “Este vírus deve voltar no ano que vem. Se continuarmos sem as respostas, a confusão no próximo ano será igual”.
- “Essa questão da Cloroquina virou uma coisa insana. É uma questão de metodologia científica e não política.”
- “l’émotionnel va dans les deux sens: vers ce qui terrifie et vers ce qui rassure. Le narcissisme rôde partout”
Percebe-se claramente que todos estão abraçados na questão científica, ou seja, vê-se preocupação com os rumos da politização da Cloroquina. Conclui-se: fora dos valores da ciência a pandemia vira pandemônio; impera o empirismo.
Para meu poeta preferido, o tempo perdeu a linha e parece que ficamos a ermo, como se Teseu cegasse, a ponto de perder a luz e viver só, perdido nesse mundo tão cheio de razões voláteis, que nem a lucidez tem vez, mesmo recebendo sinal da estrela guia. É a alucinação que vem iluminando o caminho e o Minotauro se refaz do mito grego e vem à tona vestido de ninharia política, a brandir verdades que só cabem nos bolsos dos desesperados.
Se Mario Bunge, autor da epígrafe, ainda fosse vivo, teria convidado Karl Popper e convocado a banda do Super-Trump para uma “laive” em plena Manhattan, vestido de Teseu – ou de toureiro - para enfrentar o touro de Wall Street.
Morando no Canadá, Bunge morreu aos cem anos (fevereiro de 2020), mas entrou esperneando no esquife. Duas semanas depois, a OMS declarou a pandemia. O azar foi nosso. O filósofo era um defensor do método científico por meio do realismo científico, em que se descreve a ciência a partir do seu objetivo e de suas conquistas para produzir descrições verdadeiras (ou aproximadamente verdadeiras) do mundo. Tal como Popper, ele era avesso à pseudociência; sendo mais claro, avesso a balelas vitaminadas de ciência, o qual cognominou de “risco de falseamento”. Diante dos desafios à terapêutica antiviral com cloroquina, certamente teria como contribuir à polêmica que ora vivemos.
Se contarmos pelas páginas da epidemiologia, Bunge nasceu em meio a outra pandemia, a Gripe Espanhola, e coincide morrer em outra. Declarou, de mãos limpas e sem máscara: “Negar a ciência é muito mais fácil que aprendê-la”. Com este diapazão, provavelmente ele condenaria os atuais ensaios sobre a Cloroquina e ficaria com o seu olhar de lince à espreita de resultados clínicos robustos, só para abrandar a ferocidade dos alucinados - inclusive a minha. Juntamente com o brasileiro André Kalil (Nebraska Medical Center-EUA), estudioso no assunto, entenderia perfeitamente que no ar viciado, que ora a peste empesta, o vírus vaga à vontade. Estamos “tratando as emoções”, segundo ele. E completa: "Muitas drogas que acreditamos serem fantásticas acabaram matando pessoas... como é difícil continuar explicando isso."
Não obstante, o editorial da renomada British Journal of Medicine foi categórica em definir que: “neste momento, exceto pelas medidas de suporte, a doença não tem remédio.” Os fatos são sonoros, mas houve grunhidos. Aliás, ouve-se grunhido por todos os cantos do planeta. É o grunhido que impressiona e cala a filosofia científica e deixa a população de olhos esbugalhados na TV, participando ativamente do sepultamento dos novaiorquinos ao ver o vírus nocauteá-los como se fosse um jab na bolsa escrotal do touro de Wall Street, apesar do uso liberado da Cloroquina nos EUA.

Roger Normando - Professor do departamento de Clínica Cirúrgica II, disciplina de Cirurgia Torácica - Universidade Federal do Pará.


sábado, 4 de abril de 2020

Carta de Corisco para Labareda sobre o confinamento

        Ao me aposentar, já tinha plano: escrever. Para escrever é fundamental ler.  E mais: ter o derredor à flor da pele. Então ver e ouvir também são da maior importância. Convém ainda registrar que o confinamento pouco me afeta, vez que já havia feito essa opção. Então, vesti meu pijama com a estrela do Botafogo, calcei meu velho chinelo, deixei de lado aquela camisa do Hemingway que trouxeste da Flórida, e passei a obedecer à nova ordem mundial.
     Com a folha em branco à minha frente e lágrimas de saudade de meus amigos da esquina, comecei a escrever depois que perguntei sobre você e sua saúde, já que estás no olho do furacão. Senti-lhe algures, entre a luz e a solidão do mundo. Tento rabiscar e logo vejo que preciso do bar, pois o que me vem à tona é a peste: desde o morcego às últimas notícias de Veneza.
     Sem dúvida, afeta-me o reabastecimento do afeto nos bares: lá ouço as viagens a Cubanacan, do Paulo André, arena do Zé às quartas e a derivação pros lares, tropeçando no verbo to be. As conversas de boteco me afetam, pois eram minha anfetamina. Até do Luiz, que anda semeando a bela Lisboa, sinto sua lonjura. 
Mas como poderiam escritores e poetas retratar as doenças? O que pode a humanidade aprender com as epidemias? Que ensinamentos podemos extrair dos cientistas, dos médicos? Que: quanto mais depressa se deixar sair a ideia, quanto mais logo se for escrever, mais verdadeiro estaremos, pois tudo é o retumbar dos sentimentos à beira do caos - coisa de poeta. Checar os periódicos da ciência e os grandes pensadores, que já emitem opiniões no meio da ventania, não é para poeta. Poeta quer é tirar a poesia do borrão; quer reler de Camões a Camus, cuidar do bando, da abadia, do Sabá e do inesquecível Zabelê.
       Dentro de casa, a zero por hora, viro pro lado e vejo-me lendo Bukóvski e os “Karamazov” como se tivesse sentado à beira do abismo; depois vou para o outro lado e deparo-me com João de Barros, Quintana, Ruy Barata. Neles a vida corre serelepe. É quando entro em equilíbrio.
     Pois bem... Refletindo sobre essa praga, penso que teremos algumas mudanças significativas, mas nenhuma que altere a natureza profunda das coisas. Passado o caos, não creio que a natureza humana restará arrependida da própria existência. Estaremos mais técnicos, doutos, lavando a mão a cada talagada da branquinha e usando máscaras para beijar a amada. Passaremos a substituir a água com açúcar e os florais Bach por comprimidos de Prozac ainda no café da manhã aos Domingos de Ramos.
       No chão concreto de Manhattan, o capital continuará sua busca de reprodução através de novas formas, seja toureando pela Nasdaq, seja batendo estaca em canteiros de  obras de Beijing - sem deixar de lado o avanço da robótica e do próximo vírus transmutado. É quando Marx se reboliça no túmulo, tentando amaldiçoar Adam Smith quanto à questão dos mal incluídos no sistema de trocas através do dinheiro.
Como incluí-los? Haverá essa preocupação? Bilionários e milionários continuarão assim e os pobres e miseráveis, que tiverem sobrevivido, continuarão assados. Será que essa calamidade deixará alguma lição que redunde em maior solidariedade, compreensão e efetiva preocupação com o próximo? Tenho dúvidas. Talvez eu seja um cético incorrigível. A História, escrita com as letras do tempo, responderá com tintas negras sobre papel pálido dos neoliberais que recolhem dízimos dos miseráveis.
Daqui do meu poleiro, sobre as mangueiras que me emprestam amizade para amenizar os destroços do meu coração, espio a rua vazia, a virulência desse ataque e a vil certeza que existem carências mais graves que a própria doença. Tais carências atravessam diversas nações e atingem no alvo aquelas que se vestem de potências e ululam por mares de soberba, ao achar que tudo se resolve com a pílula de antimalárico e um tubo 7,5 na goela dos que procuram vento para desafogar o fôlego. 
        Abraços, Corisco.

sábado, 28 de março de 2020

Uma jornada ao vidro-fosco


Fred Hoyle era um astrônomo brincalhão e adorava burilar ideias. Reza a lenda que na Inglaterra pós-guerra, em entrevista à BBC, alcunhou o termo Big Bang à teoria de criação do universo. Sobraram gracejos. Ele quis falar, de forma frajola, sobre a explosão que gerou as galáxias há 13,8 bilhões de ano e do tiroteio de átomos, a partir do Buraco Negro. Ainda não se sabe quem apertou o gatilho, se Deus ou mudança de temperatura do universo, mas o bang-bang do Big Bang pegou prumo e, apesar dos sussurros durante a entrevista, a palavra vestiu-se de delírio e vem desfilar neste texto.
A partir desta expansão do universo nascem ampulheta, espaço e as horas dos relógios. Einstein, Hawkins, Carl Sagan, Edwin Hubble e uns tantos mais andaram debruçando seus cotovelos sobre a teoria. Tal conteúdo ficou mais denso com as recentes publicações do Bóson de Higgs em laboratório - conhecida como “Partícula de Deus”.
Desde então, os astrônomos quando olham para o céu noturno e veem aqueles vaga-lumes piscando, certamente vem à tona a entrevista do bem-humorado Hoyle.
Decerto também a oncologia pulmonar teve seu Big Bang, assim como seu Fred Hoyle. Com os tomógrafos helicoidais de alta resolução - nossos telescópios-, partículas em forma de poeira, menores que meio centímetro, passaram a ser visualizadas no cosmo pulmonar. A esse achado chamou-se de vidro-fosco. O vidro-fosco é o nosso Big-Bang, pois o pulmão, repleto de ar, deixa passar, frivolamente, os raios colimados, mantendo o desenho dos brônquios e vasos. Porém, quando há qualquer perda da transparência, a imagem torna-se fosca – uma espécie de poeira.  
Deixa ver que, no inicio do século passado, John George Adami, professor de Patologia na McGill University-Canadá, cria o termo “lepídico” no seu microscópio, que viria a ser o vidro-fosco como tradução imagética. Lepídico vem do grego: “escama de peixe”. Ele quis dizer em seu livro Princípios de Patologia, que padrão refere-se à lesão circunscrita que descama e escorre para o interior do alvéolo e por lá, acumula-se a ponto de formar um amontoado, justapostos como “escamas de peixe”. Assim sublinhou: são células tumorais de adenocarcinoma, proliferando ao longo da superfície de paredes alveolares intactas, sem invasão estromal ou vascular.
Desde então, quando se mira a tomografia e se vê aquele desenho opaco ofuscando o parênquima pulmonar, desconfia-se do Adenocarcinoma, tal como os astrônomos vislumbram as galáxias em seus telescópios.  
Com melhor entendimento do padrão em vidro-fosco, agora em evidência pela nova peste, houve necessidade de se refazer a classificação anatomopatológica do câncer de pulmão e, desde então, Adami não foi o mesmo: a pneumologia mudou sua rotina e a oncologia torácica viveu a catarse.         
Com esse diapasão, IASLC-ATS-ERS, maestrinas interessadas no assunto, puseram o vidro-fosco e o padrão lepídico numa mesma sinfonia e propuseram a nova classificação da categoria T. Trouxeram à baila desenhos geométricos para se recalcular o estadiamento. A inclusão destes elementos morfológicos, restritas ao Adenocarcinoma, deu novo rumo ao tratamento cirúrgico, assim como ao prognóstico.  
O incessante rastreamento (do inglês screening) em busca dos vidros-foscos tornou-se a maior fissura da atualidade, em que se vislumbram melhores resultados para a cura do câncer pulmonar.  
Porém uma próxima conquista tem pressa e busca por tumores avançados. É bem provável que venha pelos filamentos helicoidais da linguagem genética do EGFR, KRAS ou ALK, ou num futuro ainda não encomendado... Mas deixemos a poeira desta peste passar.

sexta-feira, 20 de março de 2020

No ninho do Minho



Flor do Lácio Sambódromo Lusamérica latim em pó
O que pode esta língua?
Caetano Veloso, na canção: “Língua”

Ao lado da Sé de Braga, na região do Minho, um gajo de solene aparência vende toalhas de mesa com poemas escritos na protolíngua local. Explica à brasileira que aquele sotaque os distingue na lusofonia: vizinhança com a Galícia - mais acima, em Espanha.
Em Corunha, Galícia, um grupo de cirurgiões brasileiros visita um hospital e posa para foto. Na porta do centro cirúrgico está sobrescrito: Unidade de Cirurxía Torácica. Isso mesmo! Cirurgia com "x".
Na realidade, o Minho aninhou a raiz da neolatina língua portuguesa. Foi lá que o nosso rude e doloroso idioma veio à luz. A nossa língua, de viço agreste, veio da Itália, região do Lácio, próximo a Roma. Era falada por soldados, camponeses e camadas populares, que migraram para a Galícia, esse recanto esquecido da península ibérica. Lá fincaram bandeira sem delimitar território. Depois, como numa irmandade, desceram para Portugal sem marcar fronteira.
Ora, pois, como a poesia está para a prosa, então parti de Braga rumo à Galícia, só para sentir na tuba auditiva a raiz de nossa lira singela.
Não deu pé: chuva medonha. Paramos em Viana do Castelo, fronteira. A bela cidade, para nos salvar, guarda boas livrarias. Entrei, bati os sapatos, sentei e pus-me a ler sobre nosso ouro rico de ganga impura. Comecei a depurar por Afonso Henriques, o primeiro rei. Nascido em Guimarães, berço de Portugal, ele oficializou a língua como galego-portuguesa, após expulsar os árabes e uns poucos normandos que sobraram da invasão viking. Com isso, o rei retira a língua de Camões do exílio e põe na rota das grandes nações. Historiadores aferem que Portugal, verdadeiramente, nasce neste exato momento.
Li também que o primeiro poeta foi o rei dom Dinis. Desconfio até que aquelas trovas impressas nos souvenirs próximo à Sé de Braga começaram com esse poeta galego.
Então, a partir do rei, da poesia e da criatividade, a língua ganha rua, contornos, e passa a se chamar a língua do reino. A partir daí ela desce para Lisboa, reconhece os versos de Luiz Vaz e vai parar no Algarves para ganhar adaptações e sotaques. Do continente lança-se ao mar e atinge ilhas vizinhas, África e o Oriente; cria confusões de prosódias ao atravessar o Atlântico para invocar Gregório de Matos Guerra, o “Boca do Inferno”, no lado brasileiro; aguça Olavo Bilac, no poema que exalta a última flor do Lácio. Depois veio a música “Língua”, de Caetano, tudo junto e misturado no mesmo sangue, com a boa dose de lirismo: “como se num suave azulejo o rio Amazonas, que corre Trás-os-Montes, numa pororoca, desaguasse no Tejo”, diria Chico Buarque.
No último século, com a expansão do castelhano e as regras para o português do norte, começou a ocorrer divergência no que se falava nas ruas e, definitivamente, ela se separa do galego. Mas ficaram rastros em sua pronúncia, como a palavra “cirurxía”, por exemplo.
Ao visitar o dileto Gonzales-Rivas, oriundo da Galícia, que mora na China e por lá anda divulgando a cirurgia torácica ultramoderna, ele apresentou-me a jovem Isabel, cirurgiã galega que hoje mora em Madrid, e foi aluna sua. Na roda de conversa eu falava português, sem qualquer tentativa de me desdobrar no portunhol e os dois me entendiam muito bem. Então, alhures, ouvi os gorjeios do galego deixados ao fundo do ninho do Minho, quando despertou minha curiosidade...
    Na livraria, já era fim do dia. Continuei sentado, a escutar o silêncio da chuva cerzindo o tempo, até me deparar com “O Livro do Desassossego”. Ali vi a inculta e bela vestir-se do manto régio da transliteração greco-romana, sob os versos de “Minha pátria é minha língua”. Lá o esplendor da syntaxe de Fernando Pessoa fez-me entender que a última Flor do Lácio deixara ao léu uma pétala de rosa entre vielas e castelos de Guimarães, até que os descendentes de Guimarães Rosa pudessem juntá-la, guardá-la na alma e enternecer o imenso Portugal.

domingo, 8 de março de 2020

Cirurgia nas pontas do lápis e bisturi




“Vento que passas, leva-me contigo. Sou poeira também...”
Miguel Torga, poeta português.



"Viver é etecétera...", grifou Guimarães Rosa e, como o ponto final ainda não aportou em minha jangada de textos, sigo entre vírgulas e reticências a esperar a página em branco (ou cinza...) ganhar estampa. Desde então ando cavoucando coragem em cada ideia alvissareira em que me jogo, e me lanço ao desafio, tal como o pescador em sua jangada imbui-se da jornada ao mar.
Uma dessas ideias se interpôs em missão a Viena para realizar um curso prático na área cirúrgica. Semana antes de embarcar, recebi convite para fazer uma paragem em Lisboa para dar uma aula no hospital São José (Centro Hospitalar Universitário de Lisboa), referência maior em urgência naquela cidade. O tema cabia perfeitamente na minha vivência, por isso, fiquei honrado pelo convite. Aceitei na bucha.

Já em terras lusíadas, a Avenida Liberdade se expandia em cada passo. Dobrei o Rossio e me direcionei ao hospital com o pulso fechado. A arquitetura do lugar, até chegar ao salão nobre, é um relicário da nobreza portuguesa. Neste roteiro, caminhei pela memória de um país e de um povo, sob afrescos e iluminuras e entre paredes entulhadas de memória. Vi nas escrituras um corolário de elementos historiográficos que levaram à insignificância de minha presença: desde a reconstrução do hospital após o terremoto de 1755, passando pelos desígnios da dinastia pombalina até os mandamentos de Salazar e o Estado Novo. Aquela academia de cirurgia, então criada pelo enfermeiro-mor Luiz de Vasconcelos, mereceu resistir a essas intempéries. Ali se ouve as tessituras do tempo em notas afixadas às paredes do templo - sagrado ao ensino e ao assistencialismo. Ao escrever esta página, veio-me à memória um excerto de Lobo Antunes: “Regressando aos santos, sandálias sempre”.

Não finda aí, e a aula seria o de menos...
Consoante ao novo desafio, antes de iniciar a leitura, conheci os professores Oliveira Martins e Novo de Matos, coordenadores do serviço. Mas um detalhe na sala de espera e de reuniões me chamou atenção. Estava afixada à parede o anúncio da aula - que muito me honrou -, e um quadro branco à meia altura da parede, com desenhos feitos à mão. Não eram desenhos quaisquer, mas expressões da cirurgia com traços vivos de arte - arte como pão e vinho diário para quem dela precisa.
Ao indagar a autoria, Martins levantou o dedo; abandonou a sala... e voltou. Voltou com um livro na mão - um regalo. Ali continha alguns de seus desenhos que costuma fazer após cada emboscada cirúrgica de urgência, agora transfigurado em livro. "Cadernos de um cirurgião" é uma leitura de desenhos que se debruça no cotidiano da arte cirúrgica, ora pela dedicação profissional, ora pela causa acadêmica, conforme descreve o escritor Guilherme Martins: "É um exercício em que várias artes se cruzam. A arte do médico tem o seu próprio movimento, a sua concentração, o planeamento, a encenação, a liturgia, o gesto, a aplicação certeira dos instrumentos de precisão, o bisturi com a sua magia, tudo para que o resultado seja próximo da perfeição, que permita recuperar a saúde e o bem-estar da pessoa que o cirurgião opera. Já de si a palavra 'operar' é ambivalente - falamos de obra, de criação e de recriação. Estamos na ligação entre a arte e a ciência. E, como dizia Rômulo de Carvalho, que conhecemos a vida inteira como um outro Kant, por cujas rotinas podíamos acertar os nossos relógios: 'não somos, em última análise, o método, o processo, a forma e o modo. E se falo de encontro de várias artes, chego com a ilustração destes 'Cadernos' - o desenho, como movimento, como gesto e como representação."
No caminho de volta, a Avenida Liberdade me retoma o pulso e, na clara ideia daquela artéria da cidade, tentei fazer valer todos os caminhos por onde se busca viver eteceteramente.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2019

Ruína

Mulher, 25, apaixonada por psicopata. Traída, apontou o cano do revólver para a nuca -dele-, mas acertou o próprio pulmão. Sobreviveu, mas restou-lhe os estilhaços da culpa. O itinerante, durante o transporte para o teatro cirúrgico sapecou-lhe o verbo: - Por que não atiraste nele?" Ela, simploriamente, respondeu: - "Eu ficaria encarcerada o resto da vida e perderia a confiança de todos os meus amigos. Então escolhi a própria morte". A escolha se transformou numa abertura de um palmo, no peito, para desencarcerar a dor da vitória sobre o destino. Restaram coágulos sobre a mesa e dois pares de luvas evertidas penduradas na aba da lixeira, deixando escorrer o sal rútilo-vinhoso e um certo cheiro de desconfiança do mundo. Tudo, agora, segue sob outra pele, em gotas de Rivotril-a-granel e em passos de Gardel. 

terça-feira, 12 de novembro de 2019

Uma colher de chá aos chineses


A china de outrora traduz o selo da longevidade na pintura “Grande tio-avô Yizhai na idade de 85”, período da dinastia Ming (1368 a 1644) – pós-queda dos Mongóis. A obra em pergaminho é citada como autoria de Ruan Zude (1561 ou 1621), exposta no MMA, Nova York. 
Não obstante, durante a visita à Cidade Proibida, em Beijing, encontra-se a escultura de uma tartaruga com cabeça de dragão fincada na entrada de uma das tantas edificações. Representa a longevidade que os chineses d’antanho já se preocupavam. Está na alimentação o ponto-chave, tendo o chá como a melhor inferência. 
Quem visita a China percebe a quantidade de idosos nas calçadas e alguns até escalando a Grande Muralha, mesmo em passos de cágado. Num país em que a prevalência de cânceres de pulmão é alta e onde vive a maior população do planeta, a arte Ming vale como referência milenar aos bons hábitos alimentares, e isso pode superar o contrapeso das doenças cancerígenas numa população geneticamente desfavorável, que vive num bioma nocivo por conta de agentes carcinogênicos inalatórios (poluição). 
Se arregalarmos um dos olhos e vislumbrarmos os asiáticos, um sachê de chá todos os dias poderá acrescentar uns passinhos a mais nos degraus do tempo. Com o outro olho, atiçado pela ciência, a gente começa a ver que ômega-3 versus radicais livres precisam ser bem entendidos para nos alimentarmos de forma serena e oxigenada.

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

O lusco-fosco

Fotografia de Adriana Varejão
Quem visita o Museu de arte de Lima, Peru, pode se defrontar com esta peça em cerâmica, datada de 1400-1532 d.C. A imagem transporta-nos à figura de um crustáceo, no centro de um alguidar, com os olhos esbugalhados, prestes a dar um salto no colo da mira. A imagem ficou consagrada na medicina como uma representação do mal, o Câncer, considerada doença clandestina, a qual se fala sussurando, por representar malfeitura da natureza (uma tradução simbólica da mutação - o crustáceo - no núcleo celular - o alguidar). Pergunta-se se a morte por Câncer pode ser evitada. Não é possível considerar todas as variantes como factíveis de controle - ou mesmo cura-, mas o que mais se faz é lutar contra essa avassaladora doença, desde a sua raiz genética até a extirpação. O de pulmão, o mais avassalador de todos, representa preocupação pelo silêncio dos sintomas, e que nos assusta pela imagética que abeira o cotidiano de cirurgião. Portanto, se virem três, ou uma multidão de médicos agrupados por idéias e vontades, saibam que eles estão envolvidos no objetivo de tirar do fosso o fosco olhar a este universo desvairado.
Tirar do fosso o olhar fosco é deixá-lo bandear por aí em busca de outras luzes, mais sutis, mas não menos potentes. É o mesmo que interpretar as estrelas do céu, ou o Big Bang que a ciência rascunha em seus desenhos, mas que ainda não conseguiu a solidez. Para esta missiva, o olhar poético é sempre farol na escuridão, em meio às tormentas. O seu combustível é a fé e a imaginação, a experiência e a ousadia de buscar a cicatrização. 
É um olhar modesto, acolhedor, que sabe que não pode tudo sozinho, daí a busca do auxílio de mãos e ombros, para erguer e acolher - ao que chamamos de board. 
É um olhar de instante, que relampeia na escuridão, mas ilumina caminhos. Nem que o caminho seja estreito, curto, sem a luz do sol para o amanhã, sem a perspectiva de sanar a dor ou recuperar fôlego. Um passo a mais pode ser a distância entre a desistência ou a vitória. Um olhar desses, firme na tempestade, é sempre inspirador, não importa o que aconteça depois - neste tempo ao alcance das mãos -, mas que nos foge às rédeas. 

quinta-feira, 22 de agosto de 2019

Para sempre, Bettina!

No ambulatório pergunta-se ao jovem Esdras Edgar, prestes a concluir o grau médico, quando se sentiu pela primeira vez abraçado pela medicina. Não respondeu de imediato. Olhou para o próprio umbigo e depois estendeu e recolheu o olhar para Isadora, sua colega, ao lado. Após alguns segundos rememorou todas as páginas de seus PDF e, sem gaguejar, respondeu lucidamente: “foi quando colhi a primeira história clínica.”
Relatou naquele momento que havia recebido a aula teórica de propedêutica e, aguçado para colocar em prática, vestiu-se a caráter: jaleco alvinho com caneta BIC no bolso, calça nova e tênis branco com mais de mil léguas de pisadas. A aula é estruturada numa sequência desde os primeiros sintomas e como evoluem ao longo do tempo de doença - se melhoraram, se pioraram. Também se usa medicamento e se há resposta. Algo sobre familiares e modo de vida. A última parte da anamnese inclui hábitos, como o de fumar ou mesmo de praticar esportes.
Todas essas informações dão ao médico o claro entendimento da natureza e da origem das condições clínicas e como elas se encaixam dentro de um padrão. É o ritual acadêmico. A partir de então é gerado o diagnóstico. Depois vem a segunda anamnese, a terceira, e a partir de então temos um roteirista. É o que se considera alfabetização clínica.
Tinha razão, o Esdras. É o primeiro contato físico com pessoas doentes e normalmente acontece no início do terceiro ano... E não dá pra esquecer o professor.
Veio-me a lembrança de Bettina Ferro e Souza no momento daquela resposta. Aí o tempo parou e me rendeu na coleira, apertando minha jugular. Como as pessoas passam depressa, sussurrou o tempo, em meu cangote.  Parece que a gente consegue parar o tempo e perceber que ele – o próprio tempo -, feito visgo, adere à pele e vai bater no juízo. 
Ao ver a fotografia da professora Bettina estampada na página de um editorial da Revista da Sociedade Brasileira de Cardiologia eu revi aquelas primeiras aulas dos porões da Santa Casa de Misericórdia, onde tínhamos que aprender a escutar e auscultar pacientes. Título do editorial: “Perfil dos cardiologistas brasileiros: um olhar sobre a liderança feminina...”. Destaque à ativista médica que nos ensinava como ouvir a onomatopéia tum-tá das batidas cardíacas ou aquecer as mãos para apalpar o fígado. Bettina era baixinha e magérrima, porém sua estatura e seu peso nada tinham a ver com sua capacidade de ser mensageira de Asclépio.
Fora da sala de aula costumava-se ver Bettina aos domingos, cedo-cedo, subindo as escadarias da Beneficente Portuguesa para frequentar a missa, pois era uma religiosa fervorosa. Caminhava com uma leveza que lembrava a sua forma de se expressar e de ensinar a ler eletrocardiograma.
Àquela altura, meados da década de oitenta, quase aposentada, teve suas apostilas transformada em livro por uma grande editora brasileira. O livro tinha dois tomos. Um deles, de pura prática médica, cortejava a coleta de informações para se compor uma boa história clínica junto com o exame físico e era o que se chamava de adestramento do exame físico. Era o que mais tinha a ver com aqueles muros e pilares. Assim, o Brasil conheceu a maior obra da literatura médica oriunda dos porões da Santa Casa. Ademais, foi espelho para uma geração de professores que até hoje mantém a aura daqueles aprendizados como esteio do ensino dentro dos muros universitários de todo Brasil. Consoante a tais fatos, doou seu nome para um dos Hospitais da UFPA.
Naquela resposta jovial estavam todas as reverberações que o lançaram a responder à pergunta. E, no meio de cada um que sofreu influência ontogênica daquele embrião de ensino, não há como abolir de dentro do peito um sentimento que te lambuze, quando se revive. A tentativa de esquecer não passa de um destempero vil que se veste de fantasminha e vem fazer assombração em noites de alumbramento.

domingo, 28 de julho de 2019

MOÇO DE JUÍZO, OBEDIENTE

Por Sabá de Abadia

 Menina ainda, Joana, de Jupira
era capaz de fazer indagação
de fazer qualquer ancestral
se revirar no caixão…

- Quantas palavras há de caber
aí nesta coisa que lhe atravessa a
garganta, este nó que lhe entorpece
os sentidos, este sentimento que lhe
corta em muitas tiras o próprio coração?

- Se palavras tropeçam na língua
não será porque chegaram de
longe estoporadas,  feridas
e famintas de claridão?

- Se é possível tirar, extrair é também
então possível enfiar palavras adentro
feito bálsamo, alento, bisturi ou fermento?

- Será que existe parteiro de palavras
engasgadas, dessas que azedam
e permanecem nas entranhas
purulentas, atoladas?

Joana se fez poeta e de verso em verso
no palco e no consultório faz com a
palavra afiada feito cutelo o que
pouca gente faz: partejo do
que é justo, bom e belo.

Conheci esta rara figura ao visitar
no sertão de Pernambuco um familiar.

Disse-me ela em linguagem direta:

“Eu cutuco, porém não machuco
dou berro, mas sussurro
arranco espinhos
e educo”.

Por carta, hoje, sou seu analisando
um paciente sempre presente.

Pois logo ela me escreveu dizendo
que não bota em ninguém cangalha
antolho ou exige atitude de carneiro!

Mas pediu-me postura, estado alerta,
falando-me delicada como ferro quente,
pronto a marcar, mergulhado em braseiro.

“Ou tu te abre, ó filho de flor de urtiga
ou te caço feito rês fujona e te dou coça!

Se desejas a cura abra tuas comportas
mesmo que haja só chorume
e tudo cheire à fossa…”

Ela escreve e fala sempre em versos
como se fosse um cantador de repente.

Eu, comportado, atendo a seus comandos
pois já me fiz um moço de juízo, obediente…

26jul2019

domingo, 30 de junho de 2019

As ruas da minha aldeia


Para Corisco,  bando e quem mais se achegar
Para meus amigos de infância, em Feijó-Acre.

As ruas de minha infância guardam os festejos juninos dentro de mim sob marcação de zabumbas, sanfonas e triângulos. Hoje, se faço acordes com este silêncio das ruas de antanho, é porque faço essa colagem impressionista, tomando o pincel das mãos de Monet e guardando em minha parede.
As ruas da minha infância, hoje, olharam-me com estranhamento, como uma espécie de coruja de hábitos crepusculares, que guardam no meu sistema límbico o voo calado daquela meninice, como se fosse texto de Twain.
Ultimamente, distantes deste passado entre as terras de Tom Sawyer e da Matinta-Perera, venho tentando ajustar as cores daquelas ruas, mas não há combinação com minha tez e a colorida fama de memorialista. É tudo sensação. São sensações, pois meus pés não se arrastam no asfalto de hoje como nas ruas de outrora, alhures, pois meu passado de pedra, pó, lama e dedos descalços no açoite do sol escalpelam o toutiço e sustentam o desejo de viver solenemente alegre, ao ver os terreiros bebendo açaí na cuia com granola a desafiar as raízes simplórias existentes nos encantamentos de Paes Loureiro.
Talvez eu ande hoje nas camadas underground - estilo surrounding - de ater-me sob estrondo e estorvo da cidade grande, agoniada e desassistida de passado e de Pasárgada.
Tem o sol, mas o sol não incomoda tanto; as pessoas sim. Estas bem mais que dois sóis guardados no subsolo desta retórica. Ando, ardo e misturo tudo na minha farofa de banana pestilenta, quando vejo um homem puxando carroça com um punhado de cacarecos no lombo, para comprar o pão que o diabo untou no lodo. Lá na frente ele se veste de Bukowski e dá duas talagadas na dor de ter que viver mais um dia.
As ruas de hoje, prédios de hoje, gente de hoje, esgotos de agora, são cores insalubres de uma verdade descontinuada e segredos liquidificados. Eis que os olhares da miséria e medo são parte do enredo das calçadas irregulares e das caminhadas que insistimos em fazer por conta do ácido graxo que embeleza meu prazer de lamber os dedos na hora da fome, enquanto leio Bauman.
Íngremes entre a distância do que fui e do que sou, vejo aí que a poesia se rasteja em andrajos e me disfarça dos arcanjos para ganhar voto de bom São Miguel do Caos, em busca de quem a veja ou reconheça por trás das cortinas que atordoam Hamlet.
Tropeço em incômodos homens bem vestidos que têm pressa de chegar a algum lugar, que o leve ao nada. Trocamos pontos de vista, mas a vista já exagera no foco e acabo vendo o vestido curto da moça que rebola na hora de dizer adeus pelo canto do olho. É a hora que me desobriga de concordâncias verbais e volto pra casa para ver que a vida valeria se insistir em amar as ruas daquela minha aldeia, que guarda no cocuruto a velha farsa de fingir que não existiu, ou de fingir que não conhecia aquele rio curvilíneo que me banhava de infância.
Porque há um vasto estoque de delinquências a serem percorridas logo após a beirada de calçada de minha infância. O bar, um bar aberto, que pode ser o do Abel a espera do socorro do amigo perpetuado no passado onde moram tucujus, cujas flechas passam e me arrastam pelo amazoniamento de ser palavra verde, som equalizado do Curupira e pulso arterial que ribomba na floresta nômade dos Yanomami, donde eu vim rastejando para ouvir Joãozinho Gomes.
Sim, um bar, não um cocar! Foi a partir daí que dei os ombros àquele Acre de minha infância, onde pude despejar todo meu temor, toda descrença de curumim ao cuspir a última gota de esperança que resta no ducto sujo do meu pâncreas, pois limpa é a alma e o poema que vêm da bonança das ruas de meu terreiro de são João, das valas, dos esconderijos das vidas, onde o poeta Gullar fez-se irmandade com a calçada que anda em desavença com as palavras que guardo dentro de mim, ao vir à tona para se fantasiar de poesia.

Labareda, do Bando de Corisco

sexta-feira, 21 de junho de 2019

Sujeição ao verbo SER

A gente quando escreve faz com agulha e linha na mão, tal a rendeira, tal cirurgião de antigamente. Também a gente puxa o mundo para dentro de si e põe no colo, mas o que sai não passa de calango torrado.
Uma prova disso vejo no amigo Corisco, ao dizer que poesia não serve pra nada. É quando ele se senta no chão, a Manuel de Barros, e sapeca versos fortes, que dão saltos mortais e parecem sucumbir logo ali na esquina. Mente que nem sente, mas ele se escora no Pessoa, e diz: poeta é fingidor. Ele se finge de morto pra comer o cupuaçu do coveiro, pois logo que é tirado do pé é azedo que nem abóbora com elixir paregórico ao leite de magnésio.
Aí certo dia fui em busca de inspiração para escrever com a linha na mão estas mal traçadas letras. Dei uma de Marcel Proust e vazei pelas ruas de Paris, ou melhor, pelas beirada da Pariquis, e fui bater na Benjamin. Não para me encontrar com Paulo André, tampouco Clovis ou Antônio Maria, no esfumaçado Cosa Nostra. Parei antes: Moquén. Uns dez metros aquém.
Soube que o Paulo Cal, o Tito e o Elias Pinto andam por lá, degustando o moqueado do Moquén. Deve ser bom, pois esta trinca não costuma dar bote errado.  
Sentei e vi o Chef na minha direção, afinal era o primeiro a chegar. Fui de Tambaqui. Deu liga. Ele falou dos sonhos, dos temperos, da sua nova vida acadêmica e de suas viagens gastroenteroestrelares. O tambaqui harmonizava com o papo do chef. As paredes, mais um tanto-mais. O homem era de alto quilate e Surucuá teria passado por ali para dar cor àquela alma e àquela parede printada por um cortesão da mais nobre arte.
Falamos de nosso passado nos arredores do Tucunduba. Sim, pois somos contemporâneos de faculdade. Falamos daquele rio que singra nosso tempo estudantil, feito bisturi que corta a carne do nosso passado incontornável, de lá donde o Guamá fez a curva até largo de Santa Luzia, convivendo nos porões da Santa Casa. Tudo passou feito faísca queimando, sem dó, o glicogênio de outrora que nos amaldiçoa agora.
Sobremesa? Não, água. Não esquece que minhas coronárias já guardam algumas placas tectônicas de cálcio insalubre e a qualquer momento posso bater o cacau. E o meu colesterol mais lembra que a vida é breve. Ainda bem que a arte seja longa, diria nosso Hipócrates.
       Logo depois o Moquén inchou. Mas eu já tinha de partir. Antes chegou o Luiz e passamos a rir sem direito à preposição, verbo e educação. Tomara que a vida continue nos dando ocasião para o riso solto, pois, ao escrever, finjo-me de ladrão e escapo de encruzilhadas e do tédio, e passo a roubar fingimento de escritor para ver se a vida me desabrevia. Afinal, estou aqui pra lamber palavras e o tempero quem vai dar aos textos é  a poesia nossa de cada dia, com direito a um Pinot Noir e um pedaço de tapioca ao gosto do chef.