domingo, 25 de junho de 2023

TRAQUEOPLASTIA: do projeto ao programa médico-social

              Traqueoplastia (ou laringotraqueoplastia) é terminologia médica, e significa restaurar e remodelar a traquéia e/ou laringe (vias aéreas) por meio de cirurgia e/ou endoscopia. É indicado em pacientes acometidos por  afecção inflamatória/infecciosa, traumática ou cancerosa.

Com número grande de doenças nas vias aéreas como resultado de internções prolongada em CTI, o governo do Estado do Pará criou um programa chamado TRAQUEOPLASTIA, por meio da Secretaria Estadual de Saúde (SESPA), após intervenção do Ministério Público Estadual (MPE) a partir de 2015 por meio judicialização. O programa social iniciou em 2016.

A história começa quando o MPE ouve a queixa de cerca de seis familiares, liderada por uma jovem estudante de direito, de origem marajoara, cujo irmão, um vaqueiro, havia levado um tiro na cabeça ao defender de assalto a fazenda de seu patrão. Foi acudido e levado ao maior centro de trauma de Belém. Lá ficou entubado por vários dias. Sobreviveu a todas as complicações possíveis, mas saiu com seqüela na respiração, por isso carregava uma cânula de traqueostomia no pescoço, que também ocultava a voz. A irmã, que tratou de procurar um serviço público para sanear a questão, achou no hospital universitário Barros Barreto (UFPA) a especialidade Cirurgia Torácica. Depois de quase um ano na lista de espera, resolveu procurar seus direitos no MPE.

Não obstante, a jovem estudante tentou avaliar a possibilidade de tratamento privado, mas logo percebeu que não tinha reserva financeira pra arcar com tantas despesas. A complexidade do caso, assim como o tempo necessário para o tratamento, deixou-a angustiada. Ganhou espaço num dos jornais da cidade para denunciar a lentidão do hospital e o grande drama que viviam esses pacientes.  A diretoria do hospital universitário nos convocou para responder à imprensa, pois aquele hospital não era referência em cirurgia para correção de defeitos da traqueia - aferiu o diretor. Em princípio discordamos, mas depois revimos as condições hospitalares, pois este tipo de operação precisa de material específico e cuidado diferenciado. Percebemos que ali estávamos diante de um tema complexo, cujas complicações são elevadas e graves, mesmo em centros mundiais referendados.

Pela falta de um centro de referência e o isolamento geográfico da Amazônia, o MPE impôs à SESPA a criação de um centro especializado em Belém. Coincidentemente, por ter expertise no tema, fomos convocados, agora para montar o projeto. Com multas bastante elevadas estipuladas pelo MPE, a SESPA teria que se desdobrar para montar o serviço, do contrário, o Estado teria que ressarcir aquele jovem vaqueiro e mais meia dúzia que amontoaram queixas ao MPE. Asfixiada, a SESPA se viu na obrigação de criar um programa para durar seis meses, especificamente para tratar aqueles pacientes judicializados e dar resposta ao MPE.

Demorou mais de ano entre idas e vindas à SESPA, pois o projeto teria que ainda tramitar por diversos setores do governo até se concretizar. Em agosto de 2015, recebemos chamado que havia sido aprovado. Em outubro de 2016 o serviço foi implantando, inicialmente para durar apenas seis meses.  

Seis meses após o início, mais de 20 pacientes traqueostomizados se apresentaram ao ambulatório. E o que era para seis meses dura até hoje, com novos e novos casos, cada vez mais complexos, até se transformar nessa representação nacional.       

Durante esse período já realizamos mais de dói mil procedimentos endoscópicos, o triplo de consultas e cerca de 120 pacientes com operações abertas complexas.

            Realizamos simpósio com transmissão ao vivo para todo o Brasil; recebemos mais de 20 cirurgiões torácicos brasileiros e alguns estrangeiros. Vários residentes já passaram por lá, de diversas especialidades ligadas às vias aéreas. Dois deles vieram do Chile, e passaram dois meses em atividade, participando dos procedimentos endoscópicos-cirúrgicos.

            Recentemente, durante o XXIII de cirurgia torácica da SBCT (Sociedade Brasileira de Cirurgia Torácica), realizado em São Paulo, fomos laureados com o prêmio Antonio Ribeiro Netto, pelo desafio social do programa social na Amazônia. Igualmente, ganhamos o terceiro lugar entre os pôsteres apresentado, que deverá se tornar um artigo científico.

O hospital Galileu, onde é desenvolvido o programa é um hospital de 100 leitos, localizado na Grande Belém, distante 20 minutos do centro.

No primeiro dia de atendimento, já havia vários pacientes. Escolhemos como primeiro caso para operar - o mais simples. Depois vieram mais casos, até pegar embalo. Nosso maior medo, o de encontrar casos bizarros e complexos, foi lentamente superado a cada resultado cadenciado pela boa resposta pós-operatória. Três elementos foram fundamentais, do ponto de vista técnico: estudar bastante, ler obstinadamente outros autores, praticar e convidar grandes cirurgiões de fora de nosso Estado para analisar criticamente o programa. Do Oiapoque ao Chuí, literalmente, fomos recebendo cada um. As operações complexas foram ficando simplificadas, até se tornar rotina. Outrossim, desenvolvemos adaptações às clássicas técnicas, a qual tomamos como melhoramentos.

O programa se desenvolve em apenas um dia da semana, aos sábados; realiza-se cerca de três a quatro procedimentos endoscópicos ou cirúrgicos por cada dia, mas sempre estamos ultrapassando a meta. O programa sobrevive com tecnologia básica, pois ainda não temos acesso a dispositivos de ponta. Ou seja, o lema é: fazer bem o básico.

Mais da metade dos pacientes procedem do interior do Estado, que é composto por oito milhões de cidadãos e tem o tamanho equivalente à vizinha Colômbia, o terceiro país em extensão da América do Sul.

Três cirurgiões titulados pela SBCT compõem o serviço e são os autores deste livro. Existe um CTI de cinco leitos específicos para cirurgia de vias aéreas, além de enfermarias com médicos clínicos, fisioterapeutas e fonoaudiólogos com vivência no tema e visitas diárias. O Hospital não dispõe de sala de emergência, mas há um CTI preparado para receber pacientes que necessitem de urgência e emergência, com todo material prontamente disponível para se realizar desde traqueostomia a dilatações e entubações, sempre com um dos cirurgiões de sobreaviso e a presença do intensivista.

O programa é administrado atualmente pela OS ISSAA, que sempre tem apoiado, juntamente com a própria SESPA, grande fomentador. Entretanto ainda estamos carentes de alguns pontos na área de tecnologia, por exemplo, ainda usamos cânulas metálicas em nossa rotina, já bastante ultrapassadas; carecemos de moldes laringotraqueais, de laser e de broncofibroscopia. Na área humanitária, ainda nos falta um serviço voltado para crianças, outra área delicada, pois não são poucas as que necessitam de uma abordagem com expertise.


Texto: Roger Normando, Responsável Técnico pelo Programa TRAQUEOPLASTIA e Professor da disciplina de Cirurgia Torácica - Curso de Medicina - Universidade Federal do Pará

quinta-feira, 20 de abril de 2023

Minha aldeia, minha tribo...

    "Eu não caminho para o fim, eu caminho para as origens."    

Manoel de Barros, poeta.

    

        Morei quase cinco anos no Rio de Janeiro, logo após a graduação. Quando cheguei por lá, beirava os 24 e tinha sonhos na profissão - como qualquer um. Mas coexistiam medos: Rio é bem maior que Belém, assim como Belém é bem maior que os interiores do Acre e de Rondônia, de onde brotei. E isso é o suficiente para encarar os enfrentamentos.

        Vencida essa etapa, acenei, ao final do período de residência médica, que gostaria de voltar para minha tribo. Confesso que o chefe da aldeia carioca, um desses tupinambás aguerridos, já havia me convidado para ficar, mas suas palavras não tinham o prego que sustentasse minha alma à cruz do Corcovado. Veio também convite da universidade onde fiz mestrado. Claro que fiquei honrado, mas preferi regressar.

Já em Belém, volta e meia recebia ligação para voltar. Ainda não tinha filhos e vivia num apartamento mirrado, no Souza, bairro afastado do centro. Andava de ônibus e meu apurado vinha do trabalho como oficial temporário do exército, mais alguns plantões de CTI. Passado oito meses, recebi um ultimato, que coincidia com a Eco'92, no próprio Rio. O telefonema sacudiu minha base, mas resisti. Certamente todos poderiam me aclamar como aru. Fiquei amuado e, confesso, passei uns tempos trabalhando com um lado da cabeça, ao estilo dark side of the moon. Parecia que havia uma comichão nas minhas têmporas, a ponto de perder a concentração no trabalho.

       Logo em seguida a esposa resolveu ir ao Rio, para ficar uns tempos com a família. Digamos, matar a saudade. Pronto, era o fim! Eu disse para mim mesmo, e até hoje ela não sabe, mas achava que não voltaria mais; que ali estaria o fim de meu matrimônio. Então teria que arrumar as malas e voltar, se quisesse salvar o casamento. Era o telefonema  abençoado voltando a tilintar na minha cabeça.

        Naquele meu mundo, ninguém entenderia minha paixão pela terra, pelos amigos do futebol aos sábados, assim como as idas à Curuzu; pelas chuvas da tarde e o mormaço no toutiço; pela convivência com os irmãos e pais; a saudade do açaí e do taperebá, além dos shows do Nilson Chaves; sem falar do cheiro de maniçoba que ronda a semana do Círio de Nazaré. Como viver sem isso?

      Eu também via como coisa ardente, a possibilidade maior de crescer profissionalmente na minha cidade, após ser bem acolhido na chegada. Lá, talvez não tivesse tanta chances, em que pese ter deixado amigos que até hoje me faz reacender aquele convite de 30 anos atrás. 

      Com o passar dos anos, cada vez mais me vi fincado profundamente ao solo da indomável floresta. Talvez por ter convivido com tantos Ashaninkas e Kaxinawás durante minha infância no Acre. Provável que isso tenha me deixado meio aparentado com índios, e com enraizamento nada superficial. 

Foto: David Normando
        Isso me fez relembrar os tempos de escola, no Acre, que no 19 de abril tínhamos que desfilar pelas ruas com rostos pintados de urucum e penas de pássaros ao redor do calção ou cabeça, e umbigo de fora. Era forma de reverenciar os povos originários. Guardo em minha memória a fotografia do Paulo, um dos irmãos, vestido de tuchaua. Ele encabeçava o desfile, perfilado num jeep Willis, sem a capota. Meu pai, com sua Olimpus trip 35, eternizou aquele momento. Lá no interior daquele mundo era feriado e, para mim, ainda até hoje.

       O desfile aberto não era só encantamento de nossa infância. Hoje leio como forma de repudiar Borba Gato e os demais bandeirantes, assim como essa nova era filogenética de exploradores da terra. Escrevo assim para que jamais suma de nossa de memória o encantamento por essa floresta e por quem cuida dela. 

        Hoje são 19 de abril. Moro em Belém e sigo casado, só que agora carrego dois curumins em meu jamaxin. Cá fundamos a tribo Ya-Normando, uma frajola homenagem ao nosso pai, nascido em Roraima, berço dos Yanomâmis.

quinta-feira, 13 de abril de 2023

Café em pé

            Aquela manhã, em que estávamos programando visitar a Confeitaria Colombo, acordara encoberta, chuviscosa - maneira de dizer, mas manhãs não acordam, manhãs acendem o candeeiro de Deus. Acordamos nós nelas. Então, pela janela, vimos que o céu estava com suas nuvens baixas e caía uma chuvinha miúda, preguiçosa. Será que vai avançar pelo dia? Se a nossa visita ao Rio fosse nosso diário de bordo, por certo o escrivão da nau lavraria assim, a sua primeira lauda: A manhã acordou encoberta e chuviscosa. Convém não abandonar o barco.

Como se o céu estivesse desagradando a aventura de passear pelo centro da cidade, partindo do Largo da Carioca. Sempre nestes casos invocamos o céu, tanto faz que chova, como faça sol. Naquele dia, resolvemos esperar até o chuvisco dar uma trégua, mas só aconteceu no início da tarde. Então partimos, sem olhar celestial.  

A confeitaria estava lotada desde a porta - era de se esperar. Sem poder sentar, optamos por ficar em pé, tomar café em balcão de mármore e apreciar a beleza inata do lugar, ao sabor de pasteis de nata, para reverenciar Lisboa. Aquele conjunto de decoração é chamativo, apelativo aos corações luxuosos. São 125 anos de tradição, além de grandes histórias e encontros.

- Moço, o senhor tem algo para degustar, sem lactose? Perguntou alguém, bem ao lado.

O atendente, agachado por trás do balcão, o mesmo que nos serviu, levantou-se, elevou a cabeça, fitou o teto e, antes de responder, sem dirigir o rosto para a cliente, olhou para aquele luxo todo, luzes e espelhamento, de forma compassada. Pelo movimento dos olhos, parecia ter viajado alhures.

Cada um de nós vê o mundo com os olhos que têm, e os olhos vêem o que querem. Os olhos fazem a diversidade do mundo e fabricam as maravilhas - ainda que sejam de pedra -, e as altas proas - ainda que sejam de ilusão. Talvez, ali naquele metro quadrado, ele estivesse remontando o passado getulista, a remeter-nos ao Estado Novo, período pruriginoso de nossa plataforma política. Naquele lugar, precisamente no segundo andar, olhando do primeiro pelo teto vazado ao centro, com paredes espelhadas, brilhantes e extremamente limpas, Getúlio Vargas costumava reunir-se com seu séquito para desfrutar de café e diversas companhias, de modo a criar ambiente da alta política.

A confeitaria Colombo é um dos mais belos cafés do mundo. Realmente não tem como contestar sua beleza apoteótica e as diversidades de seus doces. Dá aos cariocas orgulho e história secular; mantém energizada a tradição da influência europeia em nosso modo de viver. 

- Moço, o senhor tem algo para degustar, sem lactose? A jovem senhora insistiu na pergunta. Então o jovem atendente retornou e respondeu, mantendo as costas para a visitante: 

- Salada.

quinta-feira, 23 de março de 2023

Aos olhos de Golias

    Há mais de ano venho acompanhando o nódulo pulmonar da esposa de meu professor de literatura, da época do segundo grau. Ela foi submetida à retirada da mama por câncer há alguns anos, e o aparecimento da pequena mancha pregou-lhe novo susto. Com características benignas, a imagem vem lentamente regredindo de tamanho nesses quase dois anos de seguimento. Ele a acompanha rigorosamente às consultas e sempre me leva, de presente, um mimo de sua coleção, pois sabe que tenho uma pequena livraria na sala de espera de meu consultório, repleta de clássicos da literatura brasileira e universal. Tudo doação dos próprios pacientes.

    Nessa caminhada com sua esposa, vi outra lição do professor: acompanhar a sua amada, tornando leve as terras mais estranhas. Lutar juntos. Enfrentar!

    Já aposentado, os livros doados pelo professor são todos cheios de intervenções a lápis - da época ativa, em que não existiam marcadores de textos multicoloridos. Naquelas páginas me vejo sentado, assistindo às aulas. É delicioso ficar lendo seus comentários. Depois enfileiro o livro na minha pequena estante, que fica na sala de espera sem wifi e televisão, exposto a novos admiradores.

    Outro dia ele levou um Álvares de Azevedo.

    Curioso sobre a morte do poeta aos 20 anos de idade, ele me sapecou uma dúvida quanto à causa: “alguns dizem que foi a queda de um cavalo, outros  tuberculose”. Ao lado do John Davis (Clinical Surgery), um livro de mais de três mil páginas que guardo há mais de 35 anos sobre minha mesa, expliquei-lhe cientificamente a relação entre o traumatismo craniano provocado pela queda do cavalo e a tuberculose, numa relação incomum, mas plausível. A queda ocorre baseada no estágio avançado da doença, que evolui para grave desnutrição e, consequente fraqueza muscular e quedas. O próprio escreveu sobre a evolução avançada de sua tuberculose:

“Embora – é meu destino. Em treva densa

Dentro do peito a existência finda...

Pressinto a morte na fatal doença.”

     Claro que nos idos de 1852 a “Tísica” tinha prognóstico diferente dos tempos atuais. Por isso, senti-me gigante naquela explicação, ao demostrar conhecimento clínico ao meu admirável professor. Era como se tivesse batido no peito, mostrando que eu sabia muita ciência para explicar muitas coisas, entre as quais, o estudo do nódulo pulmonar e a morte de Alvares de Azevedo. No final, ele arrematou: “ainda bem que sabes muito mais de literatura, afinal, foste meu aluno...”

    Toma-lhe-te! Bem no olho!!!

    Ao fim do dia, senti-me Golias. Aquela pedrada agravou minha cegueira num dos olhos. O outro vai tentar compensar a perda. Ainda há tempo? Só se encompridar a vida...

    Em tempo: vale relembrar que hoje, 24 de março, é o dia mundial de combate à tuberculose. O Brasil registrou, em 2022, 78 mil novos casos — aumento de 5% em relação ao ano anterior.



quarta-feira, 8 de fevereiro de 2023

“Chão de Mangue” após meu luto pela Fox

A verdadeira viagem de descobrimento 

não consiste em procurar novas paisagens, 

e sim em ter novos olhos.
- Marcel Proust

Estive no encerramento da Livraria Fox, que por alguns anos passou a fazer parte de minha rotina do ócio criativo. Virou comichão, quando me achava vazio de conhecimento, farto da rotina e precisando rever amigos. Por lá levei Dom Elias de Pindaré, cirurgião maranhense que tem desvio para a literatura, para tomar um café. Por lá me esbarrava com raras amostras de leitores: Corisco e Tito, os mais conhecidos.

Era início da noite. Estava socada de gente. Passei o olho naquele mundão e, de supetão, me veio o indomável Augusto dos Anjos: “Vês! Ninguém assistiu ao formidável enterro de sua última quimera”. Era o fim. A despedida.

Em meu último momento fotografei do celular. Depois tomei rumo e atravessei a dr. Moraes, em direção ao carro. Não comprei nada. Fui em estado de luto. Chovia forte e estava sem guarda-chuva, mas o que menos importava ali era molhar-se. Ao apertar a ignição revi a luminária verde: Fox. Augusto do Anjos saiu do inferno e mandou novamente: "Acostuma-te à lama que te espera!”. 

Meu principal objetivo ali sempre foi buscar o desconhecido. Faço sempre o mesmo quando vou ao Rio, na livraria da Travessa, de Botafogo. Também em São Paulo - cuja livraria Cultura também acabou de falir -, Coral Springs (Barnes&Noble), Londres, Paris – margeando o Sena. Tenho queda por sebos. Ali sento e vejo o que não está na mídia. O bom é descobrir com os olhos de Proust. Na da Travessa descobri Ilze Scamparini; na daqui mergulhei em excelentes autores, como Edyr Augusto. E agora, com o enterro da Fox - como um Baudelaire ao longo do Sena -, onde flanar por livrarias?

A flanagem literária é exercício de raridade - assim penso. Ela começa desgovernada, ao léo, e vai tomando prumo à medida que se identifica determinado autor, tema, até que você se vê enfronhado nas páginas de um livro.

Então me veio a pergunta - enquanto a chuva caía e já dobrando a primeira esquina: qual seria o primeiro livro a me encantar depois do fim da Fox? E não é que naquela mesma noite, meu irmão, por uma navalhada do destino, presenteia-me uma autora desconhecida e amiga dele!

            Há quem se desmanche em neve, quem se solte em pétalas.
            Eu deslizo de mim em pedras secas: pedaços de chão rachado.

Impossível juntá-los, perdem arestas. 

A química me despedaça.

Os átomos entram para curar.

Matança de construções biológicas 

para alcançar fugitivas nos labirintos.

Corpo ligado à alma por fio em curto-circuito.

Ninguém vê pedaços rolando da falésia terracota.

Uma vida inteira para desmanchar. Só deslizar da mesma secura.

Sem descanso, arrimo, brisa, noite. Devagar.

 

O livro chama-se “Chão de mangue”. A autora é Simone Lopes. Para quem tem quereres por Machado de Assis, vê-se traços que testemunham a sutileza de nosso inconfundível escritor. Entretanto, o que me mais me fisgou foi como a personagem Marisa tratou o câncer de mama com disciplina em suas dores e obstáculos; sem pieguices. Pudera, Marisa é uma professora de gramática e sabe o quanto significa a boa escrita... E sabe também quanto pesa obedecer a boa ciência médica.

A capa é de bom gosto e lembra raízes do mangue, mas poderia muito bem representar os ductos lactíferos da glândula mamária, por onde escoa o néctar que alimentará a vida. 

Quando a delicadeza do final do livro surgiu, fez-se silêncio em minha poltrona de leitura. Eu estava só, a me perguntar como a dinâmica da contextualização é capaz de vestir as horas enquanto se lê. Senti-me preso àquele momento e minhas pobres raízes agarraram-se em meus dilúvios. Durante toda aquela leitura, meu santo bateu asa e foi morar no Atacama.

(Atenção, atenção! Não sei onde encontrar o livro, tampouco se a autora, mergulhada em sua dimensão, queira se apresentar à literatura. Mas quem convive com Tito, Corisco e com a Fox, sabe que a leitura e a literatura não têm dimensões e fronteiras, pois o melhor mesmo é ter novos olhos).

quarta-feira, 25 de janeiro de 2023

“Só sei que nada sei”

Tenho um gosto danado pelo comum, pelo que acontece e não se festeja. Isso tudo escorre de mim quando eu chego ao hospital no início da manhã, hora em que há suavidade no céu infundo e o verde denso do estacionamento repleto de árvores gigantes. Hora em que há mais espaço pelo arvoredo, onde o doce pungimento das almas penadas ali desfilam. A paisagem é um estado da alma e chegar cedo é bom motivo para conhecer o desafiante Quantonio, que aos 17 anos parou de comer sólidos. Por conseguinte, desaprendeu a mastigar. Chegava naquele momento aos 30, mas sofria com a possibilidade de não mais poder engolir o pão de cada dia. Foi-lhe sapecado o diagnóstico de “estenose de esôfago”. Estenose em medicina é o mesmo que estreitamento, obstrução. Uma das causas é tumor maligno. E essa possibilidade foi aventada para o Quantonio.

Dizia que melhorava por uns tempos, depois voltava a ter dificuldades para engolir. No máximo pastas ou sopas. E assim deixava a vida lhe levar. As endoscopias com dilatações sempre mostravam a mesma coisa, até que ano passado ficou crítico: só passava líquido. Até o açaí do grosso ele abandonou, com medo de ficar entalado. Tomava só do fino. Agoniado, acabou internado para usar métodos médicos. Passaram a sonda pelo nariz e a comida, liquidificada, chegava até o estômago feito um escorrega-bunda, atravessando o órgão oco e estreitado.

Na sessão de discussão de casos complexos em câncer ficou descartada tal hipótese. Menos mal, porém o último exame já mostrava que 75% do diâmetro estava ocluído. A doença progredia e ele estava cada vez mais magro. Fez um exame sofisticado chamado ecoendoscopia. Não deu para retirar fragmento para exame, mas se viu que por fora do órgão havia compressão. Já era alguma coisa - a luz de candeeiro no meio da floresta escura. Então só restava a cirurgia.

Antes de marcar a operação, normalmente às sextas-feiras, consultei o calendário, pois era mês com sexta-feira 13. Havia uma salvadora sexta antes da treze. Agarrei-me nela. Não gostaria que os anjos do mal, durante a cirurgia, ficassem azucrinando ao pé do meu ouvido, destilando premonições.

Diante de casos complexos, assim, é sempre bom ligar para amigos. Então consultei um com expertise em esôfago. Fui desanconselhado a operar. Sugeriu que repetisse as dilatações até ficar permeável. Aquilo seria meu fim - aliás, o de Quantonio. Não tinha mais como desmarcar, após algumas dilatações sem sucesso.  Seria uma decepção muito grande para ele, que apostou tudo no bisturi, pois jamais se via tomando açaí por sonda e sem farinha de tapioca.

Então fui pro campo ressabiado e com a certeza de que não sabia o que fazer - agora somada a outra opinião. Acordei com os sinos da Sé, tomei café; dei no pé. Fui com fé.

Montamos o sistema de vídeo à câmera de alta resolução e começamos: Eu, a Priscila, residente de cirurgia geral e vários alunos - por se tratar de hospital universitário.

Não obstante um e outro me perguntavam o que ia fazer. Dizia: biopsia. Nada mais que isso. Fui peregrinando calmamente com os instrumentais, procurando entender aquela anatomia razoavelmente deformada. Era como se estivesse me apoiando ao caduceu, pelo caminho de Santiago de Compostela.

Fragmentos para amostra foram retirados e o órgão liberado de amarras cicatriciais, endurecidas. Findou aí. Depois despertaram o Quantonio. Saí de campo com a certeza absoluta que deveria ter dado ouvido ao meu amigo mais experiente. Seria desastre maior se tivesse ocorrido alguma outra complicação, já que o tórax é área de cano grosso e qualquer vazamento pode custar vida. Aí eu me jogaria de cabeça do segundo andar. 

No dia seguinte, ao despertar ainda com a sonda, Quantonio sentiu a estranha sensação que a sua saliva descia suave. Fez um teste com um copo d’água; em seguida foi café e um pedaço de pão de sua acompanhante, que estava dormindo. Abocanhou sem dó. Desceu macio. Ali se viu atravessando uma ponte, agora mais alargada, bem devagar, à velocidade mínima autorizada para dar ao tempo a melhor tática para restituir o seu fluxo de vida e a sua cura.

Permanecera em silêncio e com sonda por mais dois, até a alta. Acordava cedo surrupiava o pão de todos da enfermaria só para testar a deglutição. Nada de entalo. Ele não se conteve e contou a verdade ao médico que passava visita. O médico tomou um susto e disse-lhe: “todas as coisas relegadas ao abandono, se continuam a respirar, remete-nos a Deus. Estás de alta”.

Ou seja, os físicos, em suas exatidões científicas, explicam, escrevem, detalham leis, prescrevem mundos e equações, mas existe pequena quantidade que não cabem na medicina, pois algumas vezes estamos diante do mistério, do escondido, sem deuses oniscientes a legislar sobre o futuro do presente. Por certo, ao longo da jornada aceitamos o incerto, o duvidoso. Certezas, como a de Quantonio, não têm encantos. Seríamos pobres sem a clareza do talvez. Embalar palavras para alimentar epistemologias serve-nos apenas para dar coragem para atravessar cada novo dia que alvorece.

domingo, 15 de janeiro de 2023

Quando eu tentei assassinar o Tasy

Para Helena Brígido 

    Ontem uma coruja me acordou às cinco, crocitando Edgar Alan Poe. Nos contos de Poe, quando isso acontece, a morte violenta é prenúncio. Então, com o azar lançado, empunhei meu parabelo num lado da cintura e uma adaga do outro e saí para trabalhar, como faço todos os dias. Vai que alguém queira me tirar do sério... 

    Dei partida na ignição. Na primeira parada já havia risco de luz no céu do Guamá. Foi numa casa de saúde cujo nome tem contorno de modernidade. À primeira vista não consegui falar correto, mas uma enfermeira me disse que tinha que dobrar a letra I, de ignorante, para "ai", mas sem se contorcer de dor. Era o segundo prenúncio de morte: a dor. Fui consultar uma obra de Sheakspeare, o usuário da palavra que dava nome ao hospital e, estava lá, a morte rondando as cortinas de Hamlet (todo mundo antes de morrer grita ai). Por um átimo de segundo, tive uma disritmia. Percebi que algo terrível estaria por romper a trava de segurança de meu parabelo ou de minha adaga. Eu sentia o gosto salubre de sangue. Lembrei da época militar, quando tínhamos que chupar o sangue do pescoço da galinha esgorjada.

    Pois agora, depois de passada a pandemia e felizmente após a quarta dose da vacina, e eu ter me intoxicado de cloroquina e Ivermectina, esse esses dois arquitetos das palavras resolveram se encher de intimidade comigo. 

    Foi batata! Sentei meio indisposto na cadeira em frente ao computador, encarando o Tasy e uma puta dor me abateu: cólica cerebral. Além do gosto, agora sentia o cheiro de pólvora no ar. Ou melhor, do sabonete Phebo. Amofinei. Mesmo de máscara, cheguei a ouvir o vírus dizer: "Perdeu, Mané!". Quase solto o barro, ou melhor, o barroso. Não consegui trancar, pois nada estava tranquilo.

    Mas não me rendo facilmente. Afinal, a turma que acorda cedo só se entrega após teclar imprimir e depois ouvir o zunido silencioso da máquina de impressão. Não deu. Deu foi barro. Nem entrei no programa, sequer. Por 20 minutos teclei a senha e... nada. Era a sétima em sete meses ali, naquele hospital pomposo. Ontem mesmo eu fizera a última troca. Mas nada. De repente, uma voz sai da tela: "você é um idiota"... A voz que ouvia saía com um timbre que me fez lembrar "O último tango em Paris", ao pomo de Marlon Brando. Era chamamento. Era a hora. Então,  antes que me derrotassem, saquei a adaga e esfolei a tela do computador, como se estivesse à frente de um Di Cavalcanti. Fiz o mesmo em mais outras duas, três, quatro...

    Saí do hospital algemado. No dia seguinte vi a reportagem na TV. Fui preso pela PF e quem me algemava era o Japonês da Federal. É impossível resistir a um complô. O xilindró era meu destino certo. Minha alimentação tem sido à base de brioches, salmão na brasa com manteiga de laranja, bacalhau a todas as modas, pirarucu de camiseta, ovas de tainha, aves ribeirinhas ao tucupi, como dizia o meu Coach. Por sobremesa alfajores argentinos e cannoli italianos, ou musse de cupuaçu. por opção. Poderia até estar pegando o rango da Papuda, sem reclamar. Ao contrário dos briosos "patriotas", "anarquistas do bem", que tantos sacrifícios fazem pra nos livrar do comunismo, esse mal terrível deve ser a Covid dos sistemas de saúde que nos encarcera. 

    Creio que, mesmo após eu ter sido enjaulado por tentar destruir o sistema do sistema, azucrinado por Marlon Brando, Poe e Hamlet, o sistema ainda respirará pela pele e eu ficarei o resto da vida sendo chamado de otário.

Labareda do bando de Corisco

quinta-feira, 12 de janeiro de 2023

Certains songs...

 

Reports in the literature are limited in evaluating the complications of penetrating laryngotracheal injuries

Mario López, Stella Martinez and Carlos Carvajal,

J Cardiothoracic Trauma 2022;7:10-14.


    I was listening to Milton Nascimento and, at the same time, contemplating a dense scientific article written by a group of surgeons from Bogotá. The melody was instrumental, but inevitably the lyrics levitate slowly and pass through the clear light of the relationship with what is read: “Certain songs that I hear fit so deep inside me, that I need to ask how I didn’t do it?” And I kept admiring that article that freed me from the lost ideas in my thoughts.

    The more I read, the more I felt like a liar, thinking I had written that article. What audacity (or schizophrenic outbreak)! In my conjectures, there is a sore point that emergency surgeons tend not to discuss: the follow-up and the risk of late complications in patients with neck and airway injuries. So, I need to say how I didn't write this article. How did I not write that thought?

    Gathering the pieces of the floor, it's no longer time to regret. It's time to transform the ideas into a scientific article and disseminate it to the world, with the database we have. Our number of cases (in six years) is greater than those in the Colombian article published in The Journal of Cardiothoracic Trauma - a new journal whose editors are the legendary Kenneth Mattox, the renowned Demetrios Demetriades and the paladin Moheb Rashid. I sent an e-mail to editors and Rashid, one of those surgeons who is passionate about the trenches of trauma - as I once was - who does his best for this journal, answered me. The article is called “Factors Associated with Early Complications of Surgical Management due to Penetrating Laryngotracheal Trauma in Colombia”, by Mario López, Stella Martínez and Carlos Carvajal. Stella is well known among Brazilians in the area of thoracic surgical oncology, but, from about what I have read, she also shares her knowledge in the field of trauma.

    The work will serve as a pillar for ours, in the statistical analysis phase, in which it evaluates, by rigid endoscopy (videolaryngotracheoscopy), the long-term behavior (at least three months), the patients who were admitted to the emergency room, after trauma to the larynx and trachea.

    As every job always leaves a room for the next one, a kind of call, the airways group at the Galileu hospital (SUS/SESPA/Government of Pará) dares to propose an answer to the queries of the Colombian job, which confesses: it is important to highlight that the limitations of this study are related to its retrospective design, a small number of patients in a single center, and a short follow-up time. Despite this, this study is one of the first to describe the factors associated with early complications of penetrating laryngotracheal trauma in the literature, the factors associated with early complications of penetrating laryngotracheal trauma.

    Now it's a matter of waiting for Mattox, Demetriades and Rashid, from The Journal of Cardiothoracic Trauma, to accept our proposal to answer the questions of the Colombian group. Such acceptance may represent what I usually call the positive entropy of the scientific universe, that is, Milton Nascimento and Tunai, the Brazilian authors are happy to say that, the heat of reading “invades, burns, and encourages”.

Prof . Roger Normando, MD

Thoracic Surgery – Hospital Universitário Barros Barreto - Universidade Federal do Pará - Brazil

domingo, 8 de janeiro de 2023

Descanse em paz, Roberto!

             Eu ainda nem tinha dez anos de idade quando, ainda no interior do Acre, havia sido sorteado para férias no Rio de Janeiro. Como meu pai tinha um amigo carioca que era sargento do Exército, ele se prontificou a catalisar essa felicidade. Viajei num Bufalo da FAB, sob a tutela do militar. O Sargento, por nome Renato, que também era vascaíno, proporcionou-me ir ao Maracanã para ver um novo ídolo do Vasco que acabara de chegar: Tostão, tricampeão mundial. São fios de lembranças, mas o Vasco ganhou, e quem fez o gol foi um garoto que estava surgindo: Roberto. Depois descemos até o bairro de Botafogo e fomos comemorar numa churrascaria chamada Pavão, que hoje não mais existe.

Numa outra arrumação, agora em São Januário, era fim de tarde no Rio, e eu havia levado meus dois filhos, ainda muito pequenos, para conhecer a colina e ver o treino da Cruz de Malta, antes da estreia no mundial de clubes de 2000. Foi quando Dinamite cruzou à minha frente no portão principal da entrada de São Januário. Roberto, então da diretoria do Vasco. Eu dirigi-lhe a frase: - Eis o motivo de eu ser vascaíno... Ele ouviu e, claro, voltou, após se distanciar cerca de um metro. Apertou minha mão e agradeceu as palavras. Sempre sorridente, aproveitei e pedi para que posássemos para foto. Abraçamo-nos de lado e, de frente para minha Pentax K1000, deu-se o clique. Minha esposa registrou aquele momento. No mesmo cortejo ele me perguntou o que significava Vascoalhada, grafado logo acima do escudo da camisa que eu usava. Disse-lhe que era um time de peladeiros em Belém, que prestava homenagem ao personagem Coalhada, do vascaíno Chico Anísio. Num tom de brincadeira, por conta do nome, disse que gostaria de jogar naquele time. Despedimo-nos. Ficou a lembrança.

Herdei esse carinho por Roberto e pelo Vasco por meio de meu Pai que, assim como eu, gostava muito de futebol. Certo dia perguntei a ele o porquê de ser vascaíno, já que não tivera nenhuma relação com a colônia portuguesa e nunca tinha ido ao à cidade Maravilhosa. Prontamente respondeu: por ser o primeiro time de futebol a receber negros em seu elenco. Se o não foi o primeiro, não há dúvida que adotou uma atitude que contribuiu decisivamente para a inclusão de atletas negros, mulatos e demais brasileiros que não pertenciam à elite. Naquela época, o racismo imperava no futebol brasileiro.

Foi nesse clima que Roberto, oriundo de Duque de Caxias, viveu sua vida de paixão pelo Vasco da Gama e conquistou o coração de diversos brasileiros. A sua forma de dar atenção aos seus fãs revela o berço humilde de seu criadouro, que se estendeu à política e à presidência do clube.

Descanse em paz, Roberto.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2022

(In)certas memórias - o Bando de Corisco.



 

Benquerença é pros predestinados,

pros bem-aventurados, pro de boa sina...

Não precisa ser nascido

Antonio Maria Pereira, o Corisco


                Achei que nunca fosse escrever sobre Corisco. A começar pelo nome adotivo, Corisco vem lá dos sertões - dos sertões de Benquerença, um principado independente dentro de Bragança, que nasceu antes de fundarem a cidade. Está fincada às margens do rio Caeté, no Pará, na beirada do Atlântico Sul, logo abaixo da linha do equador. O codinome Corisco é uma espécie de códex, diria Leonardo Da Vinci. Benquerença é para Corisco a sua Macondo de águas diáfanas. Ou sua Pasárgada, onde tem prostitutas bonitas que moram na “Casa dos Anjos”.

            Mas como nasce um escritor e qual sua relação com o bar, prostitutas e a birita? Precisei ler todo o livro "(In)certas memórias", da Populivros editora, e só encontrar o motivo no último conto: “vocações”. Em que pese a travessia de toda leitura ser o estrondo do livro, “vocações” define qual é o delírio de ser escritor. Foi aí que me emocionei. Por quê? Porque é por esses vestígios que me nucleio a Corisco.

            E onde eu encaixaria o estilo corisqueano de suas crônicas? Corisco tem a semelhança física do Hemingway, mas carrega com maestria o pássaro azul de Charles Bukovski, ao inalar a fumaça de cigarro das putas e dos atendentes dos bares e mercearias. Se se pode escrever assim, esta foi a cadência literária de Corisco. Ele recria uma atmosfera de Cem Anos de Solidão (Gabriel Garcia Marquez), ao recriar outra Macondo de atividades mundanas, reúne os seus Buendías nos Bares. Sim, foi no Rex Bar a primeira vez que ele viu o gelo - e logo tratou de pôr no copo e misturar com cachaça e limão. Mas ele entendia que precisava compartilhar com os amigos. Conheci um dos Buendías de Benquerença: Da Estepe. Tornou-se médico. Para melhor entender seu comportamento, tive que reler o psicodélico personagem de Hermann Hesse.

O livro, em si, traz um convívio íntimo com aquele principado, que parece ter sido modelada para Corisco. Certa vez postei uma de suas narrativas num grupo de peladeiros do zap: “Os craques de Benquerença”. Imediatamente um dos membros gritou: “Opaaaaaaaaa”. Era o Buriri.

Até eu, Labareda, estou em “(In)certas...” em: “Uma conversa com Labareda”. Na realidade, Corisco mostra naquele poema a sua face mais passarinha com as palavras. Talvez seja o único capítulo em que Corisco se veste do admirável poeta das madrugadas cheio de incertezas e filosofias, e sem um pedaço de chocolate à mão. Corisco ali é Mia Couto, Rosa (Noel e Guimarães), Gabo, Dalcídio e Lindanor - aquela que mais lhe influenciou antes dela partir para Paris. Tem também Fernando Pessoa, Ferreira Gullar e Manoel de Barros. Esse último lhe causa delírios. Eu sou o Labareda, um escrevinhador sem estudos.

Por um tempo Labareda achou que Corisco deveria publicar suas poesias e seus escritos. Ele me ralhou. Quase escarra o sangue de uma hemoptise no meu jaleco. Reprovou-me, mas fingi esquecer tudo isso para criar um broadcast chamado Bando de Corisco, que durou um lustro de vida. Era todo fim-de-semana. Passei a divulgar sua poesia às escondidas. De repente, coloquei-o no grupo sem-querer-querendo e ele percebeu os comentários prodigiosos de Sabá de Abadia e Zabelê. Fechei o grupo logo depois, por não mais conceber a doída partida de Zabelê para o segundo andar, que coincidiu com o dia que Bob Dylan subiu ao púlpito do Nobel de Literatura.

Não vim para destilar crítica literária e comentar uma obra tão profunda quanto a de Corisco, mas quem passou por leituras da Turma da Mônica, tomou Tetrex para tratar estrófulo, levou vacina de revólver nos dois braços – ao mesmo tempo - e nasceu às margens do rio Juruá, não tem como deixar de ser
PHD em literatura. Com esses ditames, eu entraria de primeira no priorado de Cambridge e não me esquivaria a
T.S. Elliot... e ainda levaria 
Corisco.


domingo, 27 de novembro de 2022

A dor no tornozelo e a dor de cotovelo

         Neste domingo fiz uma provocação em diversos grupos de futebol, ao postar um texto de Walter Casagrande Júnior: "Um verdadeiro ídolo do futebol". O texto merece algumas críticas, mas não deixa de ser autêntico e de conteúdo valioso. Ele já havia deixado claro, em entrevista outra, sua admiração dentro e fora de campo por Richarlison, que fez dois gols na estreia do Brasil no Catar. Outrossim, dedicou parte de seu verbo apimentado a Neymar, que saiu de campo com tornozelo inchado e sem jogar o futebol que tantos esperávamos.

Não sou crítico literário, longe de mim ter essa petulância, mas passei boa tarde de minha adolescência entre Armando Nogueira, Tostão e Eduardo Galeano, que me dão estofo para entender um pouco de futebol, afora os chutes que dei nos jambeiros dos campos de pelada. Mas se Casagrande pede passagem, por que não abrirmos as portas que abrigam nossas leituras?

O texto de Casagrande é corajoso, diante da mídia que endeusa Neymar. Ao mesmo tempo é ranzinza, tanto quanto milhares de outros textos jornalísticos que deverão surgir daqui para frente, ante a um país ferozmente politizado. Parece que o nosso jornalismo está a zumbizar, diria Raul Seixas. Ou seja, parece que ficou escravo de pensamento político polarizado e, por conseguinte, maneta. A raiva do autor em relação ao atual presidente deixou o texto pichado, dado os motivos enfezados que regem a maioria dos brasileiros, tanto de um lado, quanto de outro. O texto ficaria bem melhor se ele esquecesse a política e focasse na arte futebolística. Ou faltou-lhe tutano para completar milimetricamente a coluna, ao aferir que Neymar “declarou voto ao candidato fascista e golpista...”. Precisa zum-zum-zumbizar tanto? Confesso que ultimamente tenho apertado o botão "detox" para a política, mas esse texto me deixa eufórico por ter contraponto de grande valor, pois o que se vê é uma mídia que endeusa um craque que ainda deve aos nossos corações, pleuras e pulmões.

Adiante, ao final do texto, tentando caetanear no que há de bom, pisou na bola e enterrou a poesia de Djavan, apesar da permissão. Pobre Djavan, que viu toda sua musicalidade esvanecer-se numa página que poderia ficar em silêncio. A homenagem a Caetano Veloso foi enterrada. Caetano é total influência em Djavan, assim como em tantos outros artistas da música, por isso a homenagem.

E o autor, querendo ser exemplo de comportamento social, escorrega na casca de seu discurso, e cai feito banana. Sabe-se publicamente que o Casão andou fora das quatro linhas por longos anos e agora resolve entrar de carrinho no tornozelo do Neymar. Menos, Casão! Poderias ter ficado na tua casinha, ou mesmo no quintal, tomando banho de cacimba, com a água benta que lhe retirou do fundo poço. 

Estaria então, o ex-craque ainda vivendo sua enfermidade neuronal? Segundo o filósofo coreano Byung-Chul Han, se já tivemos uma época bacteriológica, que chegou ao seu fim com a descoberta dos antibióticos, estamos agora vivendo o medo imenso de uma pandemia gripal, mas não parece vivermos uma época virulência, mas de violência. Graças à técnica imunológica, já deixamos para trás esse momento, em que pese perdas. Visto a partir da perspectiva patológica, o começo do século XXI não é definido como bacteriológico nem viral, mas neuronal. Doenças como a depressão, transtorno de déficit de atenção com Síndrome de Hiperatividade (TDAH), Transtorno de Personalidade Limítrofe (TPL) ou a Síndrome de Burnout (SB) determinam o começo do século XXI. Não são infecções, mas enfartos provocados não pela negatividade de algo imunologicamente diverso, mas cravada pelo excesso de positividade - ou de  polaridade.

O texto acima pertence à “Sociedade do Cansaço”, quando me chegou o texto do Casagrande. Han é professor de estudos culturais na universidade de Berlim e sua paixão pela escrita nos deixa essa pérola do pensamento contemporâneo que, a meu ver, embaraça nossa interpretação da vida privada. Até porque fora de campo, mas ainda dentro das quatro linhas, Casagrande foi voz de resistência à política esportiva escravizante, em seus áureos tempo de Corínthians, mas fora das quatro linhas, levou a vida pela rota das drogas.

Se o Casagrande está com dor de cotovelo – e até pode ser -, ele falou suas verdades e isso podemos até concordar, mas não precisava distorcer as preferências políticas do craque, tampouco entrar em devaneios com o Djavan, já que se diz curado das recaídas. 

domingo, 25 de setembro de 2022

A centésima voz

Nem tudo que se faz na medicina tem evidência máxima. Vai se construindo o aprendizado ao longo de descobertas, sem esquecer dos percalços. Em cirurgia das vias aéreas (Laringe e traqueia), compreende-se melhor o que se faz depois de já feito, como se fosse descoberta, como se fosse pintar as imagens com palavras de se ver e ouvir. Assim bem desenhou nosso centésimo paciente da série de cirurgias traqueais realizada no Hospital Público Estadual Galileu (HPEG): “Deu uma sangradinha de leve, mas a recuperação está sendo boa”, disse ele ao ser indagado sobre a evolução do primeiro dia.     

O ar frajola de seu testemunho deixa o jovem cirurgião, ao lado, com o rosto estupefato. Em seguida vem o riso frouxo. Se paciente brincou com a própria dor pós-operatória do primeiro dia, outrossim, comemorou a boa recuperação da voz, da respiração e da capacidade de sentir cheiro e ar passando pelas narinas. Brindou a vida após a longa espera na fila da eucaristia com as mãos atadas à esperança.


Somos três cirurgiões titulados pela Sociedade Brasileira de Cirurgia Torácica (SBCT). Tocamos esse trabalho todo sábado, como parte de um programa do governo do Pará, denominado TRAQUEOPLASTIA, cujo escopo é recompor a via aérea de usuários de traqueostomia. O programa comemora seis anos em outubro e já atendeu mais de 250 pacientes, entretanto a grande maioria dos procedimentos é endoscópica. Nem todos precisam de cirurgia aberta, todavia neste final de semana (24/09/2022) ocorreu o centésimo caso.

Cerca de vinte cirurgiões (locais, nacionais e estrangeiros) já estiveram presentes neste programa, tendo em vista o grande desafio que se tem com as operações neste compartimento específico do corpo humano. 

Durante esses seis anos há pedaços da memória que se colam ao cérebro, feito adesivos deixados na borda de cada página interrompida para o descanso da leitura - até que se chegue ao final da centésima página. Seríamos capazes de viver um livro de 100 páginas? Talvez. Se há aproximação com a com a literatura médica e a arte da cirurgia, nem precisaria tanto. Mas se há distâncias, haverá de conter mais de mil páginas, mesmo assim não se aguçaria o sentido da ordem. Cerca de vinte cirurgiões (locais, nacionais e estrangeiros) já estiveram presentes neste programa, tendo em vista o grande desafio que se tem com as operações neste compartimento específico do corpo humano.

Se o exercício da cirurgia acende suas páginas ao incisar cada pele, ou a cada despertar do sono anestésico, não se pode deixar de lembrar das diversas horas repelindo o insucesso. E que não deixemos de reconhecê-los como parte da caminhada, hoje às avessas desta escrita comemorativa.

Assim revivemos a centésima operação aberta nas vias aéreas no Hospital Público Estadual Galileu (HPEG), para que a fala desse jovem revele nosso prumo: “... mas a recuperação está sendo boa”.

quinta-feira, 15 de setembro de 2022

Causos de congressos

         Estamos em mais um congresso. É nos reaproximar de novos avanços, assim como novas ideias que buscam equilibrar-se sobre as linhas que costuram o tempo, em que tecemos o exercício clínico. Agora é hora de deixar as teias fiadas à luz do projetor e as têmporas abertas, por onde escorre a serotonina do aprendizado.
        Mas que não abandonemos os causos que nos levam ao riso frouxo. Esses é que marcam nossas reminiscências.
        Quantos de nós colecionamos causos de congressos? Claro, dirijo-me aos boêmios de carteirinha com vacina da Covid em dia. Quer dizer, melhor não dirigir: vai que tenha blitz no caminho? 
        Ainda que já tenha deixado o exercício da boemia pela compulsória, agora me resta contar história motivada por mais este encontro.
       Há congressos que até quando protagonizamos duvidamos ter acontecido. Ocasiões em que a gente não faz a menor ideia de como foi que tudo acabou e tenhamos conseguido sobreviver.
        O causo de hoje começa por um domingo de muitos e muitos anos atrás - talvez 2002-, quando certo personagem, que só líamos nos alfarrábios da medicina, esteve presente em nosso congresso. Nome do busto: Frederick Griffith Pearson. Hoje o busto está cravado na porta do centro cirúrgico do Toronto General Hospital. 
          Esse canadiano (assim falam os portugueses) completaria 72 anos naquele exato domingo, quando o evento científico já havia trancado as portas e passado o ferrolho. Como bom botequeiro, tínhamos ainda o domingo para passear, e não se podia deixar passar em branco. Elegemos um barco-boteco seguro para ver o encontro das águas dos majestosos Amazonas e Negro. Lembro de estar com os amigos Artur, Luis Carlos, Fernando e Manoel Ximenes (esqueci mais alguém?).              Final da tarde, dever cumprido com as caipirinhas, era hora de voltar. Só que, de última hora pintou um parabém, anunciado de supetão. Aliás, não sei como arranjamos uma vela, fósforo e um abacaxi para comemorar o aniversário de um dos maiores cirurgiões do mundo. Isso mesmo, bem ali no meio da maior floresta do planeta. 
         Então fizemos uma segmentectomia no cume do abacaxi com apenas um talho do bisturão (mistura de bisturi com facão). Com a coroa espinhenta fora, expusemos a porção carnosa da fruta e fizemos um pequeno furo no meio, para fincar a vela sete-dias-sete-noites, achada, por acaso, na caixa de máquina do barco. Até aí foi fácil. O difícil foi acender o pavio por conta da intensa ventania. Paramos o barco no meio do rio-mar, exatamente no encontro das águas, e pedimos ao deus Jurupari para que desse uma trégua e então pudéssemos comemorar o répi bôrtudei tchu-iú (é assim que se pronuncia na língua da rainha?). Enquanto isso, o aniversariante, que já havia aposentado o bisturi, ficava observando toda aquela muvuca com o olhar perdido, pois não compreendia nada de nossa língua tupi-guarani-nhangatu-camoniana.
         Até que em certo momento nós, já mais encaipiroscado que urubu  dançando carimbó na feira do Ver-O-Peso, Jurupari deu vez. Foi quando o pavio brilhou com suas chamas; o homem percebeu que era festa surpresa. Ficou emocionado ao perceber que era o protagonista daquela insanidade dos botequeiros. O piloto do barco devia estar achando que aquilo ali fizesse parte do roteiro. Nada disso. Tudo improviso. Foi Ximenes, velho amigo de outrora, quem dedurou o aniversário desse que foi um dos cirurgiões mais marcante da história da medicina moderna.
        Agora, só não me perguntem como tudo acabou. Já abordei Artur e Fernando, a quem sou mais chegado, mas eles também não lembram. Fiquei com vergonha de perguntar ao Ximenes, que batia na idade do Pearson, e à minha Valéria, para não perder o casamento que cativo desde quando era pé-rapado, no Rio de Janeiro. O fato ficou registrado em fotografia, pelas mãos dela.
        Lembrei desse causo outro dia, quando abri as páginas de um livro de história da cirurgia Torácica no Canadá e vi a tal foto de Pearson, comemorando seus 72 anos no meio da selva, naquele domingo, naquele barco singrando aquele sertão de águas. Na foto ele está ao lado de Manoel Ximenes, seu grande amigo e quem havia autorizado sua entrada no Brasil.
        Depois de estampar a foto do histórico livros, criei coragem de perguntar À esposa como tudo acabou. Pensei que tivesse sido história de assombração, mas sem dúvida, aquele foi um dos melhores botecos que já passei, ainda que por pouco tempo. Por algum tempo achei que tivesse sido um delirium-tremens cachaçônico. 
        Na dúvida é só abrir a página 172 da história da cirurgia no Canadá. E se alguém achar que tudo isso foi lenda, que valha a lenda.